Admitimos: a ideia inicial é entrevistar Paulo Roberto Bacinello. O avançado brasileiro sai da zona de conforto de Cascavel e aterra em Portugal para ser campeão português na época de estreia, em 1984-85, com apenas um jogo, em Penafiel. Sem lugar no FC Porto de Artur Jorge, arruma o cacifo e vai pregar para outra freguesia. O Vitória espera-o de braços abertos. Em 1986-87, Paulinho Cascavel é o melhor marcador do campeonato nacional e isso vale-lhe a transferência para o Sporting, onde repete o feito. É único. Jamais visto e nunca mais repetido: duas Bolas de Prata em dois anos seguidos por dois clubes. A ideia inicial é ele, o caso único. Como não atende o telemóvel, nem o do número brasileiro nem o do português, vamos para o plano B. De Baía. Vítor Baía, o português mais titulado de sempre. A seu cargo, 30 taças (um terço são campeonatos nacionais). Qual o motivo do telefonema? Ele sabe-o bem.

— Amigo, tudo bem? Conta coisas.

Há Porto-Vitória este domingo.
Ah, pois é. Onze de setembro de 1988.

Lembras-te bem?
Claro que sim. Em Guimarães. O nosso treinador era o Quinito. Que se dirigiu a mim naquela forma muito sua, muito especial: sentou-se numa cadeira virada ao contrário e disse-me que ‘ia dar muitos frangos ao longo da carreira, mas não ali, na estreia’. Ri-me com vontade. Quinito é cá uma peça.

E deste um frango na estreia?
Nããããããão, nem pensar. O Quinito tinha razão, eheheheh. Acabou 1-1. Marcámos primeiro, pelo Sousa. Eles empataram perto do fim, pelo Germano. Foi renhido, como sempre em Guimarães. Aquilo lá é sempre um problema. Quando chegámos, de autocarro, era só pessoas a atirarem-nos coisas e mais coisas entre isqueiros e pedras. Valia tudo. No balneário, os mais experientes puxavam pelos mais novos e diziam, com a faca nos dentes, ‘tás a ver?, que aquele ambiente é que nos era favorável.

Como chegaste a esse dia e foste titular?
Naquela época, o titular era o Mlynarczyk, que se lesionou num treino de manhã. Os dirigentes telefonaram então para a casa do Zé Beto e, detalhe, ele estava suspenso das atividades do clube. Ninguém atendeu do lado de lá, o Zé deve ter ido à sua vida naquele fim-de-semana, não sei. O que sei é isto: só havia um guarda-redes e era eu, com apenas 18 anos.

E os teus companheiros, desconfiados?
Siiiim. Lembro-me perfeitamente da cara de pânico deles a olhar para mim. Lá fui eu para o campo, a um domingo à tarde, como se impunha. Nos primeiros cinco minutos, aquilo fez-me confusão: os seniores mexem melhor a bola que os juniores e jogam a uma velocidade supersónica. Não estava acostumado àquela realidade. Passado aquele período experimental, já saía aos cruzamentos fora da pequena área, já me atirava aos pés dos adversários, já estava bem. E eles, os meus companheiros, também. Foi uma simbiose imediata.

Até porque tu respiras Porto desde pequeno. Quero dizer, eras frequentador das Antas?
A minha primeira memória é um jogo com o Dínamo Zagreb: 1-0 do Gomes no último minuto, para a Taça das Taças. Tínhamos perdido lá 2-1. Imaginas a tremideira do estádio? Não podes sonhar sequer. Aquilo foi cá uma coisa. I-m-p-r-e-s-s-i-o-n-a-n-t-e.

Há mais momentos desses?
Um 4-2 ao Covilhã, em maio de 1986. Perdíamos 2-1 ao intervalo e fomos campeões nacionais num braço-de-ferro com o Benfica. Esse título permitiu-nos entrar na Taça dos Campeões, brilhantemente conquistada em 1987. Voltei às Antas na primeira jornada da época seguinte ao 2-1 do Bayern: demos 7-1 ao Belenenses. O Madjer saca uma exibição. Pfffffff, que maravilha. Digo-te: nunca vi ninguém assim. De talento puro, de tornar simples o complicado com um só toque na bola ou uma ginga de corpo. Ele e o Deco, os meus reis do fêquêpê. Nessa noite, Madjer marcou um senhor golo de calcanhar. Mais um. Foi o 5-1 ou o 6-1 e parecia o da vitória. A sério. Pelo modo como os adeptos vibraram com aquele gesto técnico.

