Em pleno século XXI é exigido a qualquer jovem saber ler e fazer contas. Mas um relatório da OCDE, divulgado esta quarta-feira, vem traçar um cenário bem diferente. Em Portugal, 16.021 jovens de 15 anos, ou seja, 13% dos alunos desta faixa etária, tem dificuldades em por em prática conhecimentos básicos de Leitura, Matemática e de Ciências. Uma conclusão que pode, a longo prazo, pôr em risco o desenvolvimento económico dos países.

Os conhecimentos definidos no Programme for International Student Assessment (PISA), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), visam avaliar se os alunos de 15 anos, que estão a terminar a escolaridade obrigatória na maior parte dos países participantes, conseguem mobilizar as suas competências de Leitura, Matemática ou Ciências na resolução de situações relacionadas com o dia a dia. Diferente de serem capazes de reproduzir os conhecimentos adquiridos nessas áreas.

No relatório – “Estudantes de baixo rendimento: porque é que eles ficam para trás e como ajudá-los a ter sucesso” (tradução livre) – a OCDE conclui que cerca de 4,5 milhões de alunos (um em cada quatro alunos) com 15 anos, nos 64 países da OCDE, falha na aquisição de conhecimentos básicos de Leitura, Matemática e Ciências. “Isto significa que muitos jovens estão a sair da escola sem os conhecimentos básicos exigidos pela sociedade atual e pelo mercado de trabalho, com prejuízo para o seu futuro e crescimento económico a longo prazo”, refere a OCDE.

“O baixo rendimento na escola tem consequências a longo prazo para os alunos e para a sociedade. Um mau aluno tem tendência a abandonar a escola mais cedo, e quando uma grande fatia da população tem poucas competências, o desenvolvimento económico de um país pode estar comprometido”, lê-se no relatório.

Em Portugal, num universo de 127 537 alunos com 15 anos, concluiu-se que 24,9% dos alunos tiveram baixos rendimentos a Matemática, 18,8% a Leitura e 19% a Ciências. Ou seja, estes alunos têm dificuldades em, pelo menos, uma das matérias tidas como essenciais pelo PISA. 16.021 alunos têm problemas nas três áreas.

Portugal a melhorar

Entre 2003 e 2012 – o período analisado – foram poucos os países que conseguiram inverter este cenário. Portugal está entre o grupo (ao lado do Brasil, Alemanha, Itália e México, por exemplo) que conseguiu reduzir o baixo rendimento em termos percentuais. Na Matemática assistiu-se a uma redução de 5,2% na percentagem de alunos com baixo rendimento, na Leitura 3,1% e nas Ciências 5,5%.

Ainda assim, cerca de 34% dos alunos que participaram no estudo da OCDE já tinham reprovado, pelo menos, uma vez – empurrando Portugal para o oitavo lugar na lista dos países com mais repetentes

O retrato de um estudante com menor rendimento escolar

O relatório traça ainda um retrato dos alunos com menor desempenho escolar. Segundo a OCDE, um aluno mais fraco é “menos perseverante” menos motivado e menos confiante. Por isso também falta mais às aulas, tendo dificuldades em inverter este processo de falta de empenho. Para isso, adverte o relatório, os professores têm um papel moral fundamental. Uma vez que as escolas com professores que apoiam e motivam mais os seus alunos tendem a ter melhores alunos.

O ambiente em casa também é determinante. Estudantes com pais com níveis de educação superiores e a trabalhar em locais mais prestigiados ou mais bem pagos também apresentam melhores resultados escolares. Pais com educação e dinheiro permitem um maior acesso a explicações extra, a computadores, a livros, o que pode não acontecer no seio de uma família mais pobre. Por isso a OCDE recomenda medidas que promovam a igualdade dos estudantes.

A performance dos rapazes e das raparigas também é diferente. Os rapazes são mais desligados da escola, têm notas mais baixas, repetem mais o ano e preferem dedicar-se aos videojogos nas horas vagas. Elas têm melhores notas, são mais assíduas e dedicam mais tempo aos trabalhos de casa e à leitura. No entanto, ao contrário dos rapazes, são mais inseguras em relação à Matemática que os rapazes e inscrevem-se menos em cursos mais técnicos. São também menos propensas a ganhar experiência em estágios ou em pequenos trabalhos que possam ajudar na carreira profissional.

A OCDE pede aos governos de cada país para fazer do baixo rendimento escolar “uma prioridade educativa”, oferecendo às escolas “recursos adicionais”

(Artigo corrigido, no que se refere aos alunos que participaram no estudo, e atualizado a 11 de fevereiro.)