Vodafone Paredes de Coura

Arcade Fire em Paredes de Coura: tudo, aqui e agora

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Fechou como devia fechar. Win Butler e os seus voltaram à casa onde tinham sido felizes e deram o concerto que toda a gente queria ver. Tê-los de volta foi tudo o que se esperava.

Para muitos, 2005 foi o momento de viragem de Paredes de Coura, o ano em que o festival apostou as fichas todas numa edição sem patrocinador principal, mas com Nick Cave, Pixies, Foo Fighters, Queens of the Stone Age a encherem as letras gordas e amarelas de um cartaz com a força de um touro enraivecido. Mais para baixo no alinhamento, a branco, espaçamento apertado, tamanho reduzido, apareciam os Arcade Fire de Funeral na bagagem e um concerto marcado para o horário de aquecer os motores. O que se passou a seguir já todos sabem. Quem esteve lá, sentiu-se abençoado pela sorte de ter presenciado algo verdadeiramente avassalador; quem só ouviu falar, foi alimentando a lenda sobre os tais canadianos do festival do Taboão, rezando a todos os deuses para que um dia o milagre de 2005 se voltasse a repetir. E repetiu, com casa cheia. 27.000 devotos encavalitados na colina para viver, com a urgência do tudo e do agora, um concerto que foi brilhante ainda mesmo antes de o ser.

Para Paredes de Coura, versão 2018, os Arcade Fire trouxeram a casa às costas: uma bola de espelhos ao centro, outra no meio da plateia que ninguém viu até Régine se ter posto em cima dela, dançando em purpurinas como uma diva disco, um ecrã enorme suspenso no ar, uma parafernália de instrumentos pousados em palco, projeções e jogos de luz de banda crescida. Como estão grandes estes meninos, e ainda assim tão crianças na maneira como brincam em palco.

Surgiram vestidos com uma indumentária de cowboys do espaço — David Bowie ficaria bastante orgulhoso – e abriram com “Everything Now”, o single do momento a rodar logo no aquecimento. Win Butler não demorou a lançar o “we are so happy to be back”, lembrando-se de que quando aqui estiveram pela primeira vez, quase não conheciam a Europa. “Oh shit, so that’s what they were talking about?!” pensou quando viu aquele monte de “crazy people” a dançar sem estribeiras, por altura de 2005.

A noite foi dos Arcade Fire

“Neighborhood #3 (Power Out)” seguiu-se no alinhamento, as stories no instagram foram-se atropelando, muitas pessoas estavam de telemóvel em riste para guardar para si uma migalhinha daquele momento gigante. “I give you power”, dizia Win, “I give you power”, respondia Régine, achas lançadas para “Rebellion (Lies)” e “No cars go”, a primeira a arrancar onomatopeias do público que, se dependesse da sua vontade, passaria a noite inteira a uivar ohohohhhh ohohohhhh.

Do mais recente álbum ouviu-se “Electric Blue”, “Put your money on me” e “Creature comfort”, num alinhamento em que as incursões por Funeral e Suburbs foram as mais louvadas. Também tivemos Reflektor e Neon Bible, nenhuma parte da história foi deixada de lado e até “Cars and telephones”, escrita em 2001 e nunca gravada em estúdio, apareceu de surpresa, diretamente de uma tristeza de Butler que já vai longe:

“Cause I like cars more than telephones
Your voice in my ear makes me feel so alone
Tonight I’m gonna drive
The silver moon is shining bright
Over the interstate
God saying “hurry, don’t be late”
Soon the sun will rise
That’s when the romance dies
And I’m just tired of running around”

Numa das poucas pausas do concerto, Aretha Franklin, “um anjo na terra” foi homenageada, e noutra puxou-se de “Intervention” para uma cavalgada épica contra Donald Trump. Ainda houve Lou Reed, no final dos finais, com “Take a walk on the wild side” a soar já depois dos canadianos se despedirem com “Wake up”. A mesma “Wake Up” que em 2005 abriu o tal concerto que Coura jamais esquecerá. “Beautiful crazy people, beautiful crazy people”, acenava Win, acenavam todos com emoção. Este também ficará bem guardado nos nossos corações.

Music Sessions and Soul Power

Mas o quarto e último dia de Paredes de Coura começou bem antes do regresso dos Arcade Fire ao Taboão. Houve muitos outros bons concertos ao longo do dia e, a abrir, uma Music Session num lugar absolutamente inóspito.

