A empresa Força de Produção é a entidade escolhida para dirigir o Teatro Maria Matos, mas ainda decorre um prazo de cinco dias para reclamações, pelo que se trata de uma decisão provisória. Em nota divulgada esta terça-feira no site da EGEAC lê-se que a empresa municipal de cultura de Lisboa aprovou uma lista provisória referente à seleção do projeto artístico para o Maria Matos, no âmbito de um concurso público que teve início a 13 de abril e terminou a 14 de maio. As três candidaturas recebidas foram “classificadas provisoriamente pelo júri” pela seguinte ordem: Força de Produção em primeiro lugar, Yellow Star em segundo e Meio Termo em terceiro.

O júri era composto por cinco pessoas: a jornalista Pilar del Rio; a presidente da EGEAC, Joana Gomes Cardoso; a atriz e encenadora Natália Luiza; o dramaturgo e crítico Jorge Louraço Figueira; e o jornalista e escritor Nuno Galopim. O concurso foi lançado depois de a vereadora da cultura da Câmara de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, ter anunciado a 17 de dezembro, em entrevista ao jornal Público, que tinha decidido ceder a privados a gestão artística do Maria Matos, o que justificou com a saída, cerca de dois meses antes, de Mark Deputter, diretor artístico da sala durante oito anos. A vereadora decidiu ao mesmo tempo reabrir o Teatro Luís de Camões, em Belém, e arrendar o Teatro do Bairro Alto/Cornucópia, no Príncipe Real.

A Força de Produção tem sede em Lisboa e foi fundada em 2015. É dirigida por Sandra Faria, antiga bailarina que trabalhou com Rui Horta e Olga Roriz e é formada em gestão e produção de espetáculos pelo Instituto de Formação, Investigação e Criação Teatral. Foi também diretora da produtora UAU.

Responsável por espetáculos como “Deixem o Pimba em Paz”, de Bruno Nogueira, ou “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?”, encenado por Diogo Infante, a Força de Produção realizou mais de 1400 apresentações de espetáculos em 2018, de acordo com o site oficial.

Segundo o caderno de encargos do concurso público para o Maria Matos, esta cedência da sala a privados tomará a forma de contrato de arrendamento por um período de cinco anos, renovável, assumindo-se a EGEAC como senhoria. A sala será arrendada “no estado em que se encontra”, com todos os equipamentos técnicos hoje existentes, e a Força de Produção terá de abrir o Maria Matos ao público nos dois meses seguintes à assinatura do contrato de arrendamento, estando obrigada a utilizar a sala “exclusivamente” para um “projeto cultural”.

A diretora da Força de Produção disse esta tarde ao Observador que está “muito contente” com o resultado do concurso e que o encara com “grande responsabilidade”. Sandra Faria não adiantou pormenores sobre o projeto artístico que tem para o Maria Matos porque ainda decorre o prazo para reclamações.

A última atividade de programação do Maria Matos com a atual gestão pública está marcada para 14 de julho e consiste em diversas atividades nas imediações do edifício. Mas não se sabe qual a data de reabertura da sala com nova gestão. Para já, os responsáveis pela EGEAC não comentam.

Se a reabertura for em setembro, fala-se na hipótese de os primeiros meses consistirem em reposições e não em espetáculos criados de raiz, já que os novos inquilinos não teriam tempo de preparar produções em julho e agosto. Sandra Faria não quis comentar, mas lembrou que no caso da concessão do Teatro Capitólio, no ano passado (concurso ganho pela empresa Sons em Trânsito), a sala não reabriu antes de fevereiro de 2018, o que deu tempo para preparar programação. “Não sei ainda se o caso será semelhante”, referiu.

O Teatro Maria Matos foi inaugurado em 1969 e manteve-se sob exploração de companhias de teatro até ser comprado pela Câmara de Lisboa em 1982. De 1999 a 2004 foi gerida pela Academia de Produtores Culturais, uma associação cultural lisboeta. A partir de 2004, já sob gestão da EGEAC, sofreu obras profundas e teve como diretores o ator Diogo Infante (até 2008) e o gestor cultural Mark Deputter (de 2008 a 2017). Atualmente, está sem diretor artístico e tem Andreia Cunha como diretora executiva.

A decisão de abrir a privados a gestão da sala e de reorganizar os teatros municipais da capital levantou enorme polémica e foi contestada por vários partidos e um número significativo de lisboetas e agentes culturais. Em janeiro, um grupo de cidadãos entregou na Assembleia Municipal de Lisboa a petição “Por Uma Gestão Pública do Maria Matos”, com mais de 2.500 subscritores. Em maio, o grupo municipal do Bloco de Esquerda levou a votos uma proposta de referendo local sobre o futuro da sala da Avenida de Roma, mas a proposta acabou rejeitada.