Há uma maneira fácil de começar este texto: quando há alguma coisa que pode correr mal, vai correr mal. E correu. Lei de Murphy à parte, que já provou estar mais vezes certa do que o número de palavras deste texto, a demonstração de força do tradicional almoço da Trindade teve um pouco de tudo: momentos embaraçosos, discursos incontroláveis e o candidato ficar sem voz.

No princípio foi o microfone. Carlos do Carmo já estava impaciente com o feedback a que não estava habituado nos concertos enquanto fadista. Confessou que estava a perder o raciocínio, mas quando recuperou a voz foi para dividir a sala entre um “wow” incrédulo e umas palmas meio-meio. Ora o fadista, que se apresentou como nem “militante nem simpatizante”, mas também não é “antipatizante”, falou do ausente presente, José Sócrates, e embaraçou uma convidada especial de António Costa, Maria de Belém:

“Foi muito duro para António Costa fazer campanha com um ex-primeiro-ministro preso, com camaradas do partido a darem entrevistas sistematicamente a deitá-lo abaixo, e nas costas do líder do secretário-geral apresentou-se uma candidatura a Belém”. 

Mas houve mais. Ora, depois de um ataque cerrado do presidente da Câmara de Lisboa, Fernando Medina, ao PCP e o BE, foi a vez de o ex-líder do PS e candidato a deputado, Ferro Rodrigues arrancar risos na sala ao apelidar Passos Coelho e Paulo Portas de “pafúncios”. O trocadilho com o adjetivo e o nome da coligação PàF, para acusar a direita de arrogância e pedantismo.

Mas as palavras de Ferro Rodrigues foram também para a esquerda à esquerda do PS. De certeza, disse, que os eleitores do PCP “não gostaram das combinatas e avisos entre a direção do PSD e Jerónimo de Sousa. E os eleitores do BE não gostaram de ver todos os dias os atuais e os ex dirigentes do BE a atacarem o PS e não a direita”. Ferro ainda teve tempo para atacar o Presidente da República por este faltar à cerimónias do 5 de Outubro.

Depois de Ferro subiu ao palco António Costa, que presidia a uma mesa onde se sentavam nada mais nada menos do que 13 pessoas, um número azarado. Até aqui tudo normal, até que: “Há várias razões para as pessoas estarem indecisas”, dizia Costa. Tosse… e ficou sem voz. Retomará mais tarde, depois de almoço, mas deu ainda para passar uma mensagem política do início do discurso: os indecisos têm de votar porque é necessário não “gerar incerteza”.

“Não haveria nada pior no plano financeiro e económico do que gerarmos a incerteza e deixarmos para outros a escolha que cabe a cada português. Não vamos deixar para debates jurídicos, para jogadas políticas na Assembleia o que cada um pode soberanamente decidir”, disse. A frase tinha destinatário certo: Passos Coelho e Paulo Portas.

No fim do almoço, nova surpresa: as casas de banho alagadas para irritação de todos os presentes.

Depois do almoço, Costa vai descer o Chiado e por fim andar de cacilheiro até Almada para o comício final de campanha. É hora de perguntar: o que mais acontecerá ao candidato socialista?

P.S – (de post scriptum e não de PS) à atuação de Carlos do Carmo. Antes mesmo de se resolver o problema com o microfone foi interrompido pela chegada de Mário Soares.