Há os jogos que se perdem. Os que se empatam. E os que se vencem. Habitualmente, recordamo-nos mais das vitórias que dos empates e menos ainda que das derrotas. Mas também há derrotas, sem história, mas que têm histórias para contar. Ainda que se contem com muitos anos de atraso.

Recuemos a 20 agosto de 2011. Um sábado à noite no estádio da Luz, em Lisboa. O Feirense era estreante na Liga. Tinha subido à divisão das divisões vindo da Segunda. Logo aí, e com Quim Machado no banco, num campeonato de relvados lamacentos no inverno, onde a força impera sobre a técnica seja inverno ou verão ou o que for, logo aí as tardes de fim-de-semana em Santa Maria da Feira era de futebol. Do melhor futebol que se via naquele ano, naquele campeonato.

No estádio do Benfica, poucos meses depois, o Feirense foi jogar sem temores nem tremores, bola no pé, contra-ataques rápidos, até fez um golinho. Sofreu três, sim. Mas só se deu por derrotado no fim. Aos 91′. Quim Machado não chegaria ao final da época no banco do Feirense. É que os resultados ainda são mais importantes que as exibições para quem contrata e despede.

Mas Quim fez o seu caminho. E o bom futebol, aquele que não tem tempos mortos, perdas de tempo o tempo todo, aquele que não é de atabalhoamento, o tal que dói só de ver, o bom futebol era o caminho de Quim. Ele que quase subiu com o Chaves à Liga em 2014/2015. Mas acabou por treinar mesmo entre os melhores este ano, no Vitória de Setúbal.

O Vitória não está onde está, na primeira metade da tabela, por acaso. O Vitória de Quim é bom de bola. E hoje voltou a sê-lo. E logo contra o mesmo Benfica (que não é o de Jesus, mas continua a ser Benfica e “grande”) que defrontou em 2011, então no Feirense. Voltou a perder como então. Mas a história do jogo (como a de 2011 também não foi) não são só os seis golos e a derrota por 4-2.

O Vitória entrou como quis. Como gosta. A procurar o golo. O problema é que o Benfica também. E com um Vitória com dois avançados-centro, dois médios-ala ofensivos e um “10”, o Benfica foi ocupando o meio-campo com camisolas encarnadas. Sobretudo com aquela que tem decalcado um número pouco comum: o “85”, de Renato Sanches. Foi o miúdo da Musgueira que acelerou sempre o jogo. Erra passes, sim. Mas só erra porque tenta. E muita falta ele fez ao Benfica nos primeiros jogos da Liga, aqueles em que, não fossem Jonas ou Gaitán e ninguém assumia o jogo. Se ele lá estivesse, talvez os pontos para os rivais não fossem de atraso, mas de vantagem. Talvez.

Pizzi, que até é mais ala do que médio-centro (a posição à qual Jorge Jesus o adaptou com sucesso em 2014/2015) com Rui Vitória, ia frequentemente ao meio. E Jonas também. E com isso o Benfica ia dominando o jogo – e é no meio-campo que se decidem os jogos –, um jogo que foi de bola cá, bola lá, mas que rapidamente foi só de “bola lá”, quem é como quem diz, na baliza do Vitória.

Pizzi fez o primeiro golo, com uma mãozinha (ou falta dela) de Ricardo, o guarda-redes sadino, e um “nó” que Venâncio, o central, não desatou. O segundo foi Jonas que o fez, entre os centrais do Vitória, Venâncio e Semedo, que mais do que equipar de verde e branco, são também verdes, muito verdinhos a defender.

Mais vezes o Benfica lá fosse, mais golos faria. E fez mais um, o terceiro, num recomeço de jogo que foi mais do mesmo: o Vitória a querer agigantar-se, mas só na frente; a defesa era de palmo e meio, com fífia atrás de fífia. Foi Mitroglou a marcar entre as pernas de Ricardo. A noite não ia ser fácil para o guarda-redes.

O Vitória estava nas cordas, sim. Mas o outro Vitória, o Rui no banco do Benfica, começou a fazer substituições, foram saindo Jonas, Renato Sanches e Mitrolgou, e o Benfica foi sendo menos “mandão”.

Quim Machado também mexeu, mas não recuou. Tirou um extremo e pôs um avançado-centro, Vasco Costa. E serie ele, que em 2014/2015 andava pelo amador Fafe, a fazer o 3-1. O Vitória era mais perigoso no chuveirinho para a área do que a construir jogo (o meio-campo era curto para tudo, defender e atacar ao mesmo tempo). Mas foi precisamente quando mais perigoso foi, que o Benfica, em contra-ataca e às três tabelas, fez o 4-1. O último remate foi ao poste e só deu em golo porque resvalou no próprio guarda-redes do Vitória, que depois de um “frango” e uma “cueca”, ainda haveria de fazer um auto-golo.

Mas o Vitória ainda faria o 4-2. Se no primeiro golo foi um remate de Suk ao poste que deu origem à recarga de Vasco Costa. Agora foi o remate de Vasco a ser desviado pelo sul-coreano na pequena área, mesmo nas barbas de Júlio César.

Não chegou nem para empatar, quanto mais vencer. As muitas fífias na defesa e o meio-campo só por conta de Fábio Pacheco e André Horta (tudo o mais ou eram defesas ou avançados) complicaram a vida do Vitória. Mas o adeptos gostaram do que viram e aplaudiram a equipa no final — e os adeptos sadinos não são de se contentar com pouco; não é raro ouvir-se-lhes um “Raispartam, rapazes!” (ou pior) em xarroco.

Quim Machado disse no final que prefere perder por 4-2 do que jogar para o pontinho e ser derrota por 1-0 no último minuto. Um treinador de Santo Tirso e que treina no Bonfim, que nem sempre tem bons fins de jogo, mas que, a jogar assim, olhos nos olhos, podia estar a treinar num ilha chamada Inglaterra, onde a League é de primeira. Certamente que não seria despedido como em 2011.