A dois dias das eleições para a cadeira mais importante do mundo (a de Presidente dos Estados Unidos da América), a HBO estreia uma série sobre aquele que é talvez o único cargo do mundo que sente uma semelhante vertigem de poder: o de Papa, chefe da Igreja Católica, representante de Deus Nosso Senhor na Terra e chefe de Estado do Vaticano. Donald Trump bem pode inaugurar mais não sei quantas torres que não chegará aos calcanhares do número de catedrais existentes no mundo. Já para não falar que é muito claro que o republicano pretende representar-se apenas a ele próprio no mundo.

The Young Pope (que chega à televisão portuguesa este domingo na TV Séries às 23h) vem na senda da obsessão que o mundo da ficção tem com os Sumos Pontífices, de autores de Mario Puzzo a Dan Brown, passando por séries como Os Bórgias ou pelo filme Habemus Papam de Nanni Moretti e até o Papa adepto de merchandising na comédia de Kevin Smith, Dogma. Se o Papa Francisco é tão popular — ao nível de volta e meia ter posters nas páginas centrais da revista TV Mais — por ser alguém tido como afável e relacionável, já os Papas da ficção não. São quase sempre sociopatas mais ou menos encapotados. Normalmente move-os a cegueira pelos privilégios que querem manter ou a aversão a que a Igreja revele os seus segredos, aqui tão perto de nós em fenómenos como Fátima.

Logo no primeiro episódio, Lenny Belardo, apenas 47 anos, acorda já como Papa Pio XIII, o primeiro americano em tal posição (isto apesar do ator Jude Law ser britânico). Ironicamente, tal acontece numa altura em que, no mundo real, o supra mencionado (e americano) Trump coloca em causa o grau de catolicismo do próprio Jorge Bergoglio. Talvez Belardo fosse mais do agrado do homem com o pior cabelo do mundo, mas uma coisa se torna muito óbvia logo no primeiro episódio de The Young Pope: a personagem de Law tem um plano de régua e esquadro para o que quer fazer e não é influenciável por nada nem ninguém. Provavelmente, nem por Deus.

A cena de abertura, um deboche surrealista e onírico, esclarece logo duas questões. A primeira é que este não é um Papa convencional, mas um produto da contemporaneidade que se acha uma rock star, um novo Cristo na Terra e não apenas um reles mensageiro, alguém que nos seus sonhos quer chegar à Praça de S. Pedro e gritar na homilia que os fieis devem masturbar-se mais. E a segunda é que o Oscarizado realizador italiano Paolo Sorrentino (A Grande Beleza) não sucumbiu às pressões da grande máquina do entretenimento global e mantém a sua visão e estética sem cedências, uma raridade digna de milagre. Sorrentino aproveita-se das condições que teve para o projeto — nomeadamente a nível orçamental — para criar um misto entre uma pintura renascentista, um videoclip da Beyoncé e uma peça de teatro. Tudo parece uma espécie de cadáver esquisito visual: o que faz ali aquele reservatório de água como os dos escritórios no meio de uma sala século XVI?

O Papa Pio XIII fuma e alimenta-se exclusivamente de Coca-Cola Zero de Cereja, recusando não só um faustoso pequeno- almoço como renegando também qualquer simpatia no trato e nas relações. A única pessoa que o próprio trata com o carinho é a Irmã Mary (uma irrepreensível Diane Keaton), a freira que o criou depois de ter sido abandonado pelos pais. Mas mesmo a relação entre eles é mais política que maternal, mais uma peça no xadrez que puxa o público para séries passadas por trás das caríssimas cortinas do Vaticano.

Numa série com muitos silêncios para deixar as metáforas visuais fluírem, nota-se uma queda de Pio XIII para o sound bite. “Eu sou uma contradição, como Deus, que é três em um e um em três”, explica. The Young Pope contradiz-se pouco porque é uma série com um rumo claro, uma obra que procura o estatuto de culto mesmo que isso implique que vá ser tão odiada como amada. Na verdade, como a própria Igreja Católica.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa