Quem viu a série Suits (Defesa à Medida, na versão portuguesa) poderá esperar que, no casamento real, a atriz norte-americana Meghan Markle repita as palavras que disse no último episódio da série, quando a sua personagem, Rachel, casa com o advogado Michael Ross, interpretado pelo ator Patrick J. Adams — mas agora a sério e dirigidas ao príncipe Harry do Reino Unido: “I do”.

Na verdade, esta fórmula matrimonial popularizada pelos filmes e séries norte-americanos está longe de corresponder ao ritual cristão tradicional que Meghan Markle terá de seguir à risca no casamento mais esperado do ano. O famoso “I do” não figura nos principais ritos cristãos — Ortodoxo, Católico, Protestante ou Anglicano — e não será ouvido na capela de São Jorge, no castelo de Windsor, no próximo sábado. Como vai ser, então, o ritual do matrimónio que Meghan e Harry vão seguir? O Observador mostra-lhe os textos litúrgicos que estarão nas mãos do arcebispo da Cantuária e dos noivos.

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Em primeiro lugar, importa perceber que, como todos os membros da família real britânica, o príncipe Harry e Meghan Markle vão casar pela Igreja de Inglaterra, a Igreja mãe do Anglicanismo e religião oficial do Reino Unido. A atriz, que cresceu numa família protestante nos EUA, foi inclusivamente batizada e confirmada na Igreja Anglicana em março, como forma de preparação para o matrimónio.

Por isso, o ritual que será seguido na celebração será o rito do matrimónio da Igreja de Inglaterra, que pode consultar aqui na íntegra (em inglês). Se quiser ler o ritual do matrimónio anglicano em português, pode consultar a versão da Igreja Lusitana, que é o braço português da Comunhão Anglicana. E se quiser comparar o ritual anglicano com o católico — o mais comum em Portugal — pode ver aqui o texto da Igreja Católica usado em Portugal.

“No geral, a estrutura dos ritos litúrgicos anglicano e católico é semelhante, embora tenham pequenas diferenças”, explica ao Observador o bispo D. Jorge Pina Cabral, líder anglicano em Portugal. “Tal como os católicos, os anglicanos também entendem o casamento como rito sacramental, em que os noivos são chamados a dar o seu consentimento mútuo perante a Igreja. É por isso que o casamento tem uma liturgia muito marcada.”

As diferenças são sobretudo ao nível da linguagem. “Os textos não são exatamente iguais. As orações não são iguais às do Catolicismo, mas, na sua essência e no seu propósito, há uma identificação entre as duas, com linguagens diferentes”, sublinha o bispo, recordando que as liturgias das várias denominações cristãs “vão beber às mesmas fontes: textos e orações ao longo dos séculos, que vão sendo adaptados em função da cultura e da linguagem de cada tempo”.

A celebração começa com a saudação por parte do presidente, que neste caso será o bispo David Conner, deão da capela de São Jorge do Castelo de Windsor — o arcebispo da Cantuária preside apenas aos votos matrimoniais. À saudação segue-se um prefácio referente ao matrimónio, em que Conner explicará o motivo da celebração e a importância do sacramento do matrimónio na tradição anglicana. É neste momento que se ouve o tradicional “estamos aqui reunidos para testemunhar o matrimónio de … e de …” e que o presidente da celebração pede à assembleia que reze pelos noivos que estão prestes a casar.

Depois da introdução, o bispo irá pedir aos noivos que deem o seu consentimento livre — e é este o momento que estará mais próximo do famoso “I do”. Em primeiro lugar, o celebrante pergunta a todos os presentes se conhecem alguma razão que impeça o casamento legítimo dos noivos — sendo que se alguém souber de uma razão válida pela qual o matrimónio que está prestes a realizar-se não seja válido, tem a obrigação de se pronunciar. Se ninguém se manifestar, o bispo pergunta o mesmo a cada um dos noivos — se existe ou não alguma razão que os impeça de se casarem de forma válida.

