Simon Green não é só um homem aos comandos de um computador. Para demonstração, Bonobo não fez a coisa por menos: a Algés trouxe duas guitarras, teclado, bateria e três instrumentos de sopro. Contando com a vocalista estiveram oito elementos em palco e se acha muito para a digressão de um álbum de música eletrónica, nos espetáculos de maior dimensão chegam a ser 15. Desmontar a eletrónica não é fácil, só a qualidade e o rigor da composição permitem transformar a caixa de ritmos numa banda inteira.

Foi o que aconteceu esta noite, na primeira vez que Bonobo atuou ao vivo em Portugal (os DJ sets não contam) e Migration foi o melhor dos pretextos. O sexto álbum do músico e produtor britânico saiu em janeiro e teve entrada direta na lista dos melhores do ano, por isso a expetativa era alta.

Começou lento com o tema que abre e dá o nome ao álbum, logo seguido de “Break Apart” que fez entrar Szjerdene Mulcare, a voz feminina que acompanha Bonobo nesta digressão — ela esteve bastante bem, com exceção de “Surface”, onde se aproximou do desastre. A partir daqui passagem feita para o batuque, com os músicos a entrar e sair numa sequência bem orquestrada e praticamente non stop. É o que Simon sabe fazer melhor, música para dançar.

Em fundo, imagens a desenhar o imaginário estético de Migration: espaço e estrelas e montanhas e lagos e pedras e lasers, um espetáculo visual desenhado ao milímetro a dar força à música. Como deve de ser, portanto.

Toda a elegância da banda se desmontou quando todos os músicos saíram e deixaram Simon sozinho. Rapidamente nos lembramos que, para Bonobo, os principais instrumentos são a imaginação e a perícia de manipular os botões da maquinaria. “Kerala” ficou para o fim, é seguramente o tema mais orelhudo de Migration. Tudo somado deu casa cheia e uma excelente alternativa à super estrela The Weeknd.

Contudo, o NOS Alive tem este velho problema: mesmo na ponta oposta do recinto é difícil deixar de ouvir o som do palco principal. Nada que não aconteça em quase todos os festivais, mas aqui é sempre um mal agudo. Se é um problema menor? Pelo contrário, porque obriga a aumentar o volume e a distorcer a experiência. É, será sempre, um desperdício. Bonobo bem que se pode queixar, e nós também.