O candidato presidencial francês, François Fillon, eleito nas primárias da direita e centro-direita, ameaçou renunciar às presidenciais se for indiciado na investigado do Tribunal Central de Luta contra as infrações financeiras e fiscais por uso inapropriado de fundos públicos. Em causa está o facto de ter empregado, durante anos, a sua mulher, Penelope Fillon, como assistente parlamentar.

O caso foi denunciado pelo jornal francês Le Canard Enchaîné e já aqui mereceu o destaque do Observador. Em 1998, Penelope foi contratada como assistente parlamentar do então deputado Fillon, com um ordenado bruto de 3.900 euros mensais. No ano seguinte, o ordenado passou a 4.600 euros.

Em maio de 2002, Penelope Fillon foi novamente contratada, desta vez por Marc Joulaud, o deputado que substituiu François Fillon quando este ascendeu a ministro dos Assuntos Sociais. À data, o salário de Penelope — a quem o marido chegou a referir-se como dona de casa — era de 6.900 euros por mês, que em 2006 passaram a 7.900 euros.

Penelope Fillon deixou de ser assistente parlamentar de Marc Joulaud quando François Fillon foi nomeado para primeiro-ministro em maio de 2007 quando Sarkosy era presidente. Em 2012, Fillon deixou o Governo e voltou a ser deputado, contratando uma vez mais a sua mulher por 4.600 euros mensais, cargo que ela terá “ocupado” durante cerca de seis meses.

Agora, e depois de o caso ter sido revelado, Fillon já veio responder às críticas de que tem sido alvo. Em entrevista à ao canal francês, TF1, o candidato francês considerou a contratação da mulher como “perfeitamente transparente” e reiterou que nunca existiu “qualquer dúvida” sobre a legalidade do caso.

Ainda que a lei francesa não proíba explicitamente a contratação de familiares, o caso do emprego de Penelope Fillon tem contornos surpreendentes: de acordo com o jornal francês que divulgou o escândalo, não há testemunhas que possam confirmar que Penelope tenha, de facto, trabalhado. Seria, na verdade, um emprego fictício.

François Fillon desmentiu essa versão e classificou-a de abjeta, atirando as acusações para o plano político: o único objetivo desta polémica, afirmou o candidato presidencial, é prejudicar “aquele que venceu as primárias da direita e do centro”.

O francês explicou depois que, durante o tempo em que Penelope trabalhou como sua assistente parlamentar, a mulher fez assessoria de imprensa, “corrigiu discursos”, “recebeu um sem-número de pessoas que se queriam encontrar com ele”, “representou-o em manifestações e encontros com associações”. “[Penepole] está comigo desde o início”, afirmou o candidato.

Thierry Solere, porta-voz de Fillon, também saiu em defesa do candidato, dizendo que “é comum que as mulheres de deputados trabalhem para eles”. Ainda assim, o francês corre agora o risco de ser investigado por uso indevido de fundos do erário público. Se a investigação avançar, Fillon já garantiu que desistiria da corrida presidencial.