Depois, o presidente pergunta a cada um dos noivos se deseja casar-se com o outro, da seguinte forma: “…, receberás … por tua esposa? Estás decidido a amá-la, confortá-la, honrá-la, protegê-la, e a guardar-lhe total fidelidade até à morte?” A resposta deverá ser positiva — em inglês, “I will” — para que a celebração continue. Se ambos responderem afirmativamente, o bispo perguntará aos familiares e amigos dos noivos se estão disponíveis para apoiar o matrimónio.

Dado o consentimento de todas as partes, a celebração prossegue normalmente: reza-se a oração coleta, ouvem-se as leituras da Bíblia, o Evangelho e o Salmo Responsorial — como em qualquer casamento, as leituras são escolhidas pelos noivos de entre uma seleção de textos recomendados pela Igreja. Desta vez, sabe-se que a baronesa Jane Fellowes, irmã da princesa Diana e tia do príncipe Harry, será uma das leitoras.

Depois das leituras, é feita a homilia. Nesta celebração, o pregador vai ser o bispo norte-americano Michael Bruce Curry, primaz da Igreja Episcopal dos Estados Unidos da América, o ramo americano da Comunhão Anglicana. O casal convidou o bispo para estar presente na celebração devido à nacionalidade norte-americana da noiva.

No final do sermão, são feitos os votos de casamento, em que o matrimónio se concretiza. É aqui que entra em cena o arcebispo da Cantuária, que convida os noivos a “unir as mãos e a fazer os votos na presença de Deus e do seu povo”. Neste momento, Harry e Meghan voltam-se um para o outro e é o príncipe quem começa, pegando com a sua mão direita na mão direita da noiva e dizendo o voto, que habitualmente é o seguinte:

Eu, …, recebo-te, …,
por minha esposa,
de hoje em diante:
para o melhor e o pior,
na riqueza e na pobreza,
na doença e na saúde,
para amar-te e honrar-te,
até que a morte nos separe,
segundo a santa lei de Deus.
Este é o meu voto solene.

De seguida, Meghan Markle repetirá o mesmo gesto. Pega na mão direita de Harry com a sua mão direita e diz exatamente o mesmo voto, mas na versão feminina. Os noivos podem, contudo, escolher versões alternativas dos votos. Uma das possibilidades é a polémica versão que acrescenta a promessa de obediência no voto da noiva — mas não no do noivo — que atualmente caiu em desuso, desde que a princesa Diana optou por, pela primeira vez na história da família real, omitir essa promessa do seu voto de casamento com o príncipe Carlos.

Com os votos, Harry e Meghan ficam oficialmente casados. Depois, segue-se a bênção das alianças, expressão visível do matrimónio. O bispo recebe os dois anéis e escolhe uma das várias orações que servem para benzer as alianças. A mais comum é a seguinte:

Pai celestial,
pela tua bênção misericordiosa,
sejam estas alianças para … e …
símbolos de inextinguível amor
e de fidelidade às promessas que reciprocamente fizeram.
Mediante Jesus Cristo, nosso Senhor. Ámen.

Depois da bênção, os noivos trocam as alianças um com o outro. Também aqui é o príncipe Harry que começa, colocando a aliança no dedo anelar de Meghan Markle. A seguir, a atriz colocará a aliança no dedo anelar do príncipe Harry. Os dois dizem a mesma oração ao mesmo tempo que colocam a aliança no dedo do outro:

Dou-te esta aliança,
como sinal do nosso casamento.
De corpo e alma te honro,
tudo o que sou te dou,
e tudo o que tenho partilho contigo,
no amor de Deus,
Pai, e Filho, e Espírito Santo.

Finalizado este momento, o presidente da celebração anuncia em voz alta que os noivos deram o seu consentimento, proclamando-os marido e mulher. “Não separe o homem aqueles que Deus uniu”, conclui o presidente, antes de abençoar o casamento que acaba de começar. Os noivos colocam-se de joelhos enquanto todos os presentes se mantêm de pé e o bispo recita uma das fórmulas de bênção do matrimónio, com a qual se conclui aquele rito. A partir dali, a celebração continua como uma missa habitual, com a apresentação do pão e do vinho, a oração do Pai Nosso, a consagração e a distribuição da comunhão — que o novo casal recebe habitualmente nas duas espécies, pão e vinho.