Pesca

Não há sardinhas? A culpa (também) é das barragens. E dos golfinhos

2.134

Carlos Sousa Reis, biólogo e investigador, diz que recomendação do Conselho Internacional para a Exploração do Mar de parar a pesca da sardinha durante 15 anos não faz sentido. E que não vai resultar.

Um “absurdo” e uma “leviandade” que, no limite e a ser posta em prática, vai atirar para o desemprego uma geração inteira de pescadores, tornar obsoleta uma frota especializada de mais de 100 embarcações, e alterar profundamente os hábitos alimentares dos portugueses. Eis o que Carlos Sousa Reis, biólogo, professor universitário e investigador especialista em Pescas, Ecologia Marinha e Recursos Vivos Marinhos, tem a dizer sobre a recomendação de parar de pescar sardinha durante 15 anos que o Conselho Internacional para a Exploração do Mar (ICES) apresentou recentemente à Comissão Europeia como solução para a reposição do stock no mar ibérico.

Ao Observador, o especialista, que foi vice-presidente e presidente do Instituto Nacional de Investigação das Pescas (INIP) e do Instituto Português de Investigação do Mar (IPIMAR) durante uma década, garante que a medida, que não foi ainda aprovada, não faz sentido e não vai resultar. Essencialmente porque negligencia os principais fatores que, desde 2006, têm feito com que exista cada vez menos sardinha em Portugal.

O ciclo de vida da sardinha são 5 ou 6 anos. Quando falamos em suspender as pescas durante 15 anos estamos a falar em três ciclos de vida. Em que é que isso resolveria o problema? Por que não parar durante 150 anos? Mais vale dizer que os portugueses estão proibidos de comer sardinhas.”

De acordo com Carlos Sousa Reis, o primeiro e maior responsável por a população de sardinha estar tão diminuída é o homem. Além da poluição das águas, o biólogo aponta o dedo às barragens: “A primeira coisa que se devia fazer era acabar com todos os açudes e hidroelétricas que não estão a produzir nada. Devíamos destruir barragens, como a Noruega fez. No total, entre açudes feitos em valas, mini-hídricas e grandes barragens, temos cerca de 800 retenções de água no país. Mais um vizinho com 180 barragens, Espanha é só o quinto maior país do mundo em número de barragens”.

O que tem uma coisa a ver com outra? Tudo, garante o especialista: com a retenção em barragens, as águas dos rios deixam de correr livremente para o mar, pelo que os nutrientes e sais minerais (que uma vez na água salgada e em contacto com a luz do sol se transformam em fitoplâncton e em zooplâncton) de que as sardinhas precisam para se desenvolverem, ainda em fase larvar, também ficam pelo caminho. “Se não tiverem nutrientes, as larvas não se conseguem alimentar e morrem“, explica.

Há mais: como os sedimentos também se depositam no fundo das barragens, há cada vez menos areia junto à orla costeira, o que também dificulta a vida da sardinha na fase mais incipiente, que é atirada pelo agitação marítima para longe — e aí, diz Sousa Reis, é que os níveis de alimento baixam radicalmente para zero.

E os predadores naturais da sardinha? Ninguém fala deles? Temos um acordo baleeiro desde 1986 — e ainda bem–, que fez crescer exponencialmente as populações de golfinhos na costa portuguesa. Como já não têm predadores naturais, hoje há uma superpopulação de golfinhos, que se alimenta de sardinhas e outras espécies. Mas ninguém se atreve a avaliar isso”, diz o especialista.

Apesar de dar a entender que parte da solução para o problema da falta de sardinha — a que também não é alheio o aquecimento global, que afeta diretamente os níveis de salinidade e de temperatura da água — pode passar pelo controlo das populações de cetáceos, Sousa Reis diz que não arrisca sugerir tal medida, necessariamente impopular junto de ambientalistas e defensores dos animais.

“Uma vez aconselhei um senhor ministro da África do Sul sobre a necessidade de os cientistas começarem a estudar formas de controlar as populações de focas no país, que estavam cada vez maiores, sobretudo junto à Cidade do Cabo, chegavam até a atacar os pescadores. Acontece que foi dizer isso para os jornais e foi despedido no dia seguinte. Este problema com as focas existe também no Canadá, na Gronelândia, é um problema real, mas há coisas que não se podem dizer, porque caem mal. Percebo isso. Mas também acredito que há-de chegar uma altura em que vamos ter de decidir: ou o homem ou os outros.”

    Se tiver uma história que queira partilhar ou informações que considere importantes sobre abusos sexuais na Igreja em Portugal, pode contactar o Observador de várias formas — com a certeza de que garantiremos o seu anonimato, se assim o pretender:

  1. Pode preencher este formulário;
  2. Pode enviar-nos um email para abusos@observador.pt ou, pessoalmente, para Sónia Simões (ssimoes@observador.pt) ou para João Francisco Gomes (jfgomes@observador.pt);
  3. Pode contactar-nos através do WhatsApp para o número 913 513 883;
  4. Ou pode ligar-nos pelo mesmo número: 913 513 883.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: tpereirinha@observador.pt

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)