Crítica de Livros

Porque se tatuam os millennials? (e outras questões magnas do nosso tempo)

"Nados líquidos" é apresentado como contendo “as páginas em que Zygmunt Bauman estava a trabalhar quando faleceu”. E nota-se que era preciso muito mais trabalho para fazer destas páginas um livro.

Autor
  • José Carlos Fernandes

Título: “Nados líquidos: Transformações do Terceiro Milénio”
Autores: Zygmunt Bauman & Thomas Leoncini
Editora: Relógio D’Água

Zygmunt Bauman (1925-2017) teve a fortuna de cunhar um conceito – o de “modernidade líquida” – que caiu no goto dos media e do público não-especializado e lhe valeu o inusitado estatuto de pop star da sociologia. Tal como acontece com as pop stars, a sua morte, ocorrida em Janeiro de 2017, não significa o fim das suas edições: há sempre lost albums, alternate takes, demos, jam sessions, bootlegs e remastered editions para satisfazer o apetite dos fãs por mais um opus do desaparecido.

Nados líquidos insere-se nesta lógica de reaproveitamento das rebarbas de fita que foram deixadas no caixote do lixo do estúdio de gravação: verte em texto um “diálogo” entre o mestre e Thomas Leoncini, um seu discípulo italiano, 60 anos mais novo, versando assuntos que são particularmente pertinentes para a “geração surgida nos anos 80, ou seja, [os] que já nasceram numa sociedade líquida em permanente mudança”.

O programa do capítulo I, “Transformações na pele”, é aliciante – tatuagens, barbas hipster, cirurgia plástica – e tem tiradas pertinentes quando sugere que sob o acto de suposta afirmação pessoal e rebeldia contra a dissolução na massa anónima que é fazer uma tatuagem ou um piercing há uma submissão aos ditames da sociedade de consumo:

A cultura contemporânea da sociedade de consumo é comandada pelo princípio ‘se podes fazê-lo, deves fazê-lo’. […] A economia consumista prospera […] graças ao mágico estratagema de converter a possibilidade em obrigação, ou, fazendo uso do léxico dos economistas, a oferta em procura”.

Leoncini faz passar a informação de que nos EUA, 47% dos millennials e 36% dos membros da Geração X têm pelo menos uma tatuagem, mas seria relevante, para aprofundar o raciocínio, conhecer também como tem evoluído o número de pessoas com múltiplas tatuagens. É que a mesma lógica consumista impõe que, se a tatuagem se tornou corriqueira, ela deixa de conferir um status distinto, pelo que há que fazer outra e outra ainda quando duas tatuagens se tiverem também vulgarizado, e assim sucessivamente. Porém, “aprofundar o raciocínio” é algo em que nem Bauman nem Leoncini parecem estar interessados, preferindo borboletear de assunto em assunto.

O capítulo II versa o bullying e o III, que tem por título “Transformações sexuais e amorosas: Decadência dos tabus na era do e-commerce sentimental” acaba por ser absurdamente ambicioso, ao querer discutir ao mesmo tempo, as mudanças que o mundo digital trouxe ao amor, sexo, trabalho e relações pessoais.

O diálogo tem trechos reveladores, como aquele que narra uma experiência de psicologia realizada por Philip Zimbardo (que também conduziu, em 1971, o célebre Stanford Prison Experiment) em que “um grupo de raparigas estudantes [envergou] capuzes e mantos como os da Ku Kux Klan” e outro grupo não vestiu nada de particular; quando se “pediu a ambos os grupos que aplicassem uma descarga eléctrica a outra pessoa […] as raparigas encapuzadas pressionaram o botão que comandava a descarga o dobro do tempo das que tinham o rosto descoberto” – uma demonstração cabal do acréscimo de crueldade e indiferença pelo sofrimento alheio (e da concomitante diminuição da empatia) proporcionado pelo anonimato e que é uma característica marcante das interacções nas redes sociais.

Bauman conclui que a “segunda vida” que a Internet prometia é, afinal, “um mundo de cyberbullying e difamação” e que “em vez de servir a causa de aumentar a qualidade da integração humana, da compreensão, cooperação e solidariedade recíprocas, a web facilitou práticas de isolamento (enclosure), separação, exclusão, inimizade e conflituosidade”.

Porém, para obter estas pepitas de sabedoria é necessário peneirar muitas páginas tão dispersas e inconsequentes como uma amena cavaqueira à mesa de um café.

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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