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Os congressos também servem para isto: alinhar estratégia, distribuir argumentos e tentar galvanizar as tropas para o combate, sobretudo estas, que lidam pela primeira vez com uma solução governativa em que nunca tinha acreditado. António Costa quis aproveitar o discurso de encerramento do Congresso do PS para artilhar as hostes e pedir “otimismo”: mesmo com o país (permanentemente) na mira europeia, com uma nova relação à esquerda, com autárquicas a meio caminho, com protestos por causa das medidas na Educação. É a receita que lhe tem feito “bem à saúde”, garantiu, depois de ter respondido ao “irritantemente otimista” que Marcelo Rebelo de Sousa lhe colou: “É verdade sou otimista”. Receitou a fórmula aos socialistas, entre outros preceitos de que podem precisar nos tempos mais próximos. Se é socialista (e se não é também deve ler), veja aqui os mandamentos do líder:

Sejam europeístas (e dos federalistas)

Vamos imaginar que um bloquista lhe oferece um tratado europeu para rasgar. Diga não e responda: “Por vezes é difícil ser socialista no quadro da União Europeia. Mas fora do quadro da União Europeia é impossível ser socialista”. António Costa quis marcar esta linha e com vermelho forte. Mas também carregou nas tintas quando falou na União Monetária, pedindo um “orçamento justamente partilhado com capacidade para corrigir as assimetrias de todos os estados-membros”. O federalismo é para voltar em força ao discurso socialista, com o secretário-geral a explicar o que quer dizer quando pede maior articulação entre os Estados para responder a problemas como as alterações climáticas, o terrorismo ou os refugiados com um exemplo máximo de federalismo: “Como já fizeram os Estados Unidos”.

Ainda no capítulo europeu, Costa não esqueceu outra “tentação” a que os socialista têm de resistir: “as tentações neoliberais”. Foi por isso que apelou à “mobilização de todos os socialistas e sociais-democratas. Se continuarmos a deixar que a direita seja dominada pela ideologia neoliberal, não teremos uma alternativa no espaço democrático”. A separação das águas faz-se, segundo o líder socialista, sem cair no radicalismo oposto. Por isso, se um democrata-cristão lhe disser que não pode ser europeísta quem ataca a Comissão Europeia, a resposta é: “Não é por haver divergências com a Comissão Europeia que deixamos de ser pró-europeus. Como ninguém deixa de ser patriota por divergir da linha de orientação maioritária do seu país. Só nas ditaduras é que a divergência constitui uma dissidência”, diz.

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Tentem consensos, mas contra sanções e por novas regras locais

Os apelos aos consensos voltaram à ordem do dia e vai deparar-se com vários. Pede o Presidente da República, desafia o líder do PSD. No discurso de encerramento do Congresso, Costa falou em dois que estão na sua lista de prioridades (nenhum alinha com os que foram desafiados).

O primeiro é sobre as sanções que a Comissão Europeia pondera aplicar a Portugal por défice excessivo em 2015, com o líder socialista a pedir que se aprove no Parlamento uma resolução contra as sanções. E provoca (em jeito de desafio) a direita portuguesa — que se tem manifestado contra as sanções — com o apelo do “líder europeu do PSD e CDS à aplicação de sanções. Vimos um alemão socialista, presidente do Parlamento Europeu [Schulz], dizer que não aceita sanções contra Portugal”.

Este Governo não contará uma má história sobre a realidade do país, como o anterior fez em 2011. Bater-se-á para que nenhuma sanção seja aplicada a Portugal. Seria uma enorme injustiça”

Mas em matéria de sanções, também atira às instituições europeias pela falta de oportunidade do debate, quando há outros temas prioritários em cima da mesa: “Só esta semana morreram mil seres humanos, pessoas como nós, afogados no mar Mediterrâneo a tentar chegar à Europa e o que ela se quer entreter a discutir é se Portugal excedeu em duas décimas o limite do défice orçamental”.

O segundo consenso decorre da prioridade legislativa que António Costa colocou: mudar regras de eleição já para vigorarem nas próximas autárquicas. É que o líder do PS quer que nas eleições de 2017, os presidentes das áreas metropolitanas de Lisboa e Porto sejam eleitos diretamente. A alteração implica uma lei eleitoral, pelo que precisa de uma maioria de dois terços. Costa é mais ambicioso e coloca a “unanimidade” como “desejável”. Além disso, o socialista também quer que à frente das Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional (CCDR) passem a estar líderes eleitos (e não nomeados pelo Governo) pelos autarcas de cada região. Também quer transferir mais poderes para os poderes locais, já para os autarcas que saírem das eleições de outubro de 2017. É meio caminho andado para a regionalização, garante o socialista que atira ao atual impasse: “Nem se faz a regionalização, nem se avança na descentralização. Façamos a descentralização!”

António Costa garante que estes passos podem todos ser dados “dentro do quadro constitucional”, mas nem por isso deixa de querer que se trabalhe “de forma tão consensual quanto possível e unânime”.

