O Presidente da Turquia acusou esta terça-feira os Estados Unidos de intervirem na Síria para prejudicar os interesses da Turquia, Irão e “talvez Rússia” e voltou a criticar Washington pelo seu apoio às milícias curdas sírias que Ancara considera “terroristas”.

“Por que motivo continuam os Estados Unidos a enviar armas para o norte da Síria depois da expulsão do Daesh [acrónimo árabe do grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico (EI)]? Por que motivo continuam ali? Por que motivo continuam a chegar armas? Fazeis cálculos contra a Turquia, Irão e talvez a Rússia”, afirmou o Presidente turco durante um encontro do seu partido em Ancara, segundo o canal televisivo CNNTürk.

A Rússia, Turquia e Irão são garantes do cessar-fogo decretado na Síria há quase um ano e patrocinaram o designado processo de Astana, apesar de Moscovo e Teerão apoiarem o regime de Bashar al-Assad, enquanto a Turquia colabora com as milícias curdas que combatem as forças de Damasco.

Erdogan voltou a pedir a retirada da milícia curda síria da região de Manbech, e voltou a criticar o envio de armamento pelos Estados Unidos a esta guerrilha, após ter sido declarada a derrota do EI.

O chefe de Estado turco também criticou os EUA pela suposta promessa feita a Ancara de forçar a retirada das Unidades de Proteção do Povo (YPG, a milícia curda local) desse território, e onde permanecem forças militares norte-americanas, cuja presença no atual contexto também foi criticada.

As milícias curdas laicas YPG foram o principal aliado dos Estados Unidos no combate às forças ‘jihadistas’ na Síria, mas Ancara rotula esta formação de “terroristas”, pelos estreitos vínculos que mantém com o Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), a guerrilha curda da Turquia.

O Governo turco também receia que as YPG assumam o controlo efetivo da região entre Manbech e Afrine, separadas por apenas 80 quilómetros, para estabelecer uma faixa territorial sob domínio curdo ao longo da fronteira norte da Síria com a Turquia.

Em 20 de janeiro a Turquia desencadeou a operação “Ramo de oliveira” contra as YPG no enclave de Afrine, um cantão isolado do restante território dominado por esta milícia, e onde os Estados Unidos não possuem presença militar.

Esta terça-feira, milhares de manifestantes percorreram as ruas deste enclave em protesto contra a ofensiva turca, que entrou na terceira semana.

Um responsável local, Rezan Hiddo, disse que centenas de autocarros que transportavam sírios do nordeste do país, e alguns membros da minoria Yazidi do Iraque, chegaram a Afine na manhã de terça-feira.

Os manifestantes referiam que se deslocam a Afrine em protesto contra os “planos da Turquia” para alterar a demografia neste enclave predominantemente curdo, substituindo a população local por árabes e islamitas leais ao Presidente turco Erdogan.

Através de uma declaração, o Presidente do Irão, Hassan Rouhani, considerou que a atual ofensiva turca não serve os interesses de qualquer país na região.

A página da Presidência refere-se a um contacto telefónico entre Rohani e o seu homólogo russo Vladimir Putin, onde terá considerado que “as tensões no norte da Síria não beneficiam ninguém”.

O exército turco reivindica ter “neutralizado” (abatido, ferido ou capturado) 970 milicianos das YPG desde o início da ofensiva, enquanto o Observatório sírio de direitos humanos (OSDH) se refere a 85 combatentes desta milícia mortos pelas forças turcas, e de pelo menos 68 civis.

Em paralelo, pelo menos 18 soldados turcos terão sido mortos na operação em Afrine.

As relações entre os Estados Unidos e a Turquia, que integram a NATO, deterioraram-se nos últimos 18 meses devido às divergências em torno do conflito na Síria e pela recusa de Washington em extraditar o clérigo islamita Fethullah Gülen, que Ancara acusa de ter organizado o fracassado golpe de Estado militar de julho de 2016.