Nessa altura, já jogavas no Porto?
Vamos aos factos: fui visto por um olheiro do fêquêpê [aviso à navegação: Vítor Baía passa o tempo a dizer isto] num jogo pela Associação Académica do Leça. Nessa tarde, não tive trabalho nenhum enquanto o guarda-redes da outra equipa fez a exibição da vida dele. Acaba o jogo e o tal olheiro vira-se para o nosso treinador e diz-lhe que quer o avançado. Quem era? Domingos Paciência, conheces? E depois perguntou-lhe quem era o guarda-redes da outra equipa. O nosso treinador sugeriu que me levasse a mim. O olheiro disse que não, queria o outro. O nosso treinador repetiu a sua ideia e lá levou a melhor: o Domingos e eu no fêquêpê. Quando chegámos às Antas, estávamos de boca aberta. Tão novitos e já a cumprir o sonho de uma vida. Estávamos em 1983, tinha 14 anos.

E depois, e depois?
À nossa espera, o saudoso mister Costa Soares. Olhou para nós e decidiu de uma assentada: ‘tu’, para o Domingos, ‘vais começar a comer ali num restaurante manhoso para ganhar corpo’ e ‘tu’, para mim, ‘o teu pai é alto?’ Vê bem como funcionava a velha escolha. ‘O teu pai é alto?’ Respondi-lhe 1,80-e-tal. Ele tira-me as medidas e atira um ‘vais chegar lá’. Parece que o estou a ver a dizer isto agora, agora, agora. Que momento, porra. O feeeling dele, sabes? É preciso saber muuuuito, muito mesmo.

Cumpriu-se o prognóstico do Costa Soares?
No verão seguinte, sim senhor. Quando cheguei às Antas, aos 14 anos, nem chegava à barra. Passa o verão e volto ao Porto com mais caparro, eheheheh. De repente, já era o mais alto da equipa.

O mais alto e, muitos anos depois, o mais titulado. Tens algum menos na carreira?
As lesões. É sempre o golpe inesperado, aquele que atira ao chão. Agora, das duas uma: ou queres continuar no chão ou optas pela prova de superação. Felizmente, sempre me superei. Nos momentos mais difíceis, tens de te superar. Só assim é que avanças.

Dá-me um exemplo.
Euro2000. Estive quase, quase, quase para não ir. Lesionei-me e perdi o lugar para o Hilário. E agora? O Humberto [selecionador] diz-me para jogar uma vez que seja. Isso bastava para entrar na convocatória. Mas continuava em recuperação e era difícil tirar o lugar ao Hilário. Chega a final da Taça de Portugal e eu continuo longe dos 100%. Felizmente, eheheheh, empatamos 1-1 e tudo se adia para a finalíssima. Bons tempos, ainda havia isso. Foi o que me salvou. Disse então ao Fernando Santos que podia jogar, que estava em condições de o fazer. Entrei no Jamor com calças de fato de treino no meio daquele calor todo. O Rodolfo Moura tinha-me enfaixado todo. Ganhámos 2-0 e eu só tive uma saída difícil, perto do fim, numa bola dividida com o Schmeichel, que apareceu ali feito maluco. Fui ao Euro2000 com esse jogo.

O Euro2000 em que até foste herói nos quartos de final.
Pois foi, defendi o penálti do Arif, aquele da Turquia. Ainda havia 1-0 e foi o último lance da primeira parte. Que alívio, nem imaginas.

Imagino.
Não, não imaginas. Quando era miúdo, era bom nos penáltis. Sabia muito. Adivinhava quase sempre. Se não defendia o remate, raspava as mãos na bola. Era uma ciência que até dominava bem. Papei duas Supertaças ao Benfica, uma com o Silvino, outra com o Preud’homme. Na primeira, defendi os remates de Hélder e Mostovoi. Na segunda, o de Kenedy. Era bom nos penáltis, mas o desempate com a Sampdoria derrubou-me.

O da Taça das Taças?
Esse mesmo, nas Antas. Eles marcaram os cinco penáltis [Mihajlovic, Jugovic, Masparo, Salsano e Lombardo] e fomos eliminados. Falhou o Latapy. Que desilusão, a minha. Nem um penálti defendido. Deitou-me abaixo. E deixei andar. Se fosse agora, iria trabalhar o assunto com alguém ou alguéns.

E recuperaste a confiança?
Na meia-final.

Ah, o do Claudio López, no Olímpico, com a Lazio, em 2003?
Por acaso, estava a falar do de Moutinho, no desempate com o Sporting, no Dragão. Quem ganhasse, passava à final da Taça de Portugal 2006. No primeiro penálti, defendi o do Moutinho. E ninguém mais falhou. Ganhámos 5-4.

