Aos 29 anos, CarlyleNuera é um dos designers responsáveis pelos guarda-roupa da Barbie. Não de uma Barbie qualquer, mas dos exemplares de coleção que, a cada lançamento, fazem as delícias de aficionados espalhados pelo mundo inteiro. Em 2010 respondeu ao anúncio da Mattel e ficou com aquele que seria o seu primeiro emprego, um emprego de sonho, dizemos nós. Nos últimos anos, Nuera foi responsável pela colaboração da boneca com grandes designers e marcas de moda, como é o caso de Charlotte Olympia e Moschino, além dos exemplares únicos que homenageiam IrisApfel e OprahWinfrey.

Carlyle Nuera esteve em Lisboa como convidado especial da Portuguese Doll Convention, organizada anualmente por colecionadores da boneca mais famosa do mundo. O designer não veio sozinho. Trouxe com ele Maria Amalia, uma Barbie inspirada na cultura e no vestuário portugueses. O exemplar único vai ser leiloado no eBay e o valor reverte a favor da associação Aldeias de Crianças SOS.

Sempre se imaginou como designer de moda para bonecas?
Não, de todo. Colecionei bonecas durante toda a minha vida. No secundário comecei a levar isso mais a sério, personalizava e a fotografava Barbies e passei também a estar mais ativo na comunidade online de colecionadores. Mas não, nunca me passou pela cabeça ter uma carreira como designer de moda de bonecas. Até à altura em que me formei na escola de artes e descobri um anúncio de emprego para designer de moda da Barbie, na Mattel, que ficava a cinco minutos da minha universidade. Candidatei-me ao trabalho em julho de 2010, dois meses depois de ter acabado o curso. Passei por várias entrevistas, ao telefone e presenciais, passei por vários testes, em que tive de desenhar diferentes Barbies, desenhos que depois foram analisados juntamente com o meu portfólio. Comecei em outubro desse ano. Foi o meu primeiro emprego e o único até hoje.

Há um ano, Carlyle Nuera trabalhou com Marni Senofonte, a stylist de Beyoncé. Da colaboração resultaram nove Barbies © Imagem cedida por Carlyle Nuera

E, quando era adolescente, o que é que o fascinava na Barbie?
Para mim, ela era uma musa. Uma boneca para a qual eu podia criar moda e fotografá-la, tal como uma modelo. Por isso é que a Barbie me inspirou tanto quando era mais novo.

Enquanto designer, chegou a desenhar roupa para mulheres reais?
Na universidade, sim, desenhei roupas para pessoas reais. As empresas vinham ter connosco, davam-nos indicações e nós desenhávamos para alguns projetos. Desenhei moda masculina, biquínis e fatos de banho e cheguei a desenhar peças mais vanguardistas.

E hoje, o que há de mais desafiante neste trabalho?
Há muitos desafios porque, de facto, é um processo muito complexo. A Barbie vai fazer 60 anos no próximo ano e é uma marca que já viveu muito e que passou por vários altos e baixos. As pessoas já têm tantas opiniões sobre a Barbie que parte da nossa dificuldade está em perceber se conseguimos mudar as perceções que têm dela agora. Ela está crescida e esse é o maior desafio: mostrar que a Barbie está a evoluir de forma muito positiva, que é inclusiva, que tem vários tipos de corpo, várias etnias, vários tipos de cabelo e de carreira, da popstar à engenheira robótica. Outro desafio é trabalharmos com um ano, por vezes com um ano e meio de avanço. É preciso pensar se o que estamos a desenhar vai continuar a ser relevante e trendy quando a boneca sair.

Carlyle Nuera esteve em Lisboa e revelou-se impressionada pelas “tons de cor-de-rosa dos edifícios” da cidade © João Porfírio/Observador

E tem uma equipa muito grande a trabalhar consigo?
A equipa de design da Barbie é enorme. Há designers para tudo, para os carros, para aquelas casas de sonho… Eu trabalho para a Barbie Signature, desenho Barbies de coleção. São mais caras, têm mais detalhes e muitas vezes trabalhamos com designers de moda ou em torno de filmes. Eu gosto de lhe chamo atelier. Temos designers só para pintar o rosto das bonecas, outros só para os cabelos, costureiros, designers gráficos, escultores. Trabalho com todos para transformar um desenho num protótipo. É realmente preciso uma aldeia inteira para criar uma Barbie.

A Barbie tem passado por várias mudanças, no corpo, no estilo, até na interação com os fãs através das redes sociais. Sente que também foi responsável dessa transformação?
Claro. Todos fazem a sua parte para dizer ao mundo o que a Barbie é hoje, o que ela significa. Sou bastante sortudo porque também trabalhei para as redes socais, incluindo o InstagraBarbie Style, onde basicamente a Barbie é uma blogger de moda com uma vida super interessante. Fui stylist de alguns desses looks. Criei recentemente a Barbie da Iris Apfel, um exemplar único. Foi conhecê-la. Também trabalhei com a Marni Senofonte, a stylist da Beyoncé, ela inspirou-me muito. E este tipo de oportunidade eu não ia ter em nenhum outro sítio, senão na Barbie.

