Escrever “o seu próprio” restaurante podia ser apenas uma redundância. Se é seu, é do próprio, certo? Certo. Mas no caso de Ezzat Ellaz e do seu próprio Muito BEY, o uso da expressão no lead da notícia justifica-se: desde que se licenciou em Gestão Hoteleira, este libanês de 32 anos passou boa parte da carreira a criar conceitos de restaurantes e a implementá-los. Nunca para ele, sempre para terceiros. Fê-lo em Beirute, a sua cidade natal, mas também na Arábia Saudita, no Dubai ou no Kuwait. Enquanto isso, ia alimentando o sonho de criar um restaurante que fosse mesmo seu. “Em 2014 vim de férias a Lisboa. Adorei a cidade, percebi que estava a crescer muito e que não havia nada deste género.” Passado um ano mudou-se e começou a desenvolver o que viria a ser o Muito BEY. O seu (próprio) Muito BEY.

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Ezzat Ellaz mudou-se para Lisboa há um ano já com o objetivo de abrir um restaurante libanês. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Porquê Muito BEY?

O nome de batismo do restaurante — que abriu há menos de um mês — resulta de uma combinação simples: BEY é o acrónimo do aeroporto de Beirute e “muito bem” é a expressão em português que Ezzat mais gosta de ouvir. Este não foi, contudo, um casamento apenas de aparências. Pelo contrário, a combinação escolhida resume, segundo o responsável, “uma mensagem de integração.” E desenvolve:

Aqui queremos ter tudo o que une as duas cidades: os azulejos, as cores, até os fios nas fachadas dos prédios, que existem tanto lá como cá, nós decidimos utilizá-los como decoração.”

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Essa união de forças estende-se à cozinha: sim, as receitas são todas libanesas — “com um twist moderno”, como refere Ezzat — mas 90% dos produtos utilizados são portugueses, mesmo que isso obrigue a alguns ajustes nas receitas. “O vosso alho é muito mais forte que o nosso”, exemplifica.

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Até os fios que saem do teto têm um significado especial: simbolizam a quantidade fios visíveis nas fachadas tanto em Beirute como em Lisboa. (foto: © Tiago Pais / Observador)

Barbara Massaad, a chef consultora

Falar das receitas do Muito Bey é falar também, obrigatoriamente, de Barbara Massaad, chef e autora libanesa mentora do projeto “Soup for Syria“, um livro que compila receitas de sopas oferecidas por chefs famosos de todo o mundo e cujos proveitos revertem a favor do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Foi Barbara que definiu o menu do Muito BEY, depois de uma temporada passada em casa de Ezzat a fazer compras no Mercado da Ribeira e a testar receitas.

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Um dos representantes da vertente doceira da casa: Rezem Bi Halib, um mil folhas de arroz doce aromatizado com água de flor de laranjeira. Custa 4€, tal como todas as outras sobremesas. (foto: © Divulgação)

Lisbeiruti

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No menu, encontra-se uma caixa dedicada ao bê-á-bá do lisbeiruti, um idioma imaginário que mistura termos libaneses e portugueses. “Foi uma brincadeira que fizemos para entreter as pessoas”, explica Ezzat. Por exemplo: bom apetite diz-se sahtein em libanês. Juntam-se as duas e nasce o equivalente em lisbeiruti: sahtite.

“Foi também ela quem treinou o nosso chef residente, que é argelino mas já tinha alguma experiência na gastronomia libanesa”, conta Ezzat. Da cozinha por ele chefiada saem sobretudo mezze, o equivalente libanês dos petiscos. Aliás, se o Muito BEY fosse o Muito BEM, restaurante típico português, era muito provável que optasse pelo sufixo “petiscaria”, tal é a forma como o menu está organizado. Expliquemos.

O menu

Se se ignorar a sugestão de menu degustação (49€ para duas pessoas), em que é escolhida uma seleção de todas as categorias da ementa, a palavra a fixar é, de facto, mezze. Na secção de frios (6,5€) encontram-se pastas como humús (grão), mutabal (beringela) ou labné (iogurte), que devem ser barradas no manuché (pão árabe) feito no próprio restaurante. Já a de quentes (7,5€) está cheia de clássicos da cozinha do Médio Oriente, do falafel (almôndegas fritas de grão e favas) ao makanek (salsichas de vaca temperadas com molho de romã), sem esquecer o kibbé (croquetes de vaca com pinhões), entre outros.

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Três dos mezze frios disponíveis: humús, mutabal e labné.
(foto: © Divulgação)

Igualmente importante é a oferta de manuché com diversas coberturas, servido como se de uma pizza se tratasse. Ezzat destaca o de zaatar, uma mistura de tomilho: “No Líbano comemos usamos muito tomilho em tudo. No pão até ao pequeno-almoço pomos tomilho, dizem que ficamos mais inteligentes”, revela com um sorriso. A tudo isto juntam-se ainda opções no campo das sopas, saladas e grelhados — aqui, além das espetadas de vaca, frango ou borrego, sublinhe-se o samké harra (13,5€), um bacalhau assado temperado com as ervas típicas do Líbano. E talvez não haja melhor exemplo da ponte Lisboa-Beirute que o Muito BEY ergueu no Cais do Sodré.

Nome: Muito BEY
Morada: Rua da Moeda, 4A (Cais do Sodré), Lisboa
Telefone: 21 158 0788
Horário: De segunda a sábado, das 12h às 15h e das 19h às 00h (sexta e sábado até à 01h)
Preço Médio: Ao jantar, a refeição fica em 20/25€ por pessoa. Ao almoço há um menu disponível por 13,5€ com bebida incluída.
Reservas: Aceitam
Site: facebook.com/MuitoBEY