Outro dia, alguém convenceu um defesa a escrever sobre como se defende. Acontece que Jérôme Boateng acha que, no campo, os “segundos são como luxos”. É isso que separa o dono da bola do ladrão, quem a tem para marcar um golo de quem a quer roubar para evitá-lo. O central explicava que “um segundo é tudo” o que precisa “de ter contra um gajo” até ao ponto de confessar que essa é “a maior arma” que lhe podem dar. Acontece também que Boateng é internacional alemão, um defesa dos bons e sabe perfeitamente o que é jogar contra o Bayer Leverkusen. Como deveriam saber os leões.

Porque é coisa que esta equipa faz questão em não dar a ninguém quando a bola lhe foge. É asfixiante, maluco quando falha um passe, tem um jogador desarmado ou vê o adversário a recuperar uma jogada. Os jogadores pressionam logo na área dos outros, cercam quem joga na outra equipa e arriscam cansar-se para não deixarem os contrários terem tempo, ou espaço, para decidirem o que fazer às bolas que recuperam. Raro foi o jogador do Sporting que, em Alvalade, teve mais que um segundo para pensar como iria começar a jogada que tiraria a equipa da sua metade do campo. Por isso já todos deveriam saber que seria assim em Leverkusen.

Durante 20 minutos, os alemães não deram segundos a ninguém. Apertavam com tudo, juntavam homens no sítio onde perdiam a bola e recuperavam-na rápido. Faziam mal aos leões assim, com remates de Karim Bellarabi e Kiessling que assustavam Rui Patrício e aqueciam a garganta de Jorge Jesus. Os leões demoraram a perceber que ou saíam a um, dois toques, ou chutavam a bola para a frente, sem tino, para optarem pelo menos mau de dois males. João Mário foi dos primeiros a entendê-lo e exemplificou-o para os laterais, João Pereira e Jefferson, o verem e começarem a imitar.

Só assim saía da área e mostrava como o modo de defender do Bayer era uma faca com dois gumes: agressiva à perda de bola na frente, preguiçosa e mole a recuar jogadores para fechar perto da sua baliza. Depois de Bruno César obrigar Leno a cerrar os punhos na bola (26’) e cruzar rasteiro para Carlos Mané rematar para a bancada, os leões acordaram. Aos poucos toques de João Mário juntava-se a calma de Aquilani quando a bola estava mais perto da baliza alemã do que da leonina. Com segundos em fartura, o Sporting trocava a bola como queria, mas quando Bruno César não quis cair com uma carga de Jedjav na área e deu um cruzamento de barato, os leões sofreram.

Liga Europa: Bayer Leverkusen vs Sporting

Foto: Gerardo Santos / Global Imagens

Ninguém pensou por um segundo em parar em falta o contra-ataque que Kiessling e Chicharito montaram para libertarem a corrida de Bellarabi. Junto à linha de fundo, optou pela única hipótese que tinha e corre-lhe bem porque as pernas abertas de Rui Patrício deixaram passar a bola que o alemão rematou. Os leões continuavam a precisar de um par de golos e conseguiram um pouco depois, quando deram a terceira prova de como Çalhanoglu, um 10 puxado para médio centro, era companhia a menos para Christoph Kramer. O turco perdia mais segundos a atacar como a defender e, ao terceiro cruzamento rasteiro que o Sporting tirava para Carlos Mané, à entrada da área, deu golo. Não do extremo, que viu Leno parar-lhe o remate, mas por João Mário, que aproveitou a recarga.

A segunda parte manteve as equipas desconfiadas uma da outra, temerosas do que um golo sofrido lhes poderia fazer. O Sporting, a quem o risco mais piscava o olho, ousaram dar a provar ao Bayer o mesmo veneno que os alemães lhe tinham servido. Avançaram uns metros, pressionaram na frente, corriam mais cortarem nos segundos que os alemães tinham com as bolas que recuperavam. Obrigou o Leverkusen a recuar e William, João Mário e Aquilani iam conseguindo ter mais que um segundo a bola no pé. Assim ficou mais ou menos até aos 60 minutos, até onde Jorge Jesus viu a equipa estar “muito bem”.

Mas a altura em que leões “com outro andamento” podiam acelerar os segundos com bola (Bryan Ruiz e Islam Slimani), para aparecer o golo que faltavam, foi a mesma em que William Carvalho demorou um segundo a mais a recuar — quando uma bola recuperada pelo Bayer, a meio campo, foi ter com Karim Bellarabi à esquerda e nem João Pereira ou Naldo lhe apertaram o caminho porque tinham adversários a desmarcar-se nas costas e não tinham o apoio do trinco. O alemão foi correndo com a bola e, em dois segundos, levou-a até à entrada da área para estoirar um remate em que Rui Patrício não conseguiu tocar. Ficava difícil.

Volto a dizer que, neste momento, o grande objetivo que temos é o campeonato. Estamos numa luta a três e esta pressão de estar em primeiro é muito boa para quem não está habituado a isso há muito tempo” — Jorge Jesus

Mais ainda quando a lesão de Kiessling convenceu o treinador do Bayer a tirar um avançado para colocar um trinco (Ramalho) no jogo. Os alemães já davam mais segundos ao Sporting para montar jogadas desde trás, preferindo fechar nos sítios onde o melhor que os leões fizeram foi um cruzamento rasteiro de Jefferson que quase chegava aos pés de Slimani. O Leverkusen deixou de arriscar e era isso que Jonathan Tah pareceu evitar aos 86’, quando chutou de qualquer maneira uma bola que tinha a saltitar à frente. Mas estava a pontapeá-la da maneira a que, um segundo depois, Çalhanoglu estivesse na área a batê-la à bruta, de primeira, para deixar Rui Patrício sem reação.

O 3-1 matava o Sporting e dava-lhe uns minutos até se despedir da Liga Europa. Como Jorge Jesus nunca dissera, mas, lá no fundo, sempre mostrara querer. O treinador que confessou ter “um problema” quando viu a equipa com hipótese de sair viva da fase de grupos fica, assim, apenas com o campeonato com que se preocupar. E nem um segundo é preciso para saber que Jesus já disse, muitas vezes, que era essa a prioridade. Agora, é a única competição que resta ao Sporting.