O francês Martin Provost tem um fraquinho por histórias de mulheres, reais ou de ficção, como se pode ver em “Séraphine” (2008), sobre a pintora Séraphine de Senlis, que viveu e trabalhou entre o século XIX e o XX; “Où Va la Nuit”´(2011), que tem como heroína uma mulher que assassina o marido que a maltrata, foge da polícia e faz amizade com uma viúva solitária; ou “Violette” (2013), biografia da escritora feminista Violette Leduc, que foi apadrinhada por Simone de Beauvoir. No seu novo filme, “Duas Mulheres, um Encontro”, Provost regressa às personagens ficcionais, mas o par de mulheres do título português (a fita chama-se originalmente “Sage Femme”, ou seja, “Parteira”) podia ter saído de uma dessas histórias que acontecem a toda a hora no quotidiano, que nos são contadas por conhecidos, ou de que podemos ser testemunhas no prédio em que moramos ou no nosso bairro.

[Veja o “trailer” de “Duas Mulheres, um Encontro”]

https://youtu.be/VlGBuZQa_dg

Claire (Catherine Frot) é uma parteira com muitos anos de experiência, dedicadíssima ao seu trabalho e às pacientes. Exerce as suas funções numa maternidade que vai fechar e ser substituída por uma moderníssima unidade hospitalar, à qual está reticente a pertencer, por a encarar como uma “fábrica de bebés”. Vive nos arredores de Paris com o filho, estudante universitário, que vai sair de casa para morar com a namorada. Abdicou de ter vida sentimental, tem pouquíssima vida social e a sua distração é cultivar legumes e flores num pedaço de terra à beira-rio. Paul (Olivier Gourmet), um simpático e educado camionista de longo curso, filho dos donos do terreno vizinho, está claramente interessado nela, mas Claire faz tudo para o fintar.

[Veja uma entrevista com as duas atrizes]

https://youtu.be/l5OvYDXTj4E

Um dia, cai-lhe do céu aos trambolhões na vidinha monótona e arrumada um furacão louro chamado Béatrice (Catherine Deneuve), a amante do pai de Claire quando esta era adolescente. Béatrice é mais velha, mais bonita, mais espampanante e muito mais vivida que Claire, mas também mais fútil e irresponsável. Viciada no jogo, anda a empenhar as últimas jóias para poder comer e ir para a batota. Não tem onde cair morta, e foi-lhe diagnosticado um tumor no cérebro. E não sabe que o pai de Claire, um célebre e medalhado nadador olímpico, se suicidou pouco depois dela o abandonar, apesar de ter sido o amor da sua vida. Claire nutre um velho e enorme ressentimento para com Béatrice e detesta tudo o que ela representa. Mesmo assim, apieda-se dela e acolhe-a em sua casa.

Entre estas duas mulheres diferentes como a pimenta e o açúcar, uma altruísta e de vida emocional e pessoal seca, a outra egoísta e de vida aventurosa e promíscua, ligadas pelo amor a um mesmo homem já desaparecido, por um curto e agitado passado familiar, feito de recordações comuns, de recriminações e de arrependimentos, e por uma mesma solidão inconfessada, desenvolve-se uma ligação problemática e paradoxal. É feita de aproximações e recuos mútuos, de concessões e finca-pés, mesclando afectividade e acrimónia, momentos de empatia e compreensão e de conflito e hostilidade, com relâmpagos de inesperada ternura (quando Béatrice está no hospital, após a operação ao cérebro, diz ao médico e às enfermeiras que Claire é sua filha, e esta, longe de o negar, fala e age como se ela fosse sua mãe).

[Veja a entrevista com o realizador Martin Provost]

Atriz de comédia consumada, Catherine Frot revela-se aqui também capacíssima de assumir um registo mais dramático, numa Claire inteiramente dada aos outros mas intimamente estiolada, e que, por influência da vistosa e turbulenta Béatrice, sai da sua concha para os braços de um homem como ela merece, e para uma existência mais bem e merecidamente saboreada. Quanto à outra Catherine, a Deneuve, tem em Béatrice um dos seus melhores papéis dos últimos anos, uma “allumeuse” borboleteante e incorrigível por natureza, ainda com “glamour” mesmo na decadência, exasperante mas também fascinante, que nem a ameaça da morte e a sombra da penúria fazem abdicar dos vícios enraizados, dos pequenos caprichos e luxos e da vontade de espremer todo o sumo da vida até ao último momento.

[Veja uma cena do filme]

Frot e Deneuve são os arrimos desta comédia dramática no feminino em que Martin Provost sabe fazer rir na dose exata e nos momentos certos, e comover sem começar a pingar melaço ou pedinchar a compaixão dos espectadores para as personagens. É um filme justíssimo no realismo dos retratos humanos, das psicologias e das situações, conseguindo até dar um toque na atualidade (a importância da proximidade entre parteiras e pacientes e os laços que cria, ameaçada pelo advento dos enormes e híper-tecnológicos mas impessoais complexos hospitalares).

Provost, que também é ator, escreve, filma e dirige o elenco de “Duas Mulheres, um Encontro” na melhor linha formal, narrativa e emocional daquele cinema francês que à alta qualidade da confeção junta o sentido comercial. “Du bon, du solide, du sérieux”, como eles dizem. E ainda sabem fazer.