Luís Marques Mendes não tem dúvidas: as dificuldades negociais sentidas em Bruxelas, o “sentimento de instabilidade” que, diz, se instalou em Portugal e o “mal-estar” crescente com os parceiros da aliança de esquerda deixaram o Governo fragilizado. “Estas duas últimas semanas não correram nada bem e há aqui um sentimento de degradação política e económica. O Governo perdeu um bocadinho pé“, afirmou o ex-líder social-democrata no seu habitual espaço de comentário na SIC.

Marques Mendes falava sobre os sucessivos avanços e recuos do Governo no Orçamento do Estado para 2016 e sobre os vários desmentidos que foi obrigado a fazer para deixar um conselho: “Deviam parar para pensar e ser comedidos na forma como fazem as coisas”.

A título de exemplo, o comentador apontou as declarações de Manuel Caldeira Cabral, ministro da Economia, ao Diário do Minho. No sábado, o governante esteve em Braga para uma sessão de esclarecimento sobre o Orçamento. Àquele jornal regional, Caldeira Cabral não excluiu a hipótese de o Governo vir a cortar um dos subsídios aos funcionários públicos, num cenário negativo de descontrolo orçamental.

Ora, Marques Mendes disse esperar que esta informação seja “rapidamente desmentida”. Ou então “parece que se estão a repor os salários aos funcionários públicos por um lado, para depois se tirar por outro”, atirou o comentador.

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O aumento no preço por litro da gasolina e do gasóleo também mereceram reparos do ex-presidente do PSD. Para Marques Mendes, o Executivo deveria ter aplicado a medida depois de já ter o Orçamento aprovado. “O Governo fez uma portaria e, pela calada da noite, aumentou o imposto. Isto não é bom nem para a imagem do Governo, nem para a relação com as pessoas. Este tipo de comportamentos cria instabilidade e incerteza”, criticou.

E os sinais de incerteza, diz, já estão aí. A “imagem de Portugal” na Europa está a “degradar-se”, a relação entre PS, Bloco e PCP também, os “juros disparam”, os “agente económicos estão retraídos a ver o que vai acontecer” e a opinião pública também não encarou este Orçamento da melhor forma. “Um choque com a realidade” que, acredita Marques Mendes, pode ser um “ponto de viragem [negativo] para este Governo”.

As próximas semanas vão ser, por isso, decisivas. O comentador considera “muito provável” que o Governo venha a ser obrigado a aplicar um plano B para garantir o equilíbrio das contas. “Oxalá que não, mas é muito provável”, repetiu.

Novembro trará novos desafios a António Costa. Nessa altura, deverá ser discutido o Orçamento do Estado para 2017 e Marques Mendes aproveitou para deixar várias questões: o PCP vai-se manter firme como está? E o Bloco de Esquerda? O PSD viabiliza ou não viabiliza? Uma coisa é certa para o comentador: “Neste momento ninguém quer ir a eleições”. O PCP porque “está muito frágil” depois das presidenciais. O PS e a coligação “também não querem” porque continuam muito próximos nas sondagens. Apenas o Bloco, eventualmente, veria com agrado nova ida às urnas, já que continua a crescer, reconheceu o social-democrata.

Entretanto, o Governo desmente que esteja a preparar um corte de subsídio.