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Sabugueiro. Uma aldeia futurista no topo da Serra da Estrela

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O Sabugueiro é uma das aldeias mais remotas do país mas, graças a um novo projeto, já tem fibra ótica e tecnologias que ainda não chegaram às cidades.

O Sabugueiro localiza-se em pleno Parque Natural da Serra da Estrela, a 1.100 metros de altitude

Flávio Nunes/Observador

Fica perto do cume da Serra da Estrela e, para lá chegar, é preciso percorrer uma estrada sinuosa que serpenteia montanha acima. Atravessá-la pode ser uma dor de cabeça e simultaneamente uma aventura perigosa, em dias de neve ou nevoeiro. Estamos a falar do Sabugueiro, uma localidade do concelho de Seia e uma das aldeias mais remotas — e emblemáticas — do país.

Mas se é difícil de chegar ao Sabugueiro, traga-se o Sabugueiro até nós. Ou melhor: ligue-se o Sabugueiro ao mundo (digital, claro). É que graças a um projeto da Câmara Municipal de Seia, em conjunto com a Fundação Vodafone e outros parceiros, esta pequena pérola no topo da montanha passou a ter um novo título: o de Aldeia Inteligente de Montanha.

Com um investimento a rondar os 300 mil euros, o projeto levou a fibra ótica até ao Sabugueiro e equipou a localidade com tecnologias que ainda não se encontram em qualquer lado, principalmente na área da “Internet das coisas”. Desde logo, o novo sistema de monitorização da saúde, OneCare Sensing, que permite aos profissionais do Lar e Residência Sénior da aldeia fazerem um acompanhamento contínuo da saúde dos utentes.

As novas tecnologias permitem reduzir a distância entre utentes e médicos

Esse acompanhamento é feito com recurso a aparelhos de monitorização dos sinais vitais ligados por Bluetooth a um tablet Android. Cada utente tem um perfil no sistema, protegido com uma senha. As medições dos aparelhos ficam assim associadas ao a cada utente e são enviadas para a cloud, tornando-se imediatamente acessíveis a partir do Centro de Saúde de Seia.

Aí, um médico observa periodicamente os perfis destes utentes, fazendo uma apreciação e as devidas recomendações, quando necessário. Para já, e além do Lar da localidade (que é propriedade de uma IPSS, a Associação de Beneficência do Sabugueiro), outras 20 unidades terão sido instaladas em habitações do Sabugueiro.

Uma aldeia mais sustentável

Outro dos objetivos do projeto passou por tentar reduzir ao máximo o consumo de energia. E isso leva-nos de volta ao Lar do Sabugueiro, um dos edifícios que regista os maiores consumos energéticos na aldeia — cerca de 70 mil kW/ano. Foram instalados equipamentos de controlo de consumos que, ao longo do tempo, terão permitido traçar um perfil de consumos do edifício e cortar, em dois anos, 30% da despesa energética do Lar.

Tecnologias deste género foram também instaladas em várias habitações — 10% do edificado do Sabugueiro — e num dos postos de transformação responsáveis pelo fornecimento de energia aos habitantes da aldeia. A redução terá chegado a cerca de 2,4 kWh por dia.

A aldeia passou ainda a contar com iluminação pública através de lâmpadas LED — ao todo, terão sido instaladas 24 luminárias na aldeia –, bem como com um automóvel elétrico (Nissan Leaf) para, por exemplo, transporte da população até ao Centro de Saúde mais próximo. O projeto foi também responsável pela requalificação do Posto de Turismo do Sabugueiro que, antes disso, “era um espaço que não tinha dignidade para receber os turistas”, como referiu Célia Gonçalves, técnica da Câmara Municipal de Seia e coordenadora técnica do projeto da Rede das Aldeias de Montanha.

Entre outras soluções encontradas para a aldeia esteve a introdução de iluminação LED em redor da igreja local, bem como a instalação de tecnologias que permitem a gestão à distância do reservatório de água da localidade, bem como da estação de tratamento de águas residuais.

“Barreiras burocráticas” criaram dificuldades

A aplicação deste projeto não foi fácil do ponto de vista burocrático. Na apresentação do projeto — um evento que decorreu no Sabugueiro a 23 de fevereiro e onde também esteve presente José Mendes, Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente –, foram várias as referências às “barreiras burocráticas” impostas pela Comissão Nacional de Proteção de Dados (CNPD).

A primeira referência partiu de Célia Gonçalves ainda antes da apresentação oficial, quando questionada se o sistema de monitorização era pioneiro no país. A coordenadora técnica referiu que “o facto de termos [tido] tanto tempo de espera por parte da CNPD mostra que estamos a falar de um projeto inovador”. E acrescentou: “Tem a ver com o acesso à informação dos dados dos doentes, [que] não é efetivamente um processo normal. É quase uma rede informal de cuidados de saúde e é um projeto pioneiro que obrigou a algum cuidado por parte da CNPD.”

No entanto, a principal tomada de posição partiu de Jorge Brito, presidente da Associação de Desenvolvimento Integrado da Rede de Aldeias de Montanha (ADIRAM), que falou de um “autêntico calvário” que teve de ser ultrapassado aquando da “implementação do sistema inteligente de monitorização de parâmetros de saúde”. Jorge Brito disse ter sido “difícil” e acrescentou que “neste projeto, tão qualificante como necessário para esta população — muitas vezes isolada e entregue a si mesma — deparámo-nos com uma CNPD pouco facilitadora na implementação deste projeto. E por muito que explicássemos o caráter experimental da iniciativa e a singularidade e a particularidade do Sabugueiro, a resposta era sempre a mesma”.

Nesse sentido, Jorge Brito dirigiu-se ao Secretário de Estado José Mendes, dizendo que “numa altura em que sabemos que uma das preocupações deste Governo é o programa Simplex+ — e que o Governo recolhe contributos por todo o país –, por favor leve esta nota do quão difícil foi implementar esta solução, do quanto melhora a vida das populações e que foi constantemente atropelada por burocracias e procedimentos sem sentido”.

O próprio presidente da Fundação Vodafone, Mário Vaz, não ficou alheio à questão, tendo referido a necessidade de “agilizar o enquadramento legal que conserva a integração de soluções tecnológicas nos processos tradicionais”. “É muito importante que estas barreiras burocráticas sejam ultrapassadas”, disse.

O Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, José Mendes, também discursou na apresentação do projeto

Num discurso de cerca de 20 minutos, José Mendes, Secretário de Estado Adjunto e do Ambiente, optou por referir a importância da conectividade proporcionada pela iniciativa: “Neste caso concreto, com o projeto que vimos aqui hoje, estamos a trabalhar muito a conectividade. E a conectividade [é] muito importante, porque é catalisadora para todas as outras dimensões do sucesso. Eu se estiver mais conectado consigo atrair investimento, consigo atrair talento — ou reter talento. Se tiver mais conectividade tenho mais possibilidades de ser mais sustentável. Se tiver mais conectividade consigo transmitir os meus valores de autenticidade — como é o caso da região — a potenciais turistas, por exemplo.” E acrescentou: “Estamos aqui a apostar fortemente na autenticidade e acho esta iniciativa absolutamente brilhante.”

Além da Câmara Municipal de Seia, da ADIRAM e da Fundação Vodafone, o projeto foi implementado em colaboração com a Unidade Local de Saúde da Guarda, com a Junta de Freguesia do Sabugueiro, com a Associação de Beneficência do Sabugueiro e com a Águas de Lisboa e Vale do Tejo.

Editado por Pedro Esteves.

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