António Victorino d’Almeida segue o Euro 2016 e gosta do que vê. Gosta de Portugal, certo, mas também aprecia tudo o resto que vai acontecendo pelo campeonato. Falámos com o maestro, músico e compositor já depois da eliminação da seleção inglesa e ele há coisas inescapáveis: “Achei fantástica a vitória do Tondela, quero dizer, da Islândia sobre a Inglaterra. A Islândia merece toda a minha simpatia porque é da segunda divisão, batem o pé a quem vale milhões, jogam tudo menos bom futebol mas fazem-no como se não houvesse amanhã. Porque amanhã não vão ter a mesma oportunidade”.

Sobres as coisas portuguesas, reconhece que “afinal havia razão em tremer perante o Tondela, quero dizer, perante a Islândia”. E vai mais longe, muito mais longe: “O Fernando Santos é capaz de uma coisa extraordinária, chegar à final com a Islândia”. Mas, como bom adepto das coisas da bola, deixa o seu conselho: “Quando se tem um jogador excecional, adapta-se a tática à exceção”.

Tudo isto para concluir que “ainda existe a Europa da fraternidade, tem é de ser corrigida”, porque há outras questões — políticas e sociais — que vão fazendo tremer as redes. Vitorino d’Almeida está certo de que a música faz parte deste plano futuro e que o futebol europeu é só mais uma prova. “Um hino é uma ode à vitória, é para isso que é composto, para ganhar. Também há um hino europeu, para que a Europa vença. O futebol também precisa destas canções”. Por isso mesmo, procurámos esclarecer algumas dúvidas com quem sabe de afinação.

O hino mais bonito, qual é?

“De longe, o hino mais completo e mais perfeito é a ‘Marselhesa’. Isto em termos de música, em termos de letra é horroroso, é uma má letra. Mas no que diz respeito à música é algo parecido com um hino da humanidade. O hino inglês também é muito bonito, tal como é o hino russo. E o alemão também. Depois há alguns que são realmente feios. É muito difícil escolher entre os piores porque são muitos. ”

https://www.youtube.com/watch?v=Ev-nZ6xyAxQ

O mais difícil de cantar é…

“‘A Portuguesa’. É mesmo muito difícil cantar bem ‘A Portuguesa’, a maior parte de nós comete erros, mesmo quando acha que não os está a cometer. Para um cançonetista, seja do fado ou da pop, a extensão de voz é quase sempre uma oitava. A partir daí, a voz começa a tremer, não está preparada para ir mais longe. E se um cançonetista é assim, uma pessoa normal também é. Ora A Portuguesa tem uma oitava e uma quinta, tem uma extensão pronta para cantores de ópera. Ou nas partes mais graves ou nas mais agudas, vamos sempre falhar, é inevitável. É quase impossível afinar. É um hino muito bonito mas incantável a não ser por cantores, e não é esse o objetivo de um hino.”

E qual terá sido o mais difícil de compor?

“Bom, o mais difícil não sei dizer qual terá sido… Mas sei de uma coisa: o mais fácil de escrever deve ter sido a Marselhesa. Foi composto para um regimento por um tipo que nunca compôs nada na vida, Rouget de Lisle, antes das lutas entre a França e a Áustria. Rapidamente foi açambarcado pela revolução francesa. É engraçado que o próprio Rouget de Lisle foi preso enquanto ouvia, vindo da rua, as pessoas que cantavam a canção que ele tinha composto. Agora não me lembro bem se ele foi mais tarde guilhotinado ou não, mas o que interessa é que ele teve aquela inspiração fantástica. Adorava ter escrito a Marselhesa.”

Para um maestro, qual o mais complexo?

“Para dirigir não são difíceis, o compasso costuma ser certo, não há grandes oscilações nesse campeonato. E sobre isso dos tempos e dos compassos há coisas engraçadas. Por exemplo, os governos ditatoriais põem os hinos em passo de marcha. E marcha lenta. No 25 de Abril, foi primeiro o Lopes Graça e depois eu que nos batemos por acelerar o tempo do nosso hino. Antigamente, o hino era cantado em metade da velocidade. Por exemplo, se a senhora Le Pen um dia ganhar, aposto que vai desacelerar a ‘Marselhesa’. Isto terá seguramente explicações psicológicas. Não aconteceu com o hino russo, por exemplo, porque o hino da Rússia sempre foi emocionante, nunca foi rápido, é um hino bom e progressista. Talvez seja o mais interessante depois da ‘Marselhesa’.”

https://www.youtube.com/watch?v=YGyTmcUZW8I

Qual é o hino como mais vontade de ganhar?

“‘A Marselhesa’ e ‘A Portuguesa’, que foi feito como protesto contra o ultimato inglês — horroroso e ignóbil — são canções revolucionárias. Quando é preciso vai-se para a rua. Sou a favor de revoluções e os hinos fazem parte disso, acompanham as pessoas que procuram a mudança. Os hinos arrastam multidões, motivam os povos a lutar pelos seus direitos e pela dignidade. Viver sem hinos não era a mesma coisa. E futebol sem hinos também não. Devo dizer: sou do Benfica mas acima de tudo o meu clube é o futebol. E não há nenhum hino melhor que outro porque todos eles são emocionantes, vai tudo de quem os ouve e os canta.”