O preço para comprar um dólar norte-americano nas ruas de Luanda aumentou mais de 10% numa semana, aproximando-se dos 420 kwanzas (2,15 euros), com receios de uma desvalorização da moeda nacional angolana.

O custo de cada dólar norte-americano no mercado paralelo chegou a rondar, após as eleições gerais de 23 de agosto, os 370 kwanzas, acima do dobro da taxa de câmbio oficial definida pelo Banco Nacional de Angola (BNA), há um ano e meio fixa nos 166 kwanzas (85 cêntimos de euro).

Com ligeiras variações, essa cotação do mercado paralelo manteve-se praticamente inalterada até 16 de outubro, disparando logo após o discurso, anual, sobre o estado da Nação, feito pelo chefe de Estado angolano, João Lourenço.

Numa ronda realizada esta terça-feira pela Lusa foi possível encontrar em Luanda cada dólar a ser vendido entre 390 e os 410 kwanzas em bairros de referência da capital, casos do Mártires de Kifangondo, Mutamba, Maculusso e São Paulo, num aparente efeito provocado pelo discurso do chefe de Estado.

Em alguns anúncios nas redes sociais, a transação já surge a 420 kwanzas por cada dólar norte-americano a comprar.

O nosso país encontra-se numa situação económica e financeira difícil, resultante da queda dos preços do petróleo no mercado internacional e da consequente liquidez em moeda externa”, admitiu João Lourenço, na Assembleia Nacional, a 16 de outubro.

Esta conjuntura, recordou, levou as Reservas Internacionais Líquidas (RIL) do Estado – que estão a ser vendidas aos bancos comerciais para compensar a falta de divisas – a “uma preocupante contração acumulada de 46,4%” entre 2013 e o segundo trimestre de 2017, “como consequência dos sucessivos défices das balanças de pagamentos, devido à diminuição do valor das exportações petrolíferas”.

“Neste contexto, impõe-se a tomada de medidas de política necessárias e inadiáveis, de modo a alcançar-se a estabilidade macroeconómica do país, com a pedra de toque no equilíbrio das variáveis macroeconómicas suscetíveis de garantir os equilíbrios internos e externos do país e as condições necessários para estimular a transformação da economia, o desenvolvimento do setor privado e a competitividade”, disse.

Alguns economistas têm apontado, nas últimas semanas, a possibilidade de uma forte desvalorização do kwanza, moeda nacional, face ao dólar norte-americano, possivelmente à volta de 30%, mas João Lourenço não adiantou medidas concretas neste discurso.

Angola realizou eleições gerais a 23 de agosto, que culminaram com a vitória (61%) do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), que garantiu a maioria qualificada no parlamento e a eleição de João Lourenço como novo Presidente da República.

Atualmente, mantêm-se as limitações no acesso a divisas nos bancos, inclusive nas contas em moeda estrangeira, situação que torna a venda paralela, para muitos nacionais e estrangeiros, a única forma de aceder a dólares ou euros em Angola.

Angola vive desde finais de 2014 uma profunda crise financeira e económica decorrente da quebra para metade nas receitas com a exportação de petróleo, tendo desvalorizado o kwanza, face ao dólar, em 23,4% em 2015 e mais 18,4% ainda no primeiro semestre de 2016.

A atividade das ‘kinguilas’ – como são conhecidas as mulheres que se dedicam à compra e venda de divisas – foi condenada em abril pelo governador do BNA, que advogou o seu fim. “Não podemos ter, no nosso país, determinadas ruas que definem a referência do preço, onde se vendem dólares ou euros. Não podemos ter este nível de fluxo financeiro no mercado informal, que tem um grande impacto sobre o sistema financeiro”, justificou Valter Filipe.

As taxas de rua já estiveram próximas dos 600 kwanzas por cada dólar em agosto e julho do ano passado, depois de máximos de 630 kwanzas em junho, face à falta de dólares nos bancos.