Publicado em 1878, Humano, demasiado humano é o título de uma das obras de Nietzsche, o filósofo que concebia a possibilidade do advento de um sobre-homem que se diferenciasse dos demais pelo seu livre aperfeiçoamento por via da cultura e da ciência. Esta é uma questão antiga que inquietou antes pensadores como Espinosa, que perguntava «o que pode um corpo?»

Em certa medida, o sobre-humano nietzschiano era já um ciborgue, um ser híbrido feito de ciência e cultura, pronto a ultrapassar a limitada condição humana. No mesmo século, também a literatura se apaixonava por estes temas. Mary Shelley cria a fantástica história do monstro de Frankenstein, um ser feito de pedaços de cadáveres, verdadeira manta de retalhos composta num só conjunto animado pela ciência.

Com a rápida transformação social e a chegada de novas indústrias, o cinema encontra um filão na temática dos monstros e dos seres híbridos. Em 1927, Fritz Lang apresenta ao mundo a sua cidade futurista, Metropolis, revelando a separação entre o mundo tecnológico superior e o mundo operário inferior. A criação de uma mulher robot, à imagem da heroína Maria, é o elemento híbrido de ligação entre os dois universos, trazendo a si emoções como a paixão e a frieza de um corpo metálico. Esta maschinenmensch, ou máquina-humano, nunca mais abandonaria o grande ecrã.

Em 1959, a série televisiva Twilight Zone apresenta o episódio The Lonely, que conta a história de um presidiário isolado num asteroide, e que se apaixona por uma androide. Outro episódio, The Lateness of the Hour, de 1960, revela um drama familiar em que uma mulher descobre ser um dos robôs inventados pelo seu pai. Já nas décadas de 1970 e 1980, chegam os filmes de grande público, como Blade Runner, em 1982, e a sua história de caçadores de androides.

Em 1984, é Arnold Schwarzenegger quem encarna o ciborgue Terminator e, três anos depois, estreia Robocop, o polícia cibernético que não dá tréguas aos bandidos. Poderíamos ainda citar Keanu Reeves, em Johnny Mnemonic, de 1995, ou personagens intemporais como Darth Vader e até as máquinas com sentimentos humanos como são os Transformers.

A zona híbrida entre o humano e a máquina inspirou muitos realizadores, e um dos mais proeminentes é David Cronenberg, criador de thrillers de ficção científica como A Mosca, Videodrome e eXistenZ. Em todos eles a tónica não se fica pela relação entre o humano «natural» e a máquina «artificial». Cronenberg aborda questões psicológicas e de identidade, onde a carne e o metal se unem em pulsões de desejo: ainda o universo maschinenmensch que veio para ficar e não se limita já à ficção.

O documentário Mais do que Humano, segundo episódio da série Breakthrough, com transmissão no National Geographic Channel, no próximo domingo, apresenta, entre outros, o depoimento de David Cronenberg à conversa com o ator Paul Giamatti sobre as várias dimensões da seguinte pergunta: onde começa e acaba o corpo humano, física, mental e sensorialmente?

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Ícaro quis voar para lá dos limites que as suas asas artificias lhe permitiam e afogou-se no mar Egeu. A ambição humana em ultrapassar os limites da sua condição passou desde sempre pela tecnologia.

Hoje, ao falarmos ao telemóvel, com ou sem auscultadores, ao monitorizarmos os batimentos cardíacos enquanto corremos à beira-mar, ao jogarmos imersos em equipamentos de realidade aumentada, estamos constantemente aparelhados por extensões protésicas que fazem de nós aquilo que a ativista feminista Donna Haraway definiu, no seu Cyborg Manifesto: «Um ciborgue é um organismo cibernético, um híbrido de máquina e organismo, uma criatura de realidade social e também uma criatura de ficção».

Assim podemos ligar o GPS numa cidade desconhecida e circular pela cidade sem olhar para as placas ou para um mapa. Trata-se de tecnologia acoplada, como no caso dos vídeo-árbitros que se perfilam já no horizonte desportivo ou das próteses mecânicas de carbono como as que Oscar Pistorius utilizou para competir nos Jogos Olímpicos.

