Título: O Papiro de César
Autor: Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho)
Editor: Asa
Páginas: 48
Preço: 12,90 €O Papiro

Há uma maneira simpática e uma maneira antipática de analisar o novo livro de Astérix. A maneira antipática é dizer que ele não chega aos calcanhares dos melhores livros assinados por Goscinny e Uderzo – o que é verdade. A maneira simpática é dizer que este é o melhor livro de Astérix em 30 anos – o que também é verdade.

Tudo somado, e tendo em conta que três décadas de orfandade gaulesa conferem o direito a um certo consolo crítico e noticioso, mais vale começar pelos elogios e valorizar o facto de a dupla que tomou conta da série em 2013 – Jean-Yves Ferri (texto) e Didier Conrad (desenho) – ter resgatado Astérix do enorme buraco onde Albert Uderzo o tinha enfiado.

Estamos, claro está, a falar da qualidade artística da obra: em termos financeiros, e com a chegada da série ao cinema de imagem real em 1999, a máquina de produzir sestércios nunca deixou de carburar (os quatro filmes realizados desde então alcançaram quase 50 milhões de espectadores, só em França), e mesmo os últimos (e péssimos) livros assinados por Uderzo atingiram sempre tiragens de três milhões de exemplares.

Só que a certa altura, sobretudo com o inenarrável O Céu Cai-lhe em Cima da Cabeça (2005), onde entravam extraterrestres, super-homens, naves inspiradas na BD japonesa, um mau da fita que parecia o Duende Verde do Homem-Aranha e um bom da fita que tinha roubado as luvas ao rato Mickey, o caso atingiu níveis de inimputabilidade. Aquilo fazia tanto sentido num álbum de Astérix como marisco num cozido à portuguesa.

Perante isso, a família de Albert Uderzo lá terá arranjado finalmente coragem para convencer o senhor a parar de torturar os pobres gauleses, que apesar de resistirem ainda e sempre ao invasor estavam com manifestas dificuldades em resistir ao seu criador.

A verdadeira razão para isso já foi repetida inúmeras vezes: René Goscinny, o genial argumentista de Astérix, Lucky Luke ou Iznogoud, era a grande alma da série, e ela nunca recuperou da sua morte, no já distante ano de 1977.

Eram os seus notáveis argumentos que faziam toda a diferença, com a Gália do ano 50 a.C. transformada num engenhoso espelho onde se refletiam as preocupações da França contemporânea. Através de notáveis anacronismos e jogos de linguagem só acessíveis a leitores mais sofisticados, Goscinny mantinha ao mesmo tempo uma pulsão aventureira capaz de agradar aos mais jovens, e foi essa mistura de níveis de compreensão que impulsionou a série para o sucesso.

Para quem quiser saber mais sobre Goscinny, aqui fica um pequeno e divertido vídeo:

E aqui fica um longo documentário, René Goscinny: Profession Humoriste (1998), de Michel Viotte:

https://www.youtube.com/watch?v=TA7p7FGXr-k

Astérix não é caso único de orfandade – Lucky Luke padeceu do mesmo mal. Após a morte de Goscinny, Morris continuou a desenhar Lucky Luke com péssimos resultados, e ele só voltou a ter alguma gracinha recentemente, quando Achdé e Laurent Guerra pegaram na série.

Uderzo, nesse aspecto, foi mais inteligente, porque publicou muito menos e geriu muito melhor o legado de Astérix. Além disso, justiça lhe seja feita: Goscinny sempre foi excelentemente servido pelo magnífico traço de Uderzo, um argumentista medíocre mas um extraordinário desenhador.

Aliás, se o atual trabalho de Didier Conrad não deixa de impressionar pela sua fidelidade a Uderzo, há sempre ali qualquer coisa que fica aquém, tal como o falsificador de quadros tem grandes dificuldades em captar a verdadeira alma do artista. O traço é competentíssimo, sem dúvida, mas nunca atinge a elegância e a harmonia dos melhores momentos de Uderzo.

Só que o argumento de Jean-Yves Ferri, mesmo não chegando também ele perto do virtuosismo de livros como A Volta à Gália, Astérix na Córsega ou O Domínio dos Deuses, é muito mais consistente do que qualquer coisa que Uderzo tenha escrito. Ele parte de uma boa ideia inicial – a publicação da obra (autêntica) Guerras da Gália, de Júlio César – para a partir daí iniciar uma reflexão sobre as fugas de informação e o papel dos media no mundo actual. À boa maneira goscinnyana, existe um protagonista decalcado de Julian Assange (Gerapolémix), que tenta divulgar publicamente um capítulo eliminado de Guerras da Gália e é perseguido pelos romanos por causa disso, refugiando-se na inevitável aldeia gaulesa.

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Nesse sentido, O Papiro de César é bem mais conseguido e ambicioso do que o primeiro livro assinado pela dupla Ferri/Conrad em 2013, Astérix entre os Pictos, que se limitava a ser uma aventura mais ou menos convencional passada na Escócia. Ainda assim, o sucesso desse livro permitiu a Jean-Yves Ferri e a Didier Conrad largarem tudo o que faziam para se dedicarem em exclusivo a Astérix – e os resultados desse esforço são agora bem visíveis. Os novos pais do irredutível gaulês parecem estar definitivamente encontrados.

Não vale muito a pena continuar a chorar pelo Astérix das décadas de 60 e 70, porque, na verdade, não é só Goscinny que não volta – é também a nossa juventude e um mundo onde a banda desenhada era a porta de entrada de todos os miúdos no mundo das letras. Esse tempo acabou, levado por muitas das tecnologias que são agora parodiadas em O Papiro de César, pelo que mais vale conformarmo-nos com o que há. E o que há é isto: um novo Astérix que não envergonha o seu passado. Já não é mau.