Os banhistas da praia de São João da Caparica, em Almada, foram surpreendidos na tarde desta quarta-feira, quando uma avioneta descontrolada se viu obrigada a fazer uma aterragem de emergência no areal, durante um voo de instrução. Duas vítimas mortais resultaram da opção tomada pelo piloto de aterrar na areia. Uma decisão também questionada pelos banhistas que se encontravam no local: porquê fazer a aterragem no areal repleto de pessoas e não no mar, à partida a opção mais lógica? Para além do instinto de sobrevivência (e também a sobrevivência do aluno que estava a seu lado), há uma explicação técnica para esta escolha, de acordo com os especialistas contactados pelo Observador.

A avioneta — um aparelho monomotor de dois lugares — é um Cessna 152, confirmou o piloto Pedro Diniz, ao Observador. É propriedade do Aeroclube de Torres Vedras, mas estava cedida “há vários anos” à Escola de Aviação G-air. O acidente aconteceu durante um voo de treino de navegação da escola. Estes voos constituem a primeira fase dos cursos de aviação em que os alunos não pilotam a avioneta e apenas estão atentos ao trajeto a percorrer e aos pormenores do território, explicou uma fonte ligada à escola. A aula estava a ser dada por um “instrutor bastante experiente”, explicou o vice-presidente da G-Air, Nelson Ferreira, ao Observador. A avioneta partiu do Aeródromo Municipal de Cascais e dirigia-se para Évora.

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O comandante do Aeroclube de Torre Vedras, João Carlos Francisco, garantiu que a avioneta tinha a “manutenção em dia” mas uma falha no único motor aconteceu pouco depois de ter levantado voo. Quando aterrou no solo, percorreu uma distância de 100 metros no areal e provocou a morte de duas pessoas que estavam à beira-mar, na praia de São João da Caparica.

Aterrar no mar era morte certa. Em terra, talvez não fosse

Há uma explicação técnica que pode ter influenciado a decisão do piloto. A avioneta que estava a pilotar é básica e pequena. Só tem um motor e, por isso, se falhar, não há segunda opção. Não tem piloto automático, como os aviões comerciais, apesar de haver uma configuração que faz com que o avião fique a planar por mais tempo. Mas há duas características que fariam com que o avião se estilhaçasse ao aterrar no mar, explica Pedro Diniz. Por ser uma avioneta pequena, as rodas são fixas e não recolhem. Numa amaragem com este tipo de aparelho, “aconteceria um efeito de ancora” e a avioneta “partia-se ao meio ou ficava desfeita”, explica o piloto.

Por outro lado, a asa deste tipo de avioneta está ao nível da parte superior do aparelho, ao contrário do que acontece com os aviões comerciais, em que a asa está posicionada mais abaixo. Pedro Diniz prevê que, por causa desta característica, se a avioneta amarasse e permanecesse inteira, ficaria completamente submergida.

Apesar de uma das asas estar partida, a fotografia consegue mostrar que ambas se encontram ao nível do limite superior da avioneta. (Foto de Ricardo Pimentel)

O piloto esclarece ainda que “o impacto do contacto da avioneta com a água é mais agressivo do que o contacto com a terra”. Isso faz com que o mar seja a última das opções da check-list de uma situação que obriga a uma aterragem de emergência — da qual os pilotos tomam conhecimento durante a instrução e são treinados para a cumprir.

Numa situação destas, coloca-se o avião numa velocidade e posição para ficar no ar o maior tempo possível. Depois, o piloto olha num raio de 30 graus à esquerda ou à direita, daquilo que conseguimos ver, para analisar as opções”, explicou Pedro Diniz.

