Os Estados Unidos da América lançaram, durante a madrugada desta sexta-feira, um ataque à base aérea síria em al-Shayrat, nos arredores de Homs, a partir da qual foi lançado o ataque químico que, na passada terça-feira, causou a morte de cerca de 100 civis, entre os quais crianças. A ordem foi dada por Donald Trump por motivos de “segurança nacional”.

A missão norte-americana consistiu no disparo de 59 mísseis Tomahawk, usados com regularidade pelas forças dos Estados Unidos, a partir de dois navios estacionados no Mar Mediterrâneo — o USS Ross e USS Porter — em direção à base síria de al-Shayrat, na zona oriental do país. Os Tomahawk não precisam de ser transportados até ao alvo, podendo ser lançados a uma distância de até mil milhas.

O lançamento aconteceu perto das 4h (2h em Lisboa). A ordem foi dada na noite de quinta-feira pelo próprio Donald Trump, enquanto este se dirigia para a Florida, onde se encontrou com o presidente chinês, Xi Jinping. Segundo a agência de notícias síria SANA, o ataque provocou a morte de nove civis. Quatro eram crianças. Pelo menos sete pessoas ficaram feridas.

Talal Barazi, governador da cidade de Homs, disse à Reuters a perda de vidas humanas não era grande, mas que havia “danos materiais” significativos. Por sua vez, Jeff Davis, porta-vos do Pentágono, informou que “as primeiras indicações” apontavam a existência de danos severos nas “aeronaves sírias e infraestruturas de apoio e equipamento na base aérea” síria, reduzindo a “capacidade do Governo sírio de levar a cabo ataques com armas químicas”. Pelo menos 20 aviões terão sido destruídos, de acordo com a CNN.

Porque é que os EUA usaram mísseis Tomahawk contra a base militar síria?

Numa conferência de imprensa realizada pouco tempo depois do lançamento dos mísseis, o presidente dos Estados Unidos da América explicou que o ataque foi uma resposta ao “horrível ataque com armas químicas contra civis inocentes” levado a cabo na terça-feira pelas autoridades sírias. Descrevendo a ação militar como uma “morte lenta e brutal para tantos, até para bebés lindos que foram cruelmente assassinados nestes ataques bárbaros”, Donald Trump afirmou “faz parte o interesse da segurança nacional dos Estados Unidos da América prevenir e dissuadir a proliferação e o uso de armas químicas mortais”.

Apesar ter admitido a autoria do ataque de terça-feira, Bashar al-Assad disse não terem sido usadas armas químicas. De acordo com o presidente da Síria, a ação militar terá atingido acidentalmente um depósito de armas químicas da Frente Al-Nosra, contrabandeadas para a província de Idleb a partir da fronteira com o Iraque e com a Turquia. Uma versão que não convenceu o Governo norte-americano: “Não há dúvidas de que a Síria usou armas químicas proibidas”, disse ainda Trump.

“Estamos preparados para fazer mais”

O ataque desta sexta-feira é o primeiro dirigido diretamente a Bashar al-Assad desde o início da guerra na Síria, há seis anos, que já provocou mais de 300 mil mortos, segundo estatísticas do Observatório Sírio dos Direitos Humanos. O lançamento de mísseis pelos Estados Unidos poderá mesmo assinalar uma mudança de rumo em relação ao conflito sírio. Até agora, Trump tinha sido cauteloso na condenação do regime sírio, aliado da Rússia e do Irão.

Nikki Haley, embaixadora dos Estados Unidos nas Nações Unidas, afirmou durante a reunião do Conselho de Segurança que os Estados Unidos estão “preparados para fazer mais” caso Bashar al-Assad volte a usar armes químicas, mas que espera que tal não seja necessário. “Os Estados Unidos da América destruíram o campo de onde partiram os ataques. Foi uma ação completamente justificada”, afirmou. “É tempo de dizer basta. Mas não basta dizer, também é tempo de agir.”

Durante o seu discurso nas Nações Unidas, Haley dirigiu fortes críticas ao Irão e à Rússia, que também considerou culpados pelos acontecimentos de terça-feira. Afirmando que firmando que Putin tem protegido Asssad “sempre” que passou “o limite da decência humana”, acusou a Rússia de não ter feito nada “para travar o uso de armas químicas pelo regime sírio”.

Nikki Haley afirmou que os Estados Unidos da América estavam preparados para tomar novas medidas, mas que esperava que isso não fosse necessário (JEWEL SAMAD/AFP/Getty Images)

Apesar das declarações de Haley, o secretário de Estado norte-americano, Rex Tillerson afirmou que o ataque não indica uma mudança de política dos Estados unidos em relação à síria. Sean Spicer, porta-voz da Casa Branca, explicou que este foi feito com uma intenção específica — deter o uso de armas químicas por parte do Governo sírio. Ainda assim, as acusações de Nikki Haley podem vir a deitar por terra uma possível aproximação entre a Rússia e os Estados Unidos.

Rússia foi avisada, mas agora está a ser investigada

O exército russo foi previamente informado do ataque norte-americano. De acordo com Jeff Davis, foram tomadas todas as “precauções minimizar o risco para pessoal russo ou sírio localizado na base aérea” de al-Shayrat. Curiosamente, o Governo russo estará a ser investigado por suspeitas de ter participado no ataque químico de terça-feira.

Putin acusa Estados Unidos de violarem lei internacional “sob falso pretexto”

Entre as vozes mais críticas da ação levada a cabo pelas forças norte-americanas, está a Rússia. Vladimir Putin — que reagiu à ação militar através de um comunicado lido pelo seu porta-voz, Dmitry Peskov — afirmou que os Estados Unidos cometeram “uma violação da lei internacional sob um falso pretexto”. Uma frase que foi repetida mais tarde pelo embaixador russo nas Nações Unidas, Vladimir Safronkov.

Safronkov, que participou na reunião desta sexta-feira do Conselho de Segurança das Nações Unidas, defendeu que o ataque apenas contribui para fortalecer o terrorismo. “Não é difícil imaginar como o espírito dos terroristas ficou inflamado depois deste ataque”, disse. Assinalando que o compromisso russo é “combater o terrorismo” e “continuar um diálogo construtivo”, defendeu que isso deve ser feito “com base em regras”. E deixou um aviso: “As consequências deste ataque para a estabilidade regional e internacional podem ser muito sérias”.

Vladimir Safronkov participou na reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas e acusou os Estados Unidos de contribuirem para fortalecer o terrorismo (Drew Angerer/Getty Images)

O primeiro-ministro da Rússia, Dmitry Medvedev, defendeu, por sua vez, que o ataque “arruinou completamente as relações” com a Síria. Tanto a Rússia como o Governo de Assad negaram o ataque químico de terça-feira.

Governo sírio considera ataque “parvo e irresponsável”

Bashar Jaafari, embaixador sírio nas Nações Unidas, disse durante a reunião do Conselho de Segurança que “vários mártires, incluindo mulheres e crianças”, tinham sido mortos durante o ataque norte-americano, frisando que o Governo sírio não tem armas químicas. O gabinete de Assad considerou a missão militar “parva e irresponsável”.