A juíza de instrução criminal, Maria Antónia Andrade, decidiu esta quarta-feira manter presos 39 e libertar 19 dos 58 motards detidos pela Polícia Judiciária há uma semana. Os arguidos que integram os Hells Angels já estavam a ser investigados há cerca de dois anos, mas foram detidos pelo ataque ao restaurante “Mesa do Prior”, em Loures, que em março resultou em seis feridos. As vítimas fazem parte de um grupo motard rival, Los Bandidos, que acabara de nascer em Portugal pelas mãos do neonazi Mário Machado.

Segundo fonte da defesa, dos 39 arguidos que a juíza decidiu manter presos preventivamente, três poderão ir para prisão domiciliária após relatório da Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais. Os restantes 19 podem sair em liberdade, mas com condições, e uma delas pouco comum: não podem sair do concelho onde habitam, à exceção de um arguido que trabalha fora do concelho de residência e que pode deslocar-se para aquela zona. Mais, terão que apresentar-se periodicamente à polícia e não podem frequentar clubes ou concentrações de motards — incluindo a de Faro, já este fim de semana. Os arguidos libertados não podem contactar com outros arguidos ou com membros dos Hells Angels, a menos que tenham relações familiares com eles. Também estão proibidos de fazer segurança privada.

Estão indiciados dos crimes de associação criminosa, homicídio na forma tentada, ofensas corporais graves e qualificadas, detenção de armas proibida e tráfico de droga. Os crimes de lenocínio e de tráfico de armas, inicialmente falados, não constam do documento de indiciação entregue pelo Ministério Público à juíza. Entre os presos preventivos está um arguido suspeitos das agressões à porta da discoteca Urban.

O advogado José Carlos Cardoso representa 20 dos arguidos e viu 13 deles ficarem presos preventivamente. Aos jornalistas, já no final da sessão, revelou que a juíza se fundamentou no perigo de fuga, de continuação da atividade criminosa e no receio de destruição da prova. Os 19 arguidos em liberdade estão também sujeitos a restrições, explicou. Já o advogado João Martins Leitão deixou uma mensagem: “É importante discutir a indiciação dos crimes, sobretudo porque quem fica em preventiva incorre sempre em três ou quatro meses de cárcere”.

Os procuradores do Ministério Público, Vítor Magalhães e Cláudia Porto, acreditam que a intenção dos suspeitos era mesmo matar, apurou o Observador. E mostraram em tribunal várias provas recolhidas pela Unidade Nacional de Combate ao Terrorismo da PJ, que identificam alguns dos detidos a seguiram os passos de Mário Machado e do seu grupo — logo após Machado ficar em liberdade condicional e ter manifestado vontade de criar um grupo de motards. A maior parte destas provas foram recolhidas de sistemas de videovigilância de vários locais.

Em alegações, na segunda-feira, o Ministério Público tinha por isso pedido prisão preventiva para 50 dos arguidos, prisão domiciliária para quatro e liberdade apenas para outros quatro — com as restrições que vieram a ser acolhidas pela juíza. O Observador sabe que alguns advogados pediram à magistrada para ter em conta que há diferentes graus de culpa entre os arguidos: os que entraram no restaurante, os que ficaram à porta e, ainda, os que foram apanhados por estarem com estes em estações de serviço antes do ataque — mas que não se percebe bem qual a intervenção posterior. E para não tomar o todo pela parte.

A juíza Maria Antónia Andrade terá tido este cenário em consideração. E os suspeitos que ficaram presos são os que foram identificados num vídeo que mostra quem naquele dia de março foi à “Mesa do Prior”. Os que entraram e os que ficaram à porta. Os que foram filmados no posto de combustível de Aljustrel, e que não aparecem neste vídeo, foram libertados.

Os 58 suspeitos (o 59.º foi detido no estrangeiro) começaram por ser identificados nas 48 horas que se seguiram à detenção, como a lei impõe. E só depois foram ouvidos, num interrogatório que se prolongou pelo fim de semana. A grande maioria remeteu-se ao silêncio e só quatro arguidos forneceram à juíza explicações sobre aquele dia de março, em que um grupo de dezenas de suspeitos bloqueou com carrinhas e carros a rua do restaurante do Prior Velho — onde decorria o encontro dos Bandidos. Uma parte dos suspeitos manteve-se numa espécie de perímetro de segurança no exterior, enquanto outros entraram armados no estabelecimento de restauração e atacaram os rivais.

A PJ levou a cabo esta megaoperação uma semana e meia antes da concentração anual de motards em Faro porque tinha informações do Serviço de Informações de Segurança (SIS) de que o grupo de Mário Machado planeava vingar-se ali dos Hells Angels.

No Campus de Justiça, a PSP reforçou a segurança com elementos da Unidade Especial de Polícia que estão a controlar os acessos ao tribunal. Vários familiares esperaram pela decisão. No final, houve quem sorrisse, e houve quem chorasse.