“Foi dali de baixo que partiu o burro e o Ferrari”, apontava o líder do PS quando passava na estação do Senhor do Roubado, na linha amarela do metro. Em 1993, quando concorreu à Câmara de Loures, e para provar a necessidade do metro até ali, Odivelas, promoveu uma corrida sui generis entre um animal e um carro topo de gama a partir da Calçada de Carriche, conhecida pelo intenso trânsito. Vinte e quatro anos depois, António Costa passou na linha, numa ação de campanha das autárquicas.

“Foi começar o dia regressando ao passado para demonstrar como hoje já não é preciso fazer corridas entre o burro e um Ferrari para vir de Odivelas até Lisboa. E que tal como em 93 tínhamos assumido o compromisso que era uma prioridade levar o metro a Odivelas, o metro é hoje uma realidade que tem de se continuar a desenvolver”. A declaração foi feita já em Lisboa, à chegada à estação do Rato, com Costa a vestir o fato de secretário-geral do PS e a dar uma ajuda à campanha do candidato do partido em Odivelas, Hugo Martins — que também é o presidente da câmara depois de ter substituído Susana Amador há dois anos. Mas a boca foge-lhe para o cargo que ocupa em São Bento quando fala na primeira pessoa do plural: “Ao mesmo tempo que estamos a municipalizar os transportes rodoviários, houve um novo compromisso em relação ao desenvolvimento dos transportes públicos e também do metropolitano com o desenvolvimento da rede e a melhoria das composições”. Afinal esta campanha tem dois carris: o das autárquicas e as das futuras legislativas.

18 fotos

Também fala longamente sobre o que devem ser prioridades, pondo de parte a propostas de Assunção Cristas de mais 20 estações de metro. “É manifestamente algo que não faz o menor sentido. O que temos é de densificar o interior da cidade, daí a necessidade da linha circular que vai juntar a linha amarela à verde“. No círculo mais fora do centro, Costa diz que “a prioridade” é “a extensão do canal entre Odivelas e Loures” e o “desenvolvimento dentro de Moscavide e Sacavém“. Noutra fase, coloca o “olhar para a zona Ocidental da cidade, Alcântara, Ajuda, Belém“.

Mas vamos ao começo da viagem, quando ainda na chegada à estação de Odivelas António Costa tenta beber o café num estabelecimento à porta do metro. Mal consegue e quase entorna dois cafés. Com o primeiro aconteceu mesmo, quando uma senhora lhe pediu um beijo numa ponta da esplanada. “Já ganhei o dia”, exclamava a mulher. Já Costa ganhou umas gotas de café pelo fato abaixo. Pega noutro e mais uma volta, para um dedo de conversa ali ao lado, quase entorna de novo, mas consegue equilibrar a chávena no pires para ouvir mais um eleitor que o quer cumprimentar e não só. “Acreditamos no PS que é o partido do cigano” e atira ao polémico candidato apoiado pelo PSD em Loures, André Ventura. “Esse André devia era ter inteligência e olhos para olhar para as coisas”, diz o homem a Costa jurando, pelos seus: “Somos cidadãos portugueses, somos honestos. Não somos como ele que e um racista”. Sobre isto, o líder do PS tinha falado na noite anterior, com um ataque ao PSD.

A plataforma da estação de Odivelas enche-se com a vasta comitiva — e com a comunicação social que a acompanha — quando chega o metro a confusão é grande, mas Costa passa entre ela e fica no meio dos bancos, pendurado no ferro de cima como um utilizador habitual, vai falando com quem está sentado. A dada altura, senta-se à frente do candidato Hugo Martins, ao lado deste o candidato socialista à junta da Ramada . Foi uma espécie de comício personalizado o que aconteceu ali durante uns minutos. O candidato à câmara prometia, o candidato à junta também e o líder do PS concluía: “É esta a vantagem do poder local, facilmente se encontra os cidadãos e se recebem os recados. Eu andava sempre com um bloquinho para ir apontando”.

Como socialista que lidera o Governo tem uma recado para quem concorre a presidência de Câmara apontar. “É muito importante que no próximo quadro comunitário possamos pensar na extensão da rede do metro além do que está definido, quer no metro de Lisboa quer no do Porto”. Um caderno que Costa primeiro-ministro na rentrée política deste ano e quem tem levado o Governo a reunir-se com vários parceiros para discutir aquilo que o socialista apelida de “pós-2020”, ou seja, o próximo envelope financeiro comunitário que o país terá para investir depois de 2020.

Ao fim do dia, António Costa volta a tirar a gravata de primeiro-ministro para mais uma perninha na campanha autárquicas, desta vez junto dos candidatos do PS em Sintra, Basílio Horta, e Cascais, Gabriela Canavilhas.