Os líderes europeus e norte-americanos estão a cometer “um erro grave” se pensarem que Vladimir Putin e a Rússia podem ser aliados na luta contra o Estado Islâmico, escreve o conhecido investidor e filantropo George Soros. Num artigo para o Project Syndicate, Soros diz que Putin está a ver na crise dos refugiados e na luta contra o Estado Islâmico uma oportunidade para “instigar a desintegração” da União Europeia e contribuir para que a Europa seja “inundada de refugiados sírios“. Dessa forma, acreditará o presidente russo, talvez Putin consiga salvar a sua própria pele.

Para Soros, a União Europeia e Vladimir Putin “estão, ambos, envolvidos numa corrida contra o tempo: a questão é saber qual é que vai colapsar primeiro”. Soros diz que não tem evidências de que Putin tenha instigado a crise na Síria mas, assim que o Presidente russo se apercebeu de que poderia haver ali uma “oportunidade, aproveitou-a“. 

NEW YORK, NY - NOVEMBER 06: Honoree George Soros speaks onstage at the Annual Freedom Award Benefit hosted by the International Rescue Committee at the Waldorf-Astoria hotel on November 6, 2013 in New York City. (Photo by Mike Coppola/Getty Images for International Rescue Committee)

George Soros diz que é um “erro grave” confiar na palavra de Vladimir Putin. (Foto: Mike Coppola/Getty Images for International Rescue Committee)

Aviões russos, recorda Soros, têm bombardeado as populações do sul da Síria, obrigando as pessoas a fugirem para a Jordânia e para o Líbano. E têm, também, atacado o norte do país, levando a um êxodo de dezenas de milhares para a Turquia e para a Grécia. Enquanto isto, “Putin tem camuflado as suas ações com juras de cooperação contra um inimigo comum, o Estado Islâmico”. Mas os líderes europeus e norte-americanos devem ter cuidado, porque Soros diz que “Putin está a fazer o mesmo na Ucrânia, assinando o acordo de Minsk mas não cumprindo os termos do acordo”.

É difícil compreender porque é que os líderes dos EUA e da União Europeia acreditam na palavra de Putin, em vez de o julgar pelo seu comportamento. A única explicação que encontro é que os políticos democratas querem reconfortar os cidadãos pintando um cenário mais favorável do que a realidade.

“Os ataques promovidos por terroristas jihadis, por muito aterradores que sejam, não se comparam com a ameaça que vem da Rússia”, afirma Soros, um país que está em crise económica grave. Putin terá eleições parlamentares no outono e continua com índices de popularidade elevados. Mas Soros lembra que essa popularidade pode inverter-se muito rapidamente se as condições de vida na Rússia piorarem de forma abrupta.

Do outro lado está uma União Europeia que “está confrontada com cinco ou seis crises ao mesmo tempo, o que poderá acabar por revelar-se demasiado”, escreve George Soros. “Como Merkel corretamente anteviu, a crise dos refugiados tem o potencial para destruir a União Europeia” e é preciso reconhecer a “ameaça difícil que vem da Rússia de Putin”. “Não reconhecer [essa ameaça] tornará a tarefa [de evitar o colapso] ainda mais difícil”, conclui o magnata.