Por estes dias comemora-se o décimo aniversário do MusicBox, o clube e casa de concertos do Cais do Sodré, em Lisboa. Este sábado a festa é feita por Ikopongo, duo que une os interventivos rappers angolanos Ikonoklasta (Luaty Beirão) e MCK, prosseguindo ao som dos discos escolhidos por Rui Miguel Abreu e os Irmãos Makossa.

Para assinalar a ocasião, pedimos a Alexandre Cortez, um dos sócios da CTL, a empresa que explora o MusicBox, e que foi até há alguns anos o programador do espaço, dez memórias inesquecíveis destes últimos dez anos, entre concertos, DJ sets e outro tipo de eventos. A ordem, avisa o próprio, “é aleatória, porque são momentos tão diferentes” que não é justo estar a hierarquizá-los e porque foi buscar cada um deles à “memória, não aos mapas”.

?uestlove, 2006

“Foi um DJ set mais ou menos por volta da primeira semana de abertura do MusicBox. Ele é dos melhores DJs que já vi em termos de performance, foi um momento único. Nunca tinha visto nada assim, os dispositivos que ele utilizava não eram muito convencionais, era um prato e um portátil que ele usava com um programa qualquer. Ele fez uma versão do “Smells Like Teen Spirit” dos Nirvana usando, sei lá, talvez mais do que dez músicas diferentes misturadas. Resultou de uma forma incrível. Além de ser um músico extraordinário, o baterista dos Roots, essa faceta dele surpreendeu-me muito, toda a gente ficou a assistir como se fosse um concerto.”

Saul Williams, 2010

“Extraordinário. Ele usou apenas a voz, não teve qualquer acompanhamento musical. Foi uma sessão de dois dias, de spoken word. Aliás, até foi engraçado, houve um momento em que ele não usou o microfone. A sala estava completamente esgotada, 300 e tal pessoas lá dentro, e ele deixou toda a gente de rastos só com a voz. Achei espectacular.”

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Spektrum, 2007

“O concerto que teve mais gente até hoje, talvez. Estava completamente incomportável, nem nos tínhamos apercebido de que tinha excedido a lotação. Foi uma falha da nossa parte, claro. Resultou num concerto meio mágico. Eles são uma banda inglesa e estava completamente cheio, não cabia mais uma agulha lá dentro. Deram um concerto muito bom, acabaram por reagir a essa massa compacta de público que estava à frente deles de uma forma muito entusiasmante.”

Destroyer, 2012

“Um dos concertos que mais me tocou pela música. Tinham nove músicos em palco e vieram cá numa altura em que ainda não eram muito conhecidos na Europa, apesar de já existirem há muito tempo. Apostámos no concerto deles e depois esgotou, foi muito bonito. O vocalista [Dan Bejar] ainda voltou ao MusicBox, mas a solo.”

Cais do Sodré Funk Connection

“Não é um momento nem um concerto, é um projeto que nasceu com o MusicBox e ganhou asas, tornou-se um grupo relativamente conhecido a nível nacional. No início tinham uma residência no MusicBox e foram conquistando o público, chegaram a um ponto em que tinham audiência muito fiel e davam concertos absolutamente empolgantes. Às tantas o Silk, o vocalista, tinha um poder de catarse muito curioso sobre o público e foi isso que os fez crescer e sair do MusicBox para o resto do país.”

Pete Doherty, 2009

“Foi anunciado apenas no próprio dia e fez um concerto um bocado fora, out of the box, como se costuma dizer. Estava num estado um bocado impróprio para consumo, deu um concerto com o público em cima do palco, a tocar as músicas dele, na guitarra dele, enquanto cantava. Foi um bocado inusitado, estou a referir por ter acontecido de uma forma inesperada. Ligaram-nos ao final da manhã a perguntar se ele podia ir lá dar um concerto. Divulgámos a meio da tarde nas redes sociais e acabou por esgotar. Acho piada, pelo momento que foi e pela atitude dele, cúmplice em relação aos fãs.”

Orelha Negra, 2008

“Não quero dizer que foi o primeiro, mas um dos primeiros concertos que eles deram enquanto grupo. Foi extremamente importante para eles, creio. Obviamente foi um momento muito interessante, eles estavam a dar os primeiros passos, eram um grupo do qual se esperava muito, e hoje são um nome absolutamente confirmado e consagrado.”

Who Made Who

“É um grupo que tocou várias vezes no MusicBox, não sei exatamente quantas. Deram sempre concertos espectaculares. Podia dizer-te também outros grupos, como os Efterklang, que acabaram por assumir uma relação de cumplicidade connosco, que gostavam muito de vir ao MusicBox e do público português, de Portugal e de Lisboa, e acabavam por dar sempre grandes concertos. Criaram uma certa relação de amizade com a casa e uma legião de fãs muito fiel que esgotava sempre os concertos.”

Baile Tropicante, 2012–

“É uma de duas noites que ainda hoje existem e são o ex-libris da casa. Esta tem o La Flama Blanca a fazer a curadoria e a convidar muitos DJs e músicos à volta da cumbia e da música da América Latina de uma maneira geral, com um sabor um bocado eletrónico e portanto dentro de uma linha de música de dança contemporânea, mas com raízes nos estilos latino-americanos. Estão sempre cheias, são bem sucedidas, e momentos que saem um bocadinho mais fora daquilo que será a linha de eletrónica e rock habitual. É um conceito que eu acho bastante interessante, de miscigenação musical, cruzado com música eletrónica. O resultado é muito interessante, são noites divertidas em que as pessoas dançam. Como o nome diz, são bailes com sabor tropical.”

Noites Príncipe, 2012–

“Já transcendeu o próprio espaço. Acontecem fora de Portugal, na Europa e até nos Estados Unidos, acho eu, pelo menos os DJs que pertencem a estas noites atuam lá. É uma coisa engraçada, este lado da música africana, com um sabor muito eletrónico, com aquilo que considero as novas músicas para pista de dança que têm origem em países pouco prováveis. É uma nova lusofonia, uma nova linguagem musical de origem lusófona. É engraçado estarem a ser reconhecidos internacionalmente, porque realmente são muito bons do ponto de vista musical, com nomes como o DJ Marfox, o DJ Nigga Fox, o DJ Firmeza, são uma série deles. Acabaram por conseguir fazer destas noites umas noites muito especiais. Também do ponto de vista sociológico, porque muitos dos artistas vêm de bairros mais carenciados e acabam por ter um protagonismo interessante, vêm para o centro da cidade e são os protagonistas da noite.”