Maria Amalia, a Barbie inspirada na cultura portuguesa e desenhada de propósito para a convenção de colecionadores em Portugal © João Porfírio/Observador

É uma responsabilidade acrescida desenhar uma Barbie para prestar homenagem a alguém?
É um equilíbrio. Todos temos uma ideia de como nos parecemos, independentemente da ideia que os outros têm de nós. É preciso conhecer a pessoa e respeitar como é que ela quer parecer, mesmo que eu tenha a minha ideia de como ela deve parecer. É um equilíbrio entre essas duas imagens.

O que há de diferente entre desenhar para uma boneca e para uma mulher?
A quantidade de tecido que tens de usar. Às vezes, faço peças à escala humana e fico chocado com os metros e metros necessários. Houve apenas um concurso para desenhar um vestido Barbie Signature que ia ser usado por uma atriz. Era um concurso interno e eu ganhei. Havia etiquetas com o meu nome no vestido. Ele esteve exposto num museu em Indianapolis e acabei por levar a minha família toda lá. Só depois é que fizemos o mesmo vestido numa versão para a boneca. Foi surreal.

Qual a sua Barbie favorita de sempre?
Há uma Barbie que saiu em 2004, parte de uma série chama Model of the Moment. Ela chamava-se Nichele. É uma Barbie linda, com pele escura, um vestido branco curto, um grande colar, tudo naquela Barbie é perfeito. Não a desenhei, é do Robert Best, o meu diretor. Mas como colecionador é a minha favorita.

Mutya Barbie, a primeira Barbie de coleção desenhada por Nuera, é inspirada nos trajes filipinos. Custa 80 dólares (cerca de 65€) © Divulgação

E das que desenhou, alguma o deixa especialmente orgulhoso?
Sim, a Mutya Barbie, que desenhei inspirada nas Filipinas. E eu sou filipino, os meus pais emigraram para os Estados Unidos nos anos 80, antes de eu nascer. E esta é também a minha primeira Barbie de coleção. Ela como que catapultou a minha carreira para onde ela está agora, ela deu-me uma cara e um nome da comunidade de colecionadores. E foi começar uma carreira da melhor maneira, com uma boneca inspirada nas Filipinas, na minha cultura, na minha herança. E também inspirada na minha mãe, uma beauty queen quando era adolescente, que chegou a participar num concurso de beleza nas Filipinas. Vi muitas fotografias dela quando estava a desenhar a boneca.

E de onde surge a inspiração para os outfits da Barbie?
As minhas inspirações vêm de todo o lado. Tentamos sempre ver o que acontece nas passerelles, nas lojas, nas ruas, no que as celebridades estão a usar. Uma criança de cinco anos não sabe propriamente o que está a acontecer na Semana de Alta-Costura de Paris, mas ela sabe o que a Zendaya e a Ariana Grande estão a usar. Tentamos encontrar os pontos comuns entre estes tipos de moda, a moda de autor, mas também a das grandes cadeias e a que vemos nas ruas.

Agora desenhou uma Barbie portuguesa. É a primeira?
Não tenho a certeza se será a primeira, porque na série Dolls of the World já havia uma princesa da renascença ligada ao império português. Esta foi feita especialmente para a convenção de colecionadores em Portugal. Todas as convenções têm uma componente beneficente, por isso esta vai ser leiloada e o dinheiro vai para a Aldeias SOS. Uma vez que vinha a Portugal, decidi inspirar-me nos trajes tradicionais portugueses. Foi muito interessante. Pesquisei online para ver quais os elementos mais comuns e encontrei muitos padrões florais, muitas texturas, bordados e joalharia em ouro. Quis fazer algo inspirado nisso, mas também que fosse algo com um toque de moda.

A Barbie tem uma história longa. Sente que ela lhe dá espaço para deixar o seu toque pessoal nas criações?
Por vezes, é difícil ser uma pessoa criativa num ambiente empresarial. Mas o que eu mais gosto em desenhar para a Barbie é o poder que ela tem de tocar no coração das pessoas, de inspirá-las e de lhes trazer alegria. E isso acaba por ser muito gratificante para o meu trabalho como designer. Aí sim, é um verdadeiro emprego de sonho. Acredito que há momentos em que consigo incorporar elementos e detalhes de design de que gosto muito. Adoro franjas, desenho imensas bonecas e uso franjas quando posso. Adoro pensar nos rostos das bonecas, por isso, muitas vezes, vou buscar traços de edições antigas que sei que os colecionadores vão reconhecer e adorar.