Segundo o jornal El Español, o Partido Socialista espanhol (PSOE) pode estar a equacionar fazer o mesmo que António Costa: se ficar em segundo lugar nas eleições de dia 20, procura alianças para governar. O líder do partido, Pedro Sánchez, até afirmou esta sexta-feira que “só haverá mudança política em Espanha” se o PSOE for a força política mais votada – nem que seja por “um voto”. “Caso contrário, Rajoy continuará como presidente do Governo”. Mas fontes do partido garantiram à publicação que a declaração faz parte da estratégia que Sánchez tem seguido – a de afirmar que uma vitórias nas eleições ainda é possível -, mas que o partido, perdendo as eleições, não descarta um entendimento com outras forças políticas para assumir a liderança do executivo.

O PSOE tem seguido nas últimas semanas uma estratégia de apelo ao voto útil, com o objetivo de convencer quer eleitores de esquerda ainda indecisos, quer possíveis votantes do Podemos. A mensagem é de que um voto no PSOE é a única possibilidade de derrotar a direita e o centro-direita espanhol: isto é, o PP e o Ciudadanos, que Pedro Sánchez tem classificado como partido de direita. Uma estratégia de bipolarização recentemente usada também pelo PS de António Costa, em Portugal.

Assim, o Partido Socialista espanhol, além da oposição ao Partido Popular, tem intensificado os seus ataques ao Ciudadanos e ao Podemos, de Pablo Iglesias. Sobre o primeiro, Pedro Sánchez tem sido duro: acusou Rivera, por exemplo, de “apoiar a reforma laboral do PP” e de “apoiar os cortes do PP”. Acusando-o, então, de “ser PP (Partido Popular)”. Do Podemos, o líder do PSOE tem falado de “desorientação” e de roubar votos ao PSOE. “Pode permitir que Mariano Rajoy governe” já alertou, reiterando que “a única opção de mudança é o PSOE”.

A estratégia de Pedro Sánchez tem sido assim, por um lado, distanciar-se ideologicamente do PP e do Ciudadanos, e por outro defender que o voto de mudança à esquerda só terá consequências governativas se for colocado no PSOE: “Se a maioria que quer a mudança [face ao governo de Rajoy] e se divide, a mudança é travada”, afirmou esta quinta-feira, desvalorizando também a última sondagem do Centro de Investigações Sociológicas (CIS) espanhol, que colocava o PSOE a quase oito pontos percentuais do PP.

Certo é que, para o PSOE, uma vitória por maioria absoluta nas eleições de 20 de dezembro é, neste momento, uma miragem. Se vencesse por minoria, o partido de Pedro Sánchez estaria condenado a encontrar uma coligação governativa: à sua direita (com o Ciudadanos) ou à sua esquerda (com o Podemos e a Esquerda Unida). Perdendo, restar-lhe-ia esperar que o Ciudadanos rejeitasse uma coligação com o Partido Popular, assumindo, a partir daí, a responsabilidade de encontrar outra solução governativa.

Mariano Rajoy parece, por ora, depositar todas as esperanças em que o PSOE não seja o partido mais votado no dia 20. E vai-se já preparando para uma eventual coligação com o Ciudadanos, encabeçada por si ou por Albert Rivera (dependendo do partido que for mais votado). Esta sexta-feira, por exemplo, o ainda presidente espanhol voltou a defender que o governo deve ser encabeçado pelo partido mais votado nas eleições (“O que queremos é que quem ganhe governe”). Mas disse também que não teria problemas em apoiar Albert Rivera caso o Ciudadanos vença as eleições. Pedindo, porventura, o mesmo em troca, se for Rajoy a encabeçar o partido mais votado.

As fórmulas, por agora, ainda são muitas. Mas estas são as várias possibilidades:

PP vence as eleições, Ciudadanos fica em segundo

Se assim fosse, caberia a Mariano Rajoy encontrar um partido com quem se coligar: e a sua única opção pode ser o Ciudadanos, de Albert Rivera. Neste cenário, tudo ficaria nas mãos do jovem político de 36 anos. Aceitando, estaria encontrada uma maioria de centro-direita. Rejeitando, Albert Rivera dependeria da posição do PSOE: ficaria nas mãos de Pedro Sánchez, que decidiria então se se coligaria com o Ciudadanos, ou se, mesmo sendo apenas o terceiro partido mais votado, lideraria ainda assim um Governo de esquerda.

PP vence as eleições, PSOE fica em segundo

O cenário ficaria muito parecido com o anterior: com uma diferença, porém. É que, neste cenário, se o Ciudadanos rejeitasse uma coligação com o Partido Popular, Pedro Sánchez teria maior poder para decidir que Governo formar: se mais centrista (apoiado pelo Ciudadanos) se de esquerda mais declarada (apoiado então pelo Podemos e pela Esquerda Unida, por exemplo).

PSOE vence as eleições

Vencendo o PSOE as eleições, será quase indiferente quem  fica em segundo, o Partido Popular ou o Ciudadanos: Pedro Sánchez teria toda a margem para ser ele a escolher que tipo de Governo formar e com quem. Se prefere coligar-se com as forças políticas à sua esquerda ou à sua direita é algo que ainda não esclareceu.

Ciudadanos vence as eleições

Neste cenário, o partido estaria seguro de que encabeçaria uma solução governativa – e Albert Rivera estaria seguro de que seria o primeiro-ministro do país. Possivelmente, a solução mais fácil de encontrar seria uma solução de coligação com o PP: Mariano Rajoy já afirmou que apoiará Rivera se o Ciudadanos for o partido mais votado. Mas Rivera poderá também olhar para a esquerda e ver Sánchez recetivo a uma coligação pós-eleitoral do PSOE (algo, contudo, menos provável de acontecer).

Texto editado por Filomena Martins.