A etapa do Tour desta sexta-feira fez quase lembrar aquelas corridas de Fórmula 1 em que se está mais tempo a filmar os corredores a meio da classificação do que propriamente os que vão na frente. E quando acontece isso? Quando a meio vão os principais candidatos ao título, neste caso Fabio Aru e Chris Froome. A três quilómetros do final, o inglês atacou mas o italiano, qual Bonucci (o defesa que foi a transferência mais louca do mercado do futebol este ano, da Juventus para o AC Milan) sobre rodas, agarrou-se ao adversário e não largou.

Froome recupera a amarela em 14.ª etapa vencida por Matthews

Aru conseguiu defender ontem a amarela, mas este sábado a história foi outra: mesmo numa etapa de transição, o britânico aproveitou a pequena subida no final da prova para recuperar a liderança da prova, beneficiando do inesperado atraso do transalpino, que bem queria andar mais mas não tinha resposta das pernas. Agora, estão separados por 19 segundos. Hoje, 15 de julho de 2017, o dia foi de Froome. Mas no dia de hoje, 15 de julho, a curva será sempre de Joaquim Agostinho, que venceu no longínquo ano de 1979 a etapa no Alpe d’Huez que lhe valeu mesmo uma estátua no local, como forma de homenagear o melhor ciclista português de todos os tempos.

Chamavam-lhe ‘Emigrante da bicicleta’. Por ter começado tarde na modalidade, em Brejenjas (Torres Vedras), Tino caía demasiadas vezes por não possuir a técnica apurada de outros (daí nasceu mais uma alcunha, o ‘Quim das Cambalhotas’), mas eram raros aqueles que conseguiam detetar alguém com tanta força e carisma nos anos 70 na Volta a França, a grande montra do ciclismo mundial. Ao todo, venceu cinco etapas do Tour (uma seria retirada mais tarde, por ter acusado positivo num teste anti-doping), a mais emblemática das quais em Alpe d’Huez, no ano em que repetiu o terceiro lugar da geral de 1978.

Joaquim Agostinho é o nosso homem da Volta a França. As suas quedas ou vitórias são intensamente vividas pelos portugueses que, cá de longe, lhe desejam boa sorte. Esse desejo confirma-se no decorrer da 17.ª etapa, que incluía as duas mais difíceis escaladas da prova. Com inspiração, ataca a dez quilómetros da meta e paulatinamente afasta-se dos seus companheiros. Ganha isolado a etapa, com quase dois minutos de avanço e pula de forma espetacular do 16.º para o terceiro lugar da classificação geral. À chegada a Paris, exatamente uma semana depois deste feito, Agostinho sobe com inteira justiça ao terceiro lugar do pódio“, resumia uma peça da RTP da altura.

O francês Bernard Hinault venceu o Tour nesse ano de 1979, seguido do holandês Joop Zoetemelk. Agostinho, que corria nos belgas da Flandria, ficou a 26 minutos do primeiro lugar mas garantiu o segundo pódio em França. Foi a melhor participação de sempre na Volta a França, igualando 1978. E tudo começou em 1969, quando ganhou duas etapas pelos franceses da Frimartic, para onde foi após sair do Sporting. Como recordar é viver, aqui fica uma das primeiras entrevistas de Tino no primeiro Tour (ficou em oitavo). E a primeira pergunta que fez, ainda antes de começar as respostas: “Então mas vocês vieram de Portugal só por minha causa?”.

Em julho de 2006, no âmbito do centenário do Sporting, foi inaugurada uma estátua de homenagem a Joaquim Agostinho na 14.ª curva do Alpe d’Huez. A lápide, em bronze e alto-relevo, tem 1,70 metros de altura e ficou apoiada num pedestal com três metros. Antigos companheiros, familiares e o eterno mecânico de Tino, Francisco Araújo, foram algumas das pessoas presentes na cerimónia.

Joaquim Agostinho faleceu em 1984, com 41 anos, após uma forte queda numa etapa da Volta ao Algarve, a 30 de abril, motivada pelo aparecimento de um cão que o fez desviar a trajetória. Mesmo não tendo capacete, acabou a etapa, mas as fortes dores de cabeça fruto de um traumatismo craniano levaram-no para o hospital, onde morreu a 10 de maio. Milhares e milhares de pessoas acompanharam o funeral da Basílica da Estrela para Torres Vedras. Como se escreveu na altura, “Agostinho tinha deixado órfão o povo português”.