O ex-secretário de Estado adjunto do ministro da Saúde, Leal da Costa, admite que houve atrasos no processo legislativo que permitiria corrigir a falha de assistência a doentes com aneurismas, aos fins de semana, mas lembra que já tinham sido tentadas soluções, que os profissionais de saúde recusaram. Reagindo à morte ocorrida no passado dia 14, Leal da Costa põe em causa a atitude dos profissionais.

“Do ponto de vista ético e deontológico houve algo que correu muito mal”, acusa Leal da Costa, falando ainda no “problema de comunicação entre os profissionais e a família”, numa entrevista, esta quinta-feira, ao Diário de Notícias, a primeira desde que a morte de David Duarte, no São José, foi conhecida.

E será que a culpa, neste caso, morre solteira? “Por um lado, houve falta de flexibilidade dos profissionais de saúde, por outro houve demora no processo legislativo. Há uma série de atos interventores que passam por mais do que um ministério”, esclareceu o ex-governante, garantindo porém que, “no essencial, estava tudo resolvido”. Para tal bastaria que “os profissionais tivessem aceitado desde logo [a solução]. Podiam ter tido mais paciência e confiado que se estava à procura de uma solução, mesmo que tivesse demorado”.

Profissionais recusaram solução apresentada pela tutela

Leal da Costa lembra ainda que os profissionais do Hospital de São José não foram os únicos a sofrer cortes. “Foram milhares os profissionais que estavam de prevenção e em presença física que tiveram este corte de 50% e que também tinham compromissos financeiros mas que continuaram a trabalhar. Isso aconteceu também com os colegas da via verde coronária. Neste caso houve uma pressão de uma equipa que não quis”.

Há aqui questões éticas e temos de fazer uma reflexão profunda sobre isso”, afirma o ex-governante Leal da Costa.

As condições, no pagamento das horas de prevenção, eram iguais para todos, sendo que em Coimbra os profissionais recebem um bónus pela intervenção, caso sejam chamados, e no Hospital de Santa Maria os profissionais recebiam como se estivessem a fazer uma cirurgia no âmbito do SIGIC (programa de gestão de listas de espera para cirurgia). “Propusemos o mesmo à equipa de São José, mas não quiseram. Acharam que era pouco…”

Quanto à proposta apresentada pelos serviços de neurorradiologia de Lisboa, este ano, para a criação de uma urgência metropolitana deste serviço, Leal da Costa explica que “a razão para não ter sido publicada a portaria foi desde logo ser véspera de eleições”. E mais tarde, “estando num governo de gestão, entendi que não seria decente fazê-lo já que iria haver um aumento da despesa”. Já no final de novembro, Leal da Costa diz ter entregado a proposta “mas é natural que o novo Governo tenha tido reserva na criação de um regime de exceção, já que todos os outros iram pedir o mesmo”.

“O que estava previsto era pagar um pouco mais às equipas de neurorradiologia. Penso que seria através de um bónus à deslocação dos profissionais que estavam de prevenção ou um pagamento pelo ato, quando tivessem de o realizar”, adiantou.

Presidente da Administração Regional de Saúde também já tinha falado em falha ética

Leal da Costa não é o único a colocar o ónus da responsabilidade pela morte ocorrido no São José nos profissionais de saúde. Também o presidente da Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo, Cunha Ribeiro, em entrevista esta semana à revista Sábado, afirmou que “nada desculpabiliza que o doente não tenha sido tratado”. “Se as pessoas que autorizaram não eram capazes de tratar tinham de ter contactado outras instituições, outros colegas capazes de o fazer”, reitera.

“Se o que li na imprensa é verdade, houve do ponto de vista ético da relação médico-doente, uma falha que como cidadão não aceito e que como médico repudio”, rematou o responsável que apresentou o pedido de demissão no dia 22, quando se soube da morte de David Duarte.

Os inquéritos à morte ocorrida no Hospital de São José, na madrugada do dia 14 de dezembro, estão a decorrer e ambos os responsáveis dizem que será preciso aguardar pelos resultados para perceber o que afinal aconteceu. Mas esta morte fez com que fosse já encontrada uma solução para o problema da neurocirurgia vascular e para a neurorradiologia de intervenção aos fins de semana, em Lisboa. Quatro hospitais – São José, Santa Maria, Egas Moniz e Garcia de Orta – vão assegurar, rotativamente, o serviço durante o mês de janeiro e a 1 de fevereiro entrará em vigor a solução definitiva, que poderá decorrer nos mesmos moldes ou outros. O Ministério da Saúde não esclareceu se esta medida passa por ter os médicos à mesma de prevenção – e nesse caso se os profissionais vão ser mais bem pagos – ou em presença física.