A receção da equipa de basquetebol da Eslovénia quando regressou ao seu país após a primeira vitória de sempre no Campeonato da Europa foi qualquer coisa fascinante, com mais de 20 mil pessoas à espera dos novos heróis nacionais para uma festa rija que teve, aqui como no campo, Goran Dragic como figura principal. O canhoto de 31 anos, atualmente ligado aos Miami Heat, teve uma competição de sonho que fechou com uma exibição de génio na final frente à Sérvia, marcando 35 pontos no triunfo por 93-85. Seria depois considerado o MVP da prova.

Até no encontro decisivo, o Dragão da Eslovénia (assim se explica a quantidade de imagens com a Guerra dos Tronos que surgiram nas redes sociais desde domingo) tinha tudo para “explodir” de emoções: nasceu em Liubliana, a mãe é eslovena, mas o pai é sérvio. Nem isso conseguiu quebrar o base. Até que um gesto da mãe de Drazen Petrovic colocou o jogador lavado em lágrimas numa entrevista concedida a um canal local.

Nascido em Sibenik, Drazen Petrovic chegou à NBA em 1989 (embora tenha sido escolhido pelos Portland Trail Blazers na terceira ronda do draft de 1986) e era tido como o maior expoente de uma geração de ouro da Jugoslávia. Após passagens por Sibenka, Cibona e Real Madrid, rumou então aos Blazers, tendo sido trocado em 1991 para os New Jersey Nets. Dois anos depois, e numa altura onde parecia cada vez mais provável regressar à Europa com um contrato milionário dos gregos do Panathinaikos, acabou por falecer num acidente de viação na Alemanha com apenas 28 anos. Agora, a mãe do shooting guard que morreu em 1993 decidiu oferecer uma camisola dos Nets com o número 3 a Dragic (também joga com esse número), que se desfez por completo com a recordação.

Foi um dos mais bonitos presentes que alguma vez recebi na minha vida. Ele era o meu ídolo, todos sabemos o que fez pela Jugoslávia e pelo basquetebol mundial. Foi uma honra para mim jogar com o número 3”, disse ao canal esloveno Siol.

https://www.youtube.com/watch?v=aHj1MOzPN8Q

Aos 31 anos, Goran Dragic (que tem um irmão mais novo, Zoran, que também já passou pela NBA e está agora em Itália) teve o melhor ano da sua carreira, que ganhou mais um capítulo esta quarta-feira, ao anunciar a saída da seleção da Eslovénia com o título coletivo e individual. “Consegui o que mais queria, que era a medalha de ouro. Por isso, considero que este é o melhor momento para dizer adeus”, assumiu depois dos festejos em Liubliana.

Curiosamente, o base, que além de Petrovic tinha Michael Jordan, Allen Iverson e Steve Nash como principais referências, começou por ser futebolista, carreira que foi obrigado a abdicar após uma lesão. Passou pelo Ilirija, da segunda divisão eslovena, subiu ao Slovan, esteve em Espanha (CM Múrcia), jogou no Olimpija e estreou-se na NBA pelos Phoenix Suns (depois de ter sido trocado pelos San Antonio Spurs) em 2008. Passou pelos Houston Rockets, voltou a Phoenix – onde ganhou em 2014 o prémio de jogador que mais evoluiu – e chegou aos Miami Heat em 2015, tendo na última temporada igualado a melhor média de pontos (20.3) e assistências (3.8) por jogo.

O esloveno é também conhecido por uma outra característica na NBA: é, provavelmente, dos jogadores mais azarados da competição. E desde sobrolhos abertos, olhos inchados, dentes partidos e traumatismos após quedas desamparadas, já lhe aconteceu um pouco de tudo em jogo, como mostra o vídeo abaixo.