Aaaaah, então foi por isso que te baldaste ao desempate da Taça Intercontinental 2004, com o Once Caldas?
Ahahahah, não vás por aí. Apanhei o susto da minha vida. Vê lá isto: voámos três dias antes do jogo e tomámos comprimidos para dormir no avião mas eu qual quê! Não consegui dormir nem aí nem à noite. De dia, eram os treinos e só tinha tempo para cochilar. No jogo, até nem tive trabalho por aí além. Aliás, podíamos ter resolvido o jogo em 90 minutos mas atirámos duas bolas ao poste e ainda anularam dois golos ao McCarthy. Às tantas, no prolongamento do jogo, sinto um peso no meu peito. Aquilo bate-me na cabeça, até porque o Féher estava bem vivo na memória [Janeiro-2004], e opto por deitar-me de imediato para o jogo parar. Quando o médico chega ao pé de mim, mete-me a mão na garganta e traça logo o diagnóstico. Tinha de sair. ‘Mas saio o quê!’ disse-lhe. E ele a responder-me ‘tem de ser, tem de ser, tens de ir para o hospital’. Lá fui. Um médico japonês também não conseguia perceber até que expliquei a minha vida nas últimas 72 horas. Fez-se luz e ele explicou-me por a mais b que estava assim por falta de sono, stress, ansiedade, etc, etc. Juntei-me à equipa, já a festejar, e todos a meterem-se comigo ‘borraste-te todo foi o que foi!’. Só me ria. Cumpri um sonho.

Qual?
O de voltar a Tóquio. Sabes o que é ver um jogo em criança e voltar a viver tudo isso já em fase adulta. Aconteceu-me com uma diferença de 17 anos, entre 1987, quando o fêquêpê ganhou ao Peñarol, e 2004.

Viste esse 2-1 da neve?
Então não vi?! Pus despertador, acordei a meio da noite e fiquei de boca aberta a olhar para a televisão. Neve, como?! Como, se estava sol no dia anterior durante o treino?! Liguei a televisão e um campo branco com uma bola colorida?! Depois foi aguentar e aguentar até à vitória. Madjer, sempre ele. Mais Gomes. É a história do fêquêpê, de superação e glória. Notava-se que os jogadores estavam a passar por momentos difíceis, com o frio e o gelo. Notava-se que choravam enquanto jogavam.

É costume chorar?
Uyyy, claro que sim. O choro de alegria, o de libertação de adrenalina, o de raiva.

Ah poizéééé, tu choraste muito naquele 5-4 do Barcelona ao Atlético Madrid.
Lágrimas de alívio. O jogo correu-me mal, mal mas mal. Sofri quatro golos do Pantic, havia 3-0 ao intervalo, e eu pensar no pior. Na eliminação da minha equipa na Taça do Rei. De repente, fazemos aquela reviravolta, com golos do Figo, do Pizzi, do De la Peña, do Ronaldo. Ganhámos 5-4. Mal o árbitro apitou para o fim, senti cá um alívio. Fiquei ainda um pouco tempo de cócoras na minha área a chorar até o De la Peña chegar-se à minha beira e dar-me moral. No fim de contas, ganhámos essa Taça. Sabes onde?

Ni idea.
Santiago Bernabéu, campo do Real Madrid. Foi 3-2 ao Betis, após prolongamento. Quem decidiu o jogo foi o Figo. É o mítico jogo em que o hino do Barcelona toca no Bernabéu. Inédito. Quem estava lá? Eu entre tantos outros. Uma honra.

Por falar em honra, publicámos ontem um trabalho sobre os golos sofridos na selecção e o Patrício já tem mais que tu. Com os dois da Suíça, ele tem 49 em 54 internacionalizações e tu 48 em 80. É pouco, 48 em 80.
Pouquíssimos. Jogávamos de olhos fechados, conhecíamo-nos há anos e anos. Esse era o segredo para tantos jogos a zero. Continuo a dizer que a geração de ouro é a melhor de sempre de Portugal. Esse facto empurra-nos para essa conclusão.

Por falar em golos sofridos, evitaste algum golo impossível?
Essas perguntas são tramadas. Uma pessoa nunca tira um coelho da cartola assim do nada. Mas, vá, vou arriscar uma defesa que hoje vejo e fico a pensar ‘como é que fiz isto’. Em Viena, com a Áustria, na qualificação para o Euro-96. Empatámos 1-1, golo do Paulinho Santos. Aquilo foi uma jogada da direita, o cruzamento-remate ao segundo poste apanha-me completamente desprevenido, em contrapé. Viro-me para me enquadrar com o número 10 deles, que atira cruzado. Ou seja, para o primeiro poste. Só me lembro de levantar a mão para afastar a bola. Parecia o homem-borracha.