Várias atrizes de Hollywood uniram-se contra o produtor Harvey Weinstein, que é acusado de assédio e chantagem sexual durante 30 anos. O norte-americano, vencedor de um Óscar e produtor de filmes como “O Discurso do Rei” ou “O Paciente Inglês”, foi demitido este domingo da sua empresa, a Weinstein Company.

Produtor Harvey Weinstein acusado de décadas de assédio sexual

E se há quem assuma que sempre houve rumores quanto ao comportamento do produtor, outras (e outros) garantem que não fazia ideia do que se passava. É o caso de Meryl Streep, vencedora de três Óscares, apelidou as mulheres que falaram contra Weinstein de “heróis”. Considerou ainda o comportamento do produtor “indesculpável”, mas garante que nem toda a gente sabia do que se passava.

“Uma coisa pode ser esclarecida. Nem toda a gente sabia. O Harvey apoiava o trabalho intensamente, era exasperante, mas foi respeitoso comigo na nossa relação profissional, e com muitos outros com quem trabalhou profissionalmente. Eu não sabia destas agressões; não sabia dos acordos financeiros com atrizes e colegas; não sabia dos encontros em quartos de hotéis, nas casas de banho, ou outras ações inapropriadas e coercivas”, lê-se num comunicado da atriz com o maior número de nomeações para os Óscares de sempre (20), divulgado pelo Huffington Post.

Quem também disse não ter conhecimento das ações de Weinstein foi atriz Judi Dench. “Apesar de não haver dúvidas de que Harvey Weinstein ajudou e apoiou a minha carreira nos últimos 20 anos, não tinha qualquer conhecimento destas agressões, que são, com certeza, horríveis”, afirmou a britânica, em declarações às CNN.

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A atriz, que venceu um Óscar de Melhor Atriz Secundária pelo filme “Shakespeare in Love” produzido por Weinstein, ofereceu ainda o seu “apoio de todo o coração” às mulheres que denunciaram o caso — entre elas, a atriz Ashley Judd.

O mesmo aconteceu com Jennifer Lawrence. À revista Variety, disse ter trabalhado com Weinstein há cinco anos e não só não foi alvo de “qualquer tipo de assédio” como “não tinha conhecimentos destas alegações”. “Este tipo de abusos não tem desculpa e é absolutamente perturbador.”

Já a norte-americana Glenn Close assumiu ao New York Times ter conhecimento dos rumores que circulavam sobre o produtor e sobre o seu “reiterado comportamento inapropriado com mulheres”. “Harvey foi sempre decente comigo, mas agora que os rumores estão a ser comprovados, sinto-me zangada e triste.”

A atriz norte-americana diz estar zangada com Harvey e com a “conspiração de silêncio em torno das suas ações“, mas também em relação aos “casting de sofá” — expressão referente à atribuição de papéis em filmes em troco de favores sexuais. “Ainda é uma realidade na nossa indústria e no mundo.”

Glenn Close abordou ainda o lugar “vulnerável” em que estão as mulheres na indústria do cinema, aproveitando para aplaudir a “coragem monumental das mulheres que falaram”. “Espero que as suas histórias e a reportagem que lhes deu voz seja um ponto de viragem, que mais histórias seja contadas e se haja uma mudança.” Mudanças essas, acrescenta, que devem ser “institucionais e pessoais”.

“Homens e mulheres, em posições de poder, devem criar um ambiente de trabalho no qual as pessoas, cujos empregos dependem deles, se sintam seguras para denunciarem comportamentos inapropriados e ameaçadores. Ninguém deve ser forçado a trocar a sua dignidade pelo sucesso profissional“, afirmou Glenn Close, apelando à “união” e à criação de uma “cultura de respeito e igualdade” que não dê espaço a “bullies“.

Kate Winslet também estava na esperança de que aquilo que se dizia sobre o produtor fossem apenas rumores. Em declarações à revista Variety, a atriz referiu que as atitudes destas mulheres ao denunciar a situação é “extremamente corajosas” e tem sido “profundamente chocante de ouvir”. Para a britânica, nenhuma mulher deve aceitar ser tratada da forma como o produtor tratado estas “jovens mulheres talentosas e vulneráveis.”

“Não tenho dúvida que para estas mulheres esta altura tem sido, e continua a ser, extremamente traumática. O seu comportamento [de Weinstein] é sem dúvida chocante e muito, muito errado. Tinha esperança que este tipo de histórias fossem rumores, talvez tenhamos sido todos ingénuos. E deixam-me zangada. Tem de haver ‘tolerância zero’ em relação a este tratamento degradante e vil das mulheres em qualquer trabalho em qualquer parte do mundo.”

A atriz Lena Dunham destacou os “abusos, as ameaças e a coerção” de que muitas mulheres foram alvo ao longo dos tempos. “Weinstein pode ser o homem mais poderoso de Hollywood para ser denunciado como predador, mas claramente que não é o único autorizado a andar em roda livre.” Para a americana, esta situação é apenas um “microcosmo” do que acontece em Hollywood desde sempre.

Já as atrizes Julianne Moore e Patricia Arquette utilizaram o Twitter para abordar o assunto. Moore considerou que, através da “coragem” destas mulheres, “estamos a avançar”, sublinhando que elas nada têm a ganhar, a nível pessoal, com as denúncias. “Se há uma maneira de alguém deixar de ser predador então espero que Harvey aprenda e partilhe com o mundo. É uma epidemia”, lê-se no tweet de Arquette.

E não são só as mulheres a pronunciarem-se em relação ao escândalo. O realizador James Gunn afirmou que os homens que tentam “forçar” mulheres, homens e crianças a nível sexual estão “por todo o lado” e que vão continuar a fazê-lo ao “mínimo poder que obtenham”.

“Estão por todo o lado e estão a matar-nos. Quando alguém é coagido sexualmente isso não afeta apenas a pessoa, mas as vidas daqueles à sua volta (…). Destrói segurança e conforto em qualquer sociedade. E homens cruéis estão a fazer isto em todo o o lado, todos os dias, em qualquer emprego, em qualquer casa, em todo o mundo…”

Também Kevin Smith, ator, realizador e produtor norte-americano, recorreu ao Twitter para abordar o caso. “Ele financiou os primeiros 14 anos da minha carreira –e agora sei que enquanto estava a lucrar, outros estavam num sofrimento terrível. Sinto-me envergonhado”, lê-se no post.