O Presidente da República vai visitar a ilha de Gorée, no Senegal, lugar simbólico onde o papa João Paulo II pediu perdão pela escravatura, em 1992, num gesto repetido por Lula da Silva em 2005.

Marcelo Rebelo de Sousa vai deslocar-se a esta ilha durante a sua visita de Estado ao Senegal, entre 12 e 13 deste mês, que é a primeira de um Presidente português àquele país da África Ocidental, antiga colónia francesa, que faz fronteira com a Guiné-Bissau.

Situada a menos de três quilómetros da capital do Senegal, Dacar, a ilha de Gorée, ou Goreia, foi um importante entreposto do tráfico de escravos de África para as Américas até ao século XIX, e mantém como memória e símbolo desse passado uma “Casa dos Escravos”, do tempo dos holandeses, ligada ao mar por uma “Porta do Não Retorno”.

Os navegadores portugueses foram os primeiros a chegar a esta ilha, em 1444, num feito atribuído a Dinis Dias, e deram-lhe o nome de Ilha da Palma. Depois, no período filipino, foi tomada pelos holandeses, e posteriormente pelos franceses, pelos ingleses, e novamente pelos franceses.

Foi neste lugar que o papa João Paulo II, em fevereiro 1992, num discurso perante a comunidade católica da ilha, referiu que o comércio de escravos teve a participação de “pessoas batizadas, mas que não viveram a sua fé”, e declarou: “A partir deste santuário africano do sofrimento negro, imploramos o perdão do céu”.

Dias depois da morte de João Paulo II, em abril de 2005, o então Presidente do Brasil, Luís Inácio Lula da Silva, visitou Gorée e repetiu esse gesto, invocando o seu exemplo: “Quando se comete um grave erro histórico, como no caso dos negros e dos judeus, o papa nos ensinou que é fácil pedir perdão”.

“Não tenho nenhuma responsabilidade com o que aconteceu no século XVIII, nos séculos XVI e XVII, mas penso que é uma boa política dizer ao povo do Senegal e ao povo da África: perdão pelo que fizemos aos negros”, afirmou.

Lula da Silva esteve na ilha acompanhado pelo músico brasileiro Gilberto Gil, na altura ministro da Cultura, que ali cantou “La Lune de Gorée”, uma canção com música sua e letra do poeta Capinan, que termina com estes versos: “Mas a lua de Gorée / Tem uma cor profunda / Que não existe / Em nenhuma outra parte do mundo / É a lua dos escravos / A lua da dor”.

A ilha de Gorée foi visitada Nelson Mandela em 1991, um ano após ter sido libertado pelo regime do ‘apartheid’, e três anos antes de se tornar o primeiro presidente negro da África do Sul.

Conta-se que Mandela se sentou sozinho numa das pequenas celas da “Casa dos Escravos” e considerou que o sofrimento dos seus 27 anos de prisão não se podia comparar ao dos escravos que por ali passaram.

Muitos negros norte-americanos deslocam-se a Gorée em busca de uma imagem do sofrimento dos seus antepassados africanos, e os três últimos presidentes dos Estados Unidos visitaram a ilha: Bill Clinton, em 1998, George W. Bush, em 2003, e Barack Obama, em 2013.

Durante a sua visita, Bush disse que a escravatura foi “um dos maiores crimes da História”.

Obama, por sua vez, declarou: “Obviamente, para um afro-americano, um presidente afro-americano, poder visitar este lugar dá-me uma motivação ainda maior no que respeita à defesa dos direitos humanos em todo o mundo”.

Dacar fica na ponta mais ocidental do continente africano e a pequena ilha de Gorée – com menos de um quilómetro de comprimento e, na sua parte mais larga, 350 metros de largura – está logo em frente à cidade, a 20 minutos de barco, mas é banhada por águas profundas, que permitiam a atracagem dos navios negreiros.

A ilha de Gorée foi classificada como património da humanidade pela UNESCO em 1978.