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17 de agosto de 2008, Pequim. O Centro Aquático Nacional de Pequim está cheio, ao barrote. O caso não é para menos, já que é palco da final olímpica dos 4×100 estilos, com a Austrália, na pista cinco, a ser a maior concorrente da equipa norte-americana, uma pista ao lado, favorita à vitória final. Começa a prova, com o norte-americano Aaron Peirsol (53.16) a superar ligeiramente o australiano Hayden Stoeckel (53.80), antes de Brenton Rickard (58.56) equilibrar o cronómetro perante os 59.27 de Brendan Hansen e Eamon Sullivan (46.65) ter sido mais rápido do que o norte-americano Jason Lezak (46.76). Pelo meio, no terceiro duelo da prova, o australiano Andrew Lauterstein (51.03) perderia a corrida frente à lenda maior da natação mundial: Michael Phelps faria 50.15 segundos e seria peça preponderante no triunfo dos Estados Unidos na última prova da modalidade nos Jogos Olímpicos de Pequim, com 3.29.34 contra os 3.30.04 da formação da Oceânia. O tempo significava um novo recorde do mundo, o sétimo para Phelps na competição, e a oitava medalha de ouro daquele que se tornaria o atleta mais medalhado de sempre numa grande competição. 

A Bala de Baltimore é o atleta mais medalhado de sempre numa edição dos Jogos Olímpicos, com oito ouros conseguidos em Pequim 2008 (Créditos:/Getty Images)

Para falar dos oito ouros conquistados por Phelps nos Jogos Olímpicos de Pequim, superando as sete medalhas de Mark Spitz nos Jogos de 1972, é preciso recuar até 2007, um ano antes. A Bala de Baltimore, alcunha que se colou ao campeão olímpico tamanha a velocidade a que nadava, competiu nos Campeonatos do Mundo, na Austrália, nas oito categorias em que venceu em território chinês e por pouco não superou Spitz logo aí: Phelps venceu sete ouros, vendo a sua equipa ser desqualificada por falsa partida nos 4×100 metros, a tal prova que o calendário competitivo teimaria em, como que numa doce ironia do destino, colocar como a última disputada nos Jogos, consagrando Phelps como o melhor de sempre em grandes competições.

Na Austrália, Phelps igualou o recorde de Spitz e superou o de Ian Thorpe, australiano que, enquanto pôde, foi concorrendo com um monstro que acabaria por dizimar toda a competição: foram 28 medalhas olímpicas (23 de ouro, três de prata e duas de bronze), 39 recordes do mundo, 26 recordes do Guiness e quase uma centena de medalhas arrecadadas em grandes competições.

Para Phelps, bater o recorde de Ian Thorpe, em 2007, era o tónico perfeito para a superação que aconteceria em 2008, quando eternizou o seu nome na história. É que o australiano era uma espécie de referência desde os primeiros tempos de Phelps dentro de água. Esses, que nem foram fáceis ao início, já que o maior e mais medalhado nadador de sempre tinha medo de entrar na água. A criança Phelps, nascida em Baltimore, Maryland, com duas irmãs mais velhas, era muitas vezes esguia no que tocava à hora do mergulho: tocar com a cabeça dentro de água, o mínimo possível.

Michael Phelps e Ian Thorpe protagonizaram vários duelos épicos, que acabaram com a superioridade do norte-americano (Créditos: Getty Images)

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Mas, em 1996, o pequeno Phelps perdeu-se em frente à televisão a ver os Jogos Olímpicos de Atlanta. Dentro da piscina, nadavam Tom Malchow e Tom Dolan; fora dela, Michael Phelps começava a perder a fobia e a ganhar interesse pela modalidade. Juntou-se ao North Baltimore Club, onde conheceu o treinador que acabaria de ser para a vida. Bob Bowman pegou em Phelps e nunca mais o largou: quatro anos mais tarde, com apenas quinze, a Bala de Baltimore qualificava-se para os Jogos Olímpicos de Sidney, onde se estrearia como o americano mais jovem dos últimos 70 anos. Aí, iniciou aquela que seria a sua maior especialidade, a mariposa, acabando a prova dos 200 metros na quinta posição, atrás daquele que tinha visto nadar quatro anos antes, Tom Malchow.

Phelps saiu de Sidney sem medalhas, mas com uma estreia para não esquecer e uma referência estudada ao pormenor – nas bancadas, o norte-americano acompanhou as provas de Ian Thorpe, aprendeu com os melhores e tornou-se melhor do que eles. Um ano depois, nos Nacionais americanos, Phelps bate pela primeira vez o recorde do mundo dos 200 metros mariposa, tornando-se no atleta mais jovem de sempre a fazê-lo, com 15 anos e nove meses, superando os 16 anos e dez meses com que Ian Thorpe tinha registado o seu primeiro recorde; no mesmo ano, meses depois, volta a melhorar o registo e começa a escrever uma era de domínio na mariposa e na natação em geral.