A primeira opção é “um aeroporto qualquer, mesmo que fechado”. A segunda é “um pedaço de alcatrão. A terceira pode ser uma floresta, um descampado ou, até, uma praia. O mar é sempre uma opção pouco considerável. “Entre a opção de tentar uma amaragem, que iria correr mal quase por certo, e outra opção com uma probabilidade menos certa”, Pedro Diniz duvida que houvesse muitos pilotos a optar pelo mar, acrescentando que, apesar de, àquela distância, o piloto conseguir ver as pessoas que estavam na praia, havia a possibilidade de ninguém morrer. Já uma amaragem, era morte quase certa para o piloto e o aluno.

Fonte do setor aeronáutico refere ao Observador que não há “regras escritas” que estabeleçam um padrão a seguir neste tipo de cenários. Até porque, “em situações de emergência, dificilmente as regras podem ser tipificadas”. Há, no entanto, um “princípio” geral que é passado desde as primeiras aulas: “Os pilotos são treinados para, em situações de emergência, aterrar em segurança prevenindo a segurança de pessoas e bens que se encontrem à superfície.” Outra fonte com experiência no setor utiliza outra formulação para dizer o mesmo. O “bom-senso” deve levar o piloto a “garantir que, quando aterra, não potencia outro tipo de acidentes, não ponto em perigo terceiros”.

Segundos para avaliar opções e salvaguardar vidas

A par dos fatores técnicos, há o lado emocional e humano a quem nem os pilotos com horas de treino para atuar em situações de emergência conseguem escapar. O piloto e ex-presidente do Sindicato dos Pilotos da Aviação Civil, Jaime Prieto, explica que é “uma situação de elevada pressão” em que o piloto tem de fazer uma série de avaliações em segundos, numa situação que “acabou por matar duas pessoas, numa praia que estava cheia de gente”.

Numa tragédia destas há uma tendência de apontar o dedo. Se forem perguntar ao piloto se, no momento, na cabeça dele, estava a salvar vidas, ele vai dizer que estava a salvar”, explica Jaime Prieto.

O piloto defende que se deve aguardar pelos resultados da investigação antes de serem tiradas conclusões. A investigação do acidente está agora a cargo do Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários, que vai analisar a avioneta e determinar o que levou à aparente falha do motor que obrigou a uma aterragem de emergência no areal onde se encontravam centenas de pessoas.

Jaime Pietro chama ainda atenção para outro aspeto: o piloto era também instrutor e tinha a seu lado o aluno. “Os pilotos estão sempre com o instinto de sobrevivência ligado”, garante Jaime, acrescentando que não tem dúvidas que “aquele instrutor também estava a pensar na sobrevivência do aluno”. Para além dos fatores que muitas vezes não permitem que os pilotos façam “avaliações realistas”, o piloto tinha também o fator de salvaguardar o aluno.

Qualquer piloto está preparado para salvar vidas e não causar vitimas. É inquestionável. Mas até que ponto, o piloto em que estava a visualizar o sítio que ia aterrar, não achou que a zona era suficiente aberta?, questiona o piloto.

Jaime Pietro defende que “se não tivesse havido vítimas, isto podia ser considerada uma aterragem muito bem conseguida” e alerta que podem ter passado várias ideias pela cabeça do piloto: achar que não tinha controlo para ir para o mar ou achar que ia conseguir travar o avião a tempo. “Tenho a certeza de como este piloto se está a sentir”, revela Jaime Pietro.

O problema das restrições ao espaço aéreo. Treinos já foram reduzidos em 90%

As aulas de aviação só podem ser feitas a uma altura máxima de mil pés, cerca de 300 metros, devido às restrições que existem no espaço aéreo de Lisboa e, por consequência, impostas à base de Tires, em Cascais. Jaime Pietro explicou ao Observador que existe um “corredor aéreo para estas aeronaves que está limitado a uma altitude de 300 metros”, que faz com que este tipo de aterragem de emergência não seja inédito.

O vice-presidente da G-Air, Nelson Ferreira, contou ao Observador que estas restrições fazem com que não haja grande “margem de manobra” e até levou a escola a “reduzir os treinos em 90%”. “É um dos problemas da base de Tires”, aponta.