Se esta tecnologia «torna humano» quem está aquém, como qualificar as novas próteses biónicas digitais que potenciam a força e não requerem igual esforço muscular? Algumas resposta podem ser encontradas em Breakthrough – Mais do que humano:

Verão de 2014, Brasil: um adolescente paralítico dá o pontapé, literal, de abertura do Campeonato do Mundo de Futebol. O equipamento utilizado é um exosqueleto e um interface cérebro-máquina. Foi esta acoplagem que permitiu ao rapaz utilizar os seus pensamentos para controlar o movimento da perna biónica.

O trabalho por detrás deste movimento aparentemente simples vem de uma equipa de neurobiólogos da Universidade de Duke, que trabalham no desenvolvimento de interfaces sensoriais entre o cérebro e membros artificias que possam ser controlados pelo pensamento.

Também a Rice University acolhe um projeto de ponta na área sensorial. Chama-se VEST, trata-se de um colete desenvolvido pelo neurocientista David Eagleman, e permite sentir na pele os sons falados de um discurso. O equipamento utiliza uma aplicação de telemóvel para recolher os sons e traduzi-los para padrões vibratórios táteis que o utilizador pode sentir no peito.

SAO PAULO, BRAZIL - Paul Giamatti watching Eric in the walking trainer. 

(photo credit: Asylum Entertainment)

SÃO PAULO, BRASIL – Paul Giamatti watching Eric in the walking trainer. 

(crédito: Asylum Entertainment)

Já o Karolinska Institutet, na Suécia, está apostado em produzir tecnologia capaz de dar resposta a questões ligadas ao melhor desempenho no emparelhamento da biologia humana com as extensões artificiais. Um dos objetivos consiste em fazer com que as componentes tecnológicas funcionem como se fossem naturais.

Para tal, os investigadores procuram compreender de que modo o cérebro decide onde acaba o corpo e onde começam os utensílios protésicos. Mas não são só os membros que estão em foco nestas pesquisas, a ideia passa também por criar órgãos artificias de substituição do pâncreas ou dos pulmões, que possam ser peças de substituição quando um órgão natural deixa de funcionar ou não desempenha suficientemente bem as suas funções.

No capítulo da manipulação genética, é um admirável mundo novo que se abre. A possibilidade de esta tecnologia vir a ser utilizada para curar doenças é cada vez mais concreta, mas também se desenham movimentações no sentido de melhorar o armazenamento de dados.

Em 2012, cientistas de Harvard utilizaram a edição genética para codificar todo o conteúdo de um livro numa molécula de ADN. É por isso legítimo pensar que em breve será possível transportar connosco enormes quantidades de informação implantada no corpo.

Entre investigação sigilosa, realidade e especulação, a tecnologia já alterou a natureza do que significa ser humano. Não só pode a ciência e a tecnologia médica ultrapassar limitações e handicaps, como está também apta a «personalizar» os nossos corpos, já não com fármacos, mas com componentes físicas artificiais que configuram a chegada de uma era sobre-humana.

Num artigo intitulado Anamnese e Hipomnese, Bernard Stiegler, filósofo francês contemporâneo, fala da obsolescência do humano: «Quanto mais delegamos a assunção das séries de pequenas tarefas que constituem a trama das nossas existências aos aparelhos e serviços da indústria moderna, mais nos tornamos vãos; mais perdemos não só o nosso saber-fazer como também o nosso saber-viver – e, com eles, os sabores da existência; aí, já não prestamos senão para consumir cegamente.

Sem esses sabores que só os saberes conferem, ficamos incapazes. Tornamo-nos impotentes senão mesmo obsoletos – se é verdade que é o saber que nos dá a capacidade de sermos humanos». Quanto tempo mais?

Breakthrough: Mais do que Humano

National Geographic Channel domingo, 15 de novembro às 22h30