Se não é recorde, andará lá perto. Ainda não tinham decorrido nem dez minutos de sessão pública de esclarecimento sobre as obras do eixo Marquês de Pombal – Entrecampos e já havia pessoas da assistência a protestar. A sessão promovida pela Câmara Municipal de Lisboa no mercado 31 de Janeiro atraiu cerca de 200 moradores das Avenidas Novas e muitos deles queixaram-se logo a início que não conseguiam ver o PowerPoint que o vereador do Urbanismo trouxe para explicar os trabalhos. Os ânimos exaltaram-se a tal ponto que Manuel Salgado esteve para pôr termo ao debate ainda antes de ter começado. “A reunião fica por aqui. Vamos marcar uma nova reunião.”

Convencido a ficar, mas ainda sob forte contestação popular, o vereador acabou por anunciar uma das novidades da noite. A câmara “conseguiu já fechar um acordo” com uma das empresas que gerem parques de estacionamento nesta zona, disse Manuel Salgado. Ao todo, a autarquia assegura 165 lugares nestes parques aos moradores, 24 horas por dia, por 25 euros/mês. O estacionamento é uma das principais preocupações dos habitantes das avenidas Fontes Pereira de Melo e da República, que devem entrar em obras no fim deste mês ou no início do próximo — e cujo projeto prevê uma redução significativa de lugares.

Os presentes no 31 de Janeiro não ficaram convencidos com a novidade do vereador, alegando que o preço é incomportável (atualmente pagam 12 euros por ano pelo dístico de residente) e que os parques propostos pela câmara não servem. O acordo anunciado por Salgado contempla cem lugares no parque do Campo Pequeno, 50 no Picoas Plaza e 15 num parque da Duque de Ávila. E o preço proposto é “incomparavelmente mais baixo do que qualquer uma das tarifas que se praticam” hoje em dia, argumentou o vereador. “Julgava que iam fazer um parque que seria grátis para os moradores”, disse um munícipe, admitindo que já tem “cabelos brancos” com este tipo de projetos.

“Onde é que eu ponho os miúdos pequenos para ir estacionar o carro? Deixo a minha mãe doente, de 87 anos, à porta de casa enquanto vou procurar um lugar?”, questionou outro morador. E Carlos Barbosa, presidente do Automóvel Club de Portugal, acusou a câmara de apenas ter feito este projeto “para tirar carros da cidade” e para “criar conflitos”, tanto com os automóveis como com os moradores.

Nas poucas intervenções que fez, Manuel Salgado lembrou sempre que este projeto já foi discutido várias vezes. “Estas reuniões com os moradores já começaram em 4 de dezembro de 2014”, disse o vereador, recordando em particular um debate ainda mais aceso do que este, em outubro do ano passado, em que se comprometeu com algumas alterações ao projeto. Acusado de não ter feito “uma vírgula” de mudanças pelo vereador do CDS, João Gonçalves Pereira, o responsável pelo Urbanismo da câmara apresentou mais uma novidade. Depois das obras, na Avenida da República, 68% dos 271 lugares de estacionamento serão exclusivos para moradores.

“Tudo o que pudermos aperfeiçoar, aperfeiçoaremos”

Mesmo entre os munícipes que destoaram da maioria e elogiaram o projeto, houve dúvidas e preocupações com o estacionamento. Uma moradora, que à semelhança dos restantes não se identificou, sublinhou que a ideia da câmara — de aumentar as zonas pedonais e plantar mais árvores ao longo das duas avenidas — vai trazer “melhorias para quem mora aqui”, mas disse a Salgado que “tudo aquilo que está planeado não se coaduna com o volume de tráfego em Lisboa”.

“O que pretendemos é ordenar todo este espaço”, disse o vereador, para quem as obras vão criar uma cidade “mais saudável” e “mais sustentável”. Mas para o presidente da Associação de Moradores das Avenidas Novas, José Soares, “este projeto não é suficiente” e carece de mais debate. “Estão a confrontar-nos com uma solução final”, gritou um dos presentes. Logo outro sugeriu “democracia popular” e propôs um “voto de braço no ar”. Só que, com a empreitada já lançada e adjudicada, muitos moradores acreditam que já não é possível fazer qualquer alteração ao projeto. “Tudo o que pudermos aperfeiçoar, aperfeiçoaremos”, disse apenas Salgado.

Orçados em sete milhões de euros, os trabalhos têm a duração prevista de nove meses. “Pensamos que até ao final de 2016 a obra esteja concluída”, afirmou Manuel Salgado.