A incerteza política e a paragem, ou mesmo reversão, das reformas estruturais, vai penalizar a economia, trazendo à superfície as fragilidades estruturais de Portugal, avisa uma nota do Royal Bank of Scotland (RBS). Numa análise às grandes tendências económicas e ao seu impacto nos mercados, o RBS avalia os riscos políticos saídos dos resultados inconclusivos das eleições legislativas em Portugal e Espanha. Mas as conclusões não coincidem.

“Esperamos que a incerteza política e a sua ameaça à economia de Portugal prejudique o crédito português, que deverá ter um comportamento mais negativo que o espanhol, da mesma forma que acreditamos que o risco político em Espanha estará limitado a manchetes negativas” (nos media)

Depois de sublinhar que a recuperação portuguesa, assente no consumo e nas exportações, tem sido uma história de sucesso entre os países da periferia, o banco inglês destaca as “fragilidades estruturais” da economia nacional: um sistema bancário fraco, um elevado nível de dívida das empresas que trava o investimento e uma dívida pública demasiado grande (130% do Produto Interno Bruto).

Neste cenário, e na ausência de estímulos orçamentais, a recuperação portuguesa depende das reformas estruturais que devem centrar-se na continuação na desalavancagem pública e privada e no reforço do fragilizado sistema bancário. No entanto, “com um governo minoritário de esquerda a ameaçar reverter o muito necessário progresso das reformas, a recuperação portuguesa está risco”.

Não obstante a formação do Governo em dezembro, o RBS alerta que o tempo de governação pode ser curto, lembrando promessas de campanha feitas pelos partidos que apoiam o executivo de António Costa, algumas das quais vertidas para compromissos no atual programa de governo e já em concretização — subida do salário mínimo, descongelamento das pensões e reposição dos cortes salariais na Função Pública.

Para o banco, uma reversão de reformas que cause uma degradação das condições económicas pode limitar a vida do Governo. E a Constituição não permite que sejam convocadas eleições antes de abril, já depois de eleito o novo Presidente da República. Ao contrário de Espanha onde não existe a mesma restrição ao calendário eleitoral.

O cenário é aliás mais cor-de-rosa do outro lado da fronteira, apesar de ainda não ter sido possível formar Governo e da ameaça que vem da Catalunha. A Espanha já ultrapassou claramente a retoma da zona euro, com o produto a crescer 0,8% no terceiro trimestre em cadeia e o desemprego em queda, apesar de ainda ser muito elevado.

Nessa medida, e apesar dos resultados das eleições legislativas espanholas e do contexto político na Catalunha ser menos estável do que inicialmente antecipado, “acreditamos que os perigos políticos estão a ser exagerados face ao real risco de instabilidade”, diz a instituição.

O RBS olha ainda para os dois dos principais bancos de Espanha e Portugal, o catalão CaixaBank (acionista do BPI) e a Caixa Geral de Depósitos, recomendado aos investidores que comprem proteção para o risco da dívida do banco português. Exposição ao setor imobiliário, a fraqueza dos mercados emergentes e a as perdas potenciais com o Novo Banco, são alguns aspetos sublinhados.

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