Stephen Hawking

“É um lugar excitante para estar e vocês são os pioneiros”. Tudo o que Stephen Hawking disse à Web Summit, palavra por palavra

Numa lição-surpresa na Web Summit, em Lisboa, Stephen Hawking falou do desafio da Inteligência Artificial e deixou alertas para o futuro. Veja o video legendado e leia aqui o discurso na íntegra.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Quando o presidente da Feedzai, Nuno Sebastião, anunciou à multidão que enchia o Meo Arena para a abertura da Web Summit quem era o convidado surpresa da noite, a sala irrompeu num enorme aplauso. “É neste espírito de pioneirismo, de desenvolver tecnologia para um bem superior que convidámos o próximo orador“, disse o empreendedor português antes de anunciar o físico britânico Stephen Hawking, que durante oito minutos discursou perante os participantes do evento em Lisboa, por videoconferência a partir do Reino Unido, em Novembro de 2017.

Hawking, que morreu esta quarta-feira aos 76 anos, falou sobre Inteligência Artificial, que considera ser um dos maiores desafios do mundo de hoje. Começou por dizer ao que vinha. “Acredito que não há uma verdadeira diferença entre o que pode ser alcançado por um cérebro biológico e o que pode ser alcançado por um computador“, afirmou no início da sua intervenção, em que deixou um apelo: é preciso parar por um momento e pensar em qual o caminho que a Inteligência Artificial está a seguir.

“O sucesso na criação de uma Inteligência Artificial eficaz poderá ser o maior evento na história da nossa civilização, ou o pior. Simplesmente não sabemos”, garantiu, acrescentando mais à frente: “A ascensão da Inteligência Artificial poderosa será ou a melhor ou a pior coisa que alguma vez aconteceu à Humanidade“.

[Veja o vídeo legendado, com os 8 minutos de intervenção de Stephen Hawwking na Web Summit]

Leia a seguir o discurso na íntegra:

***

“Obrigado à Feedzai por me convidar para falar convosco hoje. Desejo dar as boas vindas a todos à Web Summit.

Planeio falar sobre Inteligência Artificial, um tópico de grande importância para mim, enquanto profissional, e para a sociedade como um todo. Há muitos desafios e oportunidades à nossa frente neste momento, e acredito que um dos maiores é o impacto da Inteligência Artificial para a Humanidade.

Como muitos de vós poderão saber, acredito que não há uma verdadeira diferença entre o que pode ser alcançado por um cérebro biológico e o que pode ser alcançado por um computador.

Claro que há um potencial ilimitado para o que a mente humana pode aprender e desenvolver. Por isso, se o meu raciocínio está correto, também os computadores podem, em teoria, emular a inteligência humana e excedê-la.

Não podemos prever o que poderemos alcançar, quando as nossas próprias mentes forem amplificadas pela Inteligência Artificial. Talvez com as ferramentas desta nova revolução tecnológica sejamos capazes de desfazer alguns dos danos causados ao mundo natural pela última [revolução], a industrialização. Pretendemos finalmente erradicar as doenças e a pobreza. Todos os aspetos das nossas vidas serão transformados.

O sucesso na criação de uma Inteligência Artificial eficaz poderá ser o maior evento na história da nossa civilização, ou o pior. Simplesmente não sabemos. Por isso, não podemos saber se vamos ser infinitamente ajudados pela Inteligência Artificial, ou ignorados por ela e postos de lado, ou, de forma concebível, destruídos por ela.

A menos que aprendamos a preparar-nos para os potenciais riscos e os evitemos, a Inteligência Artificial pode ser o pior evento da história da nossa civilização. Traz perigos, como as poderosas armas autónomas, ou novas formas de opressão. Pode trazer uma grande disrupção à nossa economia.

Já temos preocupações com a ideia de que máquinas inteligentes serão cada vez mais capazes de fazer o trabalho atualmente feito por humanos e rapidamente destruam milhões de empregos.

A Inteligência Artificial pode desenvolver uma vontade própria, uma vontade que entra em conflito com a nossa e que nos poderá destruir. Em breve, a ascensão da Inteligência Artificial poderosa será ou a melhor ou a pior coisa que alguma vez aconteceu à Humanidade.

