Havana, 5 de março de 1960. No dia anterior, o navio belga “La Coubre” explodiu em Cuba (trazia armamento para a Revolução Cubana) e mais de cem tripulantes morreriam — ferindo a explosão outras centenas mais. Fidel Castro atribuiria a responsabilidade da explosão à CIA, descrevendo-a como um “acto terrorista” dos norte-americanos. O funeral das vítimas contou com a presença dos principais ideólogos da Revolução, Castro e Che Guevara, ladeados por outras personalidades internacionais assumidamente comunistas, como os escritores e filósofos Jean Paul Sarte e Simone de Beauvoir.

Presente estava igualmente o fotógrafo cubano Alberto Korda. É dele uma das fotográficas mais icónicas de Che — a revista Time considera-a mesmo uma das fotografias mais “influentes” da história mundial.

Como é que esta surgiria? Na biografia de Che Guerra escrita por Jorge Castañeda, “La Vida en Rojo”, o próprio Korda relata na primeira pessoa o momento que descreve como “uma casualidade”.

Encontrava-me num plano mais baixo em relação à tribuna, com uma câmara fotográfica Leica de 9mm. Em primeiro plano estavam Fidel, Sartre e Simone de Beauvoir; Che estava parado atrás da tribuna. Houve um instante em que passou por um espaço vazio, estava numa posição mais frontal, e foi aí que em segundo plano emergiu a sua figura. Disparei. Em seguida, percebo que a imagem é quase um retrato, sem ninguém atrás. Volto a câmara na vertical e disparo segunda vez. Isto em menos de dez segundos. Che afasta-se então e não regressa aquele lugar. Foi uma casualidade…”, explicou o fotógrafo cubano.

Durante meses a fotografia (que receberia o título “Guerrilheiro Heróico”) não seria revelada por Alberto Korda. Foi utilizada pela primeira vez em 1961, no anúncio das jornadas sobre a industrialização em Cuba desse ano. Não se tornaria popular de imediato. Isso só aconteceria após o assassinato de Che Guevara, em 1967 — data que se assinala este mês –, depois de ser publicada na revista Paris Match.

Depois, num contrassenso histórico (Che era comunista mas tornou-se produto do capitalismo), a imagem de Ernesto Guevara de la Serna chegaria à cultura pop. É certo que, antes mesmo disso, o editor italiano Giacomo Feltrinelli o converteu num símbolo dos movimentos sociais de 1968 na Europa, imprimindo a fotografia de Korda em cartazes que ocupariam as ruas. Depois, sim, a cultura pop associou-se à imagem do revolucionário argentino — ou vice-versa –, quando Jim Fitzpatrick (em 1968) criou uma imagem de alto-constraste a partir da fotografia de Korda. Anos depois, Gerard Marlange, assistente de Andy Warhol, deu-lhe cor.

A fotografia (ou derivados desta) com Guevara de boina estrelada na cabeça, barba rala e melenas longas, olhar no horizonte, correu mundo, deu à estampa na imprensa, em t-shirts e souvenirs, é ornamento de praças em Havana — e também chegaria à publicidade. Então, Alberto Korda, que não tinha recebido qualquer direito autoral pela fotografia — o fotografo sempre permitiu a sua utilização gratuita para fins políticos –, agiu judicialmente e processou a marca de vodka Smirnoff por utilizá-la numa campanha de publicidade à bebida.