Com 15 anos, Phelps estreou-se nos Jogos Olímpicos de Sidney, os únicos de onde saiu sem medalhas. No total, foram 28 em cinco edições (Créditos: Getty Images)

Em Atenas 2004, estreia-se nas medalhas olímpicas e de que maneira: são seis ouros e dois bronzes, aos 19 anos, com um embate épico com Ian Thorpe pelo meio, que terminou com o terceiro posto do norte-americano nos 400 metros estilos.

Mas nesse ano, estreia-se noutra modalidade: as detenções. Phelps é detido por conduzir sobre o efeito de alcoól e apanha 18 meses de liberdade condicional, uma multa e trabalho comunitário. Seria apenas a primeira vez.

Até 2008, melhoraria a sua forma e os recordes do mundo falavam por si. Phelps chegava a Pequim numa forma invejável, mas nem por isso Mark Spitz ou Ian Thorpe mostravam grande confiança nas capacidades do americano em superar a marca que durava desde 1972. Enganaram-se. Phelps teve uma semana dourada: quatro primeiros dias, cinco finais, cinco ouros com recorde do mundo. Os 400 metros estilos a abrir, os 4×100 livres vencidos em conjunto com Garret Weber-Gale, Cullen Jones e Jason Lezak, os 200 metros livres, ao terceiro dia e, no quarto, o ouro nos 200 metros mariposa e nos 4×200 metros livres, com Ryan Lochte, Ricky Berens e Peter Vanderkaay, deram um início brilhante a Phelps, que aproveitava a pausa ao quinto dia (só houve final de 100 metros livres, onde Phelps não participou) para ganhar fôlego para uma reta final histórica.

O sétimo ouro chegou por um centésimo de segundo, numa vitória emocionante do norte-americano sobre o sérvio Milorad Cavic (Créditos: Getty Images)

Os 200 metros estilos trouxeram novo recorde do mundo e a sexta medalha de ouro para o norte-americano, que chegava à sétima prova, os 100 metros mariposa, com um estímulo especial, depois de o nadador sérvio Milorad Cavic dizer que “seria bom” se Phelps perdesse para “um gajo qualquer”, sendo Cavic esse “gajo”. Phelps ouviu, interiorizou e prometeu: “Quando dizem coisas desse género, fico mais motivado do que nunca”. A 16 de agosto, Phelps venceria a sétima medalha de bronze com novo recorde do mundo, depois de vencer os 100 metros mariposa com 50.58, menos um centésimo de segundo do que o sérvio. Foi a medalha mais complicada de obter das oito conquistadas, numa lista que ficaria completa no dia seguinte, a 17, com a conquista dos 4×100 metros estilos e um lugar na eternidade para a lenda Phelps, o atleta mais medalhado de sempre numa edição dos Jogos Olímpicos ou em qualquer outra competição de longa duração.

Com um lugar reservado no Olimpo, o deus da natação provou que, fora das piscinas, era como o comum dos mortais: novembro de 2009 e Phelps é apanhado em nova controvérsia, desta feita depois de ter admitido o uso recreativo de drogas leves. Resultado: três meses de suspensão.

Pouco depois, Phelps anunciaria os Jogos Olímpicos de 2012 como a sua última prova. Em Londres, conquistou mais seis medalhas, quatro de ouro e duas de prata, chegando às 22 e destronando a ginasta russa Larissa Latynina como o atleta mais medalhado de sempre em Olímpiadas. Terminada a prova, decide retirar-se com 71 medalhas e seis recordes do mundo ativos. Centra-se na Michael Phelps Fundation, faz aparições em torneios de golfe, mas nunca conseguiu afastar-se da natação e, em 2014, anuncia o seu regresso.

Aí, já depois de regressar às piscinas, volta a ser detido por condução sob o efeito de alcoól e, em tribunal, confessa que vai iniciar um programa que lhe permitirá “tomar decisões melhores para a sua vida”. É por esta altura que admite sofrer de depressão há vários anos e abre o livro em relação à sua doença: admite que houve alturas onde preferiu não estar vivo, fala sobre as vezes que decidiu desistir da natação e congratula-se “por ainda estar vivo”.

Vivo mostrou estar em 2016, quando chegou ao Rio de Janeiro, para os seus últimos Jogos Olímpicos. Aos 31 anos, conquistou cinco ouros e uma prata, fechando a contabilidade olímpica em 28 medalhas e dedicando-se a outras batalhas.

Hoje, Phelps está afastado das piscinas, mas mantém-se ativo na sociedade. Depois de confessar ter passado cinco dias fechado no quarto, a Bala de Baltimore, a lenda da natação mundial, é agora um orador pago para a TalkSpace. Aí, Phelps fala sobre a depressão e outra doenças mentais, alertando para as reais consequências desta doença. “Gostava de fazer a diferença. Queria ser capaz de salvar uma vida. É mais importante para mim do que ganhar uma medalha de ouro”, confessa Phelps, em entrevista à CNN, no dia em que se cumpre uma década desde o triunfo em Pequim. Resta torcer para que o norte-americano seja tão bom a salvar vidas como a vencer medalhas.