Foi por isso que, em 2014, eu e outros apelámos a que mais investigação fosse feita nesta área. Estou muito feliz por alguém me estar a ouvir.

Qual é a resposta? Para controlar a Inteligência Artificial e fazê-la trabalhar para nós e eliminar, tanto quanto possível, os seus perigos muito reais, temos de empregar melhores práticas e gestão eficaz em todas os níveis deste desenvolvimento.

Não é preciso dizer, claro, que isto é o que todos os setores da economia devem incorporar na  sua ambição. Mas, com a Inteligência Artificial, isto é vital.

Todos os que estão aqui hoje estão na vanguarda do desenvolvimento da Inteligência Artificial. Somos cientistas, desenvolvemos uma ideia. Mas também são os influenciadores. Têm de a fazer funcionar.

Talvez devamos parar todos por um momento e focar o nosso pensamento não apenas em tornar a Inteligência Artificial mais capaz e bem sucedida, mas em maximizar o seu benefício social.

Os nossos sistemas de Inteligência Artificial devem fazer o que nós queremos que eles façam, para benefício da Humanidade. A investigação na área da disciplina pode ser um caminho para avançar, da economia e do direito à segurança informática, métodos formais e, claro, a várias áreas da própria Inteligência Artificial.

Estas considerações motivaram o Painel Presidencial Para o Futuro da AI, da Associação Americana para a Inteligência Artificial, que se focou largamente em técnicas que são neutrais no que diz respeito ao objetivo.

Contudo, em janeiro deste ano, os deputados do Parlamento Europeu pediram regras mais abrangentes para os robôs e um novo relatório sobre as regras na robótica, considerando o progresso da Inteligência Artificial como uma das tendências tecnológicas proeminentes do nosso século.

O relatório pede um conjunto de valores fundamentais e uma regulação urgente dos desenvolvimentos recentes relativos ao uso e à criação de robôs e de Inteligência Artificial.

De certa forma surpreendentemente, isto inclui uma forma de personalidade eletrónica, para assegurar os direitos e as responsabilidades dos sistemas de inteligência artificial mais capazes e avançados.

Um dos parceiros do escritório de advogados multinacional Osborne Clarke diz que se não damos uma personalidade às baleias e aos gorilas, também não há necessidade de criar uma personalidade robótica. Mas a consciência está lá.

O relatório reconhece a possibilidade de, no espaço de poucas décadas, a Inteligência Artificial ultrapasse a capacidade intelectual humana e desafie a relação humano-robô.  

Por fim, o relatório pede a criação de uma agência europeia para a robótica e a Inteligência Artificial, com peritos em termos técnicos, éticos e regulatórios.

Se os eurodeputados votarem a favor, o relatório irá para a Comissão Europeia, que vai decidir que posição legislativa tomar.

Sou um otimista e acredito que podemos criar Inteligência Artificial para o bem do mundo. Que ela pode trabalhar em harmonia connosco. Simplesmente, precisamos de estar alerta para os perigos, identificá-los, empregar as melhores práticas possíveis e a melhor gestão, e preparar-nos para as suas consequências com antecedência. Talvez alguns dos que estão hoje a ouvir já tenham soluções ou respostas para as muitas questões que a Inteligência Artificial coloca.

Todos temos um papel para garantir que nós e a próxima geração tenham não só a oportunidade mas também a determinação para nos envolvermos completamente no estudo da ciência desde cedo, para que possamos cumprir o nosso potencial e criar um mundo melhor para toda a raça humana.

Temos de levar a aprendizagem além de uma discussão teórica sobre como a Inteligência Artificial deveria ser, e agir para garantir que fazemos planos para como ela poderá ser. Todos têm o potencial para ir além das fronteiras do que é aceitável ou expectável e para pensar em grande.

Estamos no limiar de um admirável mundo novo. É um lugar excitante para estar e vocês são os pioneiros.

Desejo-vos tudo de bom.

Obrigado por me ouvirem.”

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