Respeitem a “mãozinha” mas com conta peso e medida

Quanto às eleições autárquicas em si mesmas, o líder já ditou uma regra: “Como habitualmente e em regra, vamos com o nosso próprio emblema e com as nossas cores”. O que existe no país — a geringonça — não ter de ser repetido a nível local, garantiu Costa. “Os acordos celebrados têm incidência parlamentar, não cobrem as eleições locais. E cada um fará por si o melhor que souber e puder”. Ou seja, sozinhos ou acompanhados (sem grandes pudores sobre esquerda ou direita).

Para despistar fez elogios a coligações de um lado e de outro, começando pela coligação de forças na Madeira. Mas também não deixou de fazer o apelo às forças locais, para que deem importância aos movimentos de cidadãos independentes. E referindo-se aos acordos que existem e que devem ser mantidos, Costa teve uma tirada que apanha em cheio a recandidatura de Rui Moreira (sem o referir) no Porto: “Eu também gosto muito do emblema da mãozinha [o símbolo do partido]. Mas era um disparate, em nome do emblema da mãozinha, sacrificar a gestão de uma cidade que é absolutamente fundamental para o país”.

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Agora é tempo de reformar: manual de medidas

Depois da reposição de rendimentos às famílias, garante o líder que agora é tempo de dar resposta ao que chama de “bloqueios estruturais” e já agendou algumas das suas bandeiras de campanha.

Para esta segunda-feira ficou marcado o arranque do Programa Startup Portugal, com o objetivo de, em novembro, quando Lisboa acolher “o maior evento do empreendedorismo tecnológico”, o país tenha um quadro “mais amigo” de apoio ao empreendedorismo. Isto além do programa “Indústria 4,0”, com que conta para “renovar o tecido industrial nacional, mas também relançar as bases da indústria moderna”. Além disso, ainda promete um programa dedicado à agricultura, “um grande plano de regadio em 90 mil hectares em todo o país” e deu mesmo uma imagem: replicar “vários pequenos ‘alquevas’ em todo o país”.

Para setembro agendou também o arranque de mais um programa (o Qualifica), este dedicado à qualificação de adultos com o qual tem a ambição de “fazer da educação de adultos, ao longo da vida, uma grande batalha nacional”. “O maior défice que o país tem é o défice da qualificação de adultos”, justificou o primeiro-ministro já depois de ter lembrado os números do país: em Portugal, 55% das pessoas entre os 25 e os 64 anos não completaram o ensino superior — na República Checa esse valor é de 7%.

O chefe do Governo socialista não fechou o capítulo das novidades sem falar da nova prestação social para deficientes, que pretende agregar num único apoio os vários que existem à deficiência. A nova prestação vai ser composta por três níveis de apoio: um subsídio que será atribuído a qualquer cidadão com deficiência; um outro para quem tiver necessidades específicas na educação e na saúde; e mais um para quem viver com carência de recursos.

Apoie o seu ministro da Educação

À porta do Congresso do PS, António Costa tinha à sua espera mais uma manifestação de colégios privados contra a medida do ministro da Educação de rever e cortar contratos de associação. O líder socialista aproveitou o palco partidário para passar a necessidade de o partido defender o ministro. “Temos um ministro que tem a coragem de enfrentar lóbis”. E os socialistas responderam com a maior ovação que se ouviu no pavilhão da FIL durante todo o fim de semana de Congresso.

Costa aproveitou o momento para dramatizar ainda mais, comparando o ministro Tiago Brandão Rodrigues a uma das figuras máximas do PS: o pai do Serviço Nacional de Saúde, António Arnaut.

“Acho graça porque ouço dizer que o PS está numa deriva radical, mas como sempre fui um moderado, lembro-me que o que ouço dizer sobre o Tiago Brandão Rodrigues não é metade do que ouvi dizer quando o António Arnaut lançou o SNS”.

Tocou no coração socialista e deixou mais um argumento para usar no debate quente sobre os contratos de associação.

Sejam socialistas e otimistas

Terminou em modo de sessão de autoajuda e aconselhou um remédio a todos os socialistas: otimismo. A deixa até lhe chegou do Palácio de Belém, onde o Presidente da República o vê como “irritantemente otimista”, no que toca a previsões económicas. “É verdade, sou otimista. E tem-me feito bem à saúde ser otimista. Nada vos vai correr pior por serem otimistas”. Foi a resposta direta de Costa.

A um mês de saber o veredicto sobre as sanções e — mais importante — os números da execução orçamental da primeira metade do ano, o primeiro-ministro agarra-se ao “otimismo”. “Se pudesse prescrever uma receita era esta: sejam otimistas”, disse aos socialistas para logo a seguir explicar que isso não se trata de “desconhecer as dificuldades. É conhecer as dificuldades mas ter confiança que com as políticas certas vão obter os resultados desejados.”

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