O local escolhido foi a antiga bloqueira do Sr. Ilídio da Cunha Montenegro, “era a casa que mais faturava entre 1976 e 1989”, confidenciou-nos o próprio. Com retro escavadoras, bidões de gasolina, carrinhas de caixa aberta e materiais de construção espalhados pelo estaleiro a céu aberto, os Ninos du Brasil deram a última Vodafone Music Session deste ano, com muitos curiosos da vila a assistir. Maquilhados e adornados com fitas brilhantes à volta da cabeça, quais pássaros exóticos das profundezas da Amazónia, deixaram água na boca para o after hours da madrugada. “Nós somos muito mais noturnos”, disseram no final, “mas vamos memorizar as vossas caras para vos procurarmos logo à noite”. A madrugada confirmaria o ritual de transe selvagem do duo italiano. Depois de Arcade Fire os Ninos fizeram uma orgia animal ao luar.

De regresso ao recinto, apanhámos Keep Razor Sharps já na hora da despedida. Os aplausos e os assobios de uma plateia cheia (a mais preenchida que o palco Vodafone FM testemunhou a essa hora) denunciou aquele que deve ter sido um concerto de amplificadores bem abertos, do jeito que sabe bem ouvir rock.

Do outro lado, Myles Sanko deslizou na sua postura apaixonada do soul, sempre expansivo nos pedidos e nas perguntas,”is there love here today? Please stand up!”. O público fez-lhe a vontade sem esforço e levantou-se da relva, de braços no ar a repetir o que Myles lhes pedia, “ohhh I love youuu, more than you know”, vezes e vezes sem conta, como numa oração gospel. Fechou com “Move on up” de Curtis Mayfield, “Sunshine” e “Forever Dreaming”, estava instalado o amor em Coura para a chegada de outro Curtis.

Myles Sanko

Nisto, foi complicado para os Dear Telephone repetirem o recorde de assistência que os também portugueses Keep Razors Sharp tinham conseguido há menos de uma hora. Com o sol ainda astro no céu, poucos se sentiram dados ao melodrama denso de Graciela Coelho, André Simão, Ricardo Cibrão e Pedro Oliveira.

Já Harding cantou rock em voz de soul e a combinação resultou na perfeição. Juntou a postura descomprometida do primeiro, t-shirt branca por dentro das calças de ganga roçadas, e o flow do segundo, óculos quadrados de purpurinas douradas, para fazer do blues falsete e do pôr-do-sol uma mistura de América negra e América do rock’n’roll, duas faces da mesma moeda. Passou por “Face your Fear”, último trabalho de originais, “it’s an incredible album” arriscou, “I mean, I like it”, para logo arrancar sorrisos fáceis da plateia. O público e ele seguiram juntos neste soul power com “Keep on shinning” até ao fim. Alguns, porém, largaram o barco mais cedo para viajar até ao Brasil, Silva estava aí ao virar da esquina.

Fazer cafuné com Silva, renascer com Big Thief

Lúcio Silva de Souza entrou com ritmos tropicais, dubstep dengoso, voz de melro na garganta. Na abertura cantou Nada será como era antes e deixou claro que não veio a Coura para cumprir calendário. Vestido de branco com passada suave, arrancou gritos lascivos de mulheres e homens de corpos suados. “É giro…” diziam duas amigas atrás de nós, uma abrindo o leque, fazia muito calor por ali. Passou reggae, electrónica, pop de Marisa Monte, música de violão na mão, não me deixe nunca nunca mais. Ninguém queria que ele se fosse embora e a cada música um novo “aiiii”. Foi assim o tempo todo, num concerto queridinho como ele.

Saímos mais cedo para dar um saltinho à praça da alimentação, mas arrependemo-nos de imediato. Foi impossível circular entre os pregos, as pizzas, a tapioca ou os crepes. A pergunta “o que é que queres jantar?” foi substituída por “onde é que há menos fila?”, mas o problema é que, na molhada de gente, as filas eram apenas conceitos abstractos. Ninguém sabia muito bem a posição em campo, andava-se ao sabor do vento na esperança de desaguar num pedaço de terra chamada comida. Foi assim às 19h, às 20h, às 21h, às 22h e mais não sabemos porque entretanto desistimos da empreitada.

Silva

Com o jantar adiado, posicionamo-nos bem à frente no recinto para Big Thief. O que se seguiu foi uma bonita estreia em Portugal. Adrianne Lenker entrou com Max Oleartchik no baixo e James Krivchenia na bateria. Estavam três e não quatro em palco, o guitarrista Buck Meek, doente, não pode aparecer em Paredes de Coura, “ele ia ficar emocionado de ver tanta gente”. Foi a maior plateia que tiveram pela frente, o efeito Arcade Fire já era notório e, num espanto feliz de cara de menina, Adrianne foi desfilando temas com aquela candura na interpretação que se entranha na pele com arrepio. De franja à frente dos olhos, cantou-nos Not, “a new song”, “Mythological Beauty”, “Parallels” e um amor verdadeiro que se desfez no sopro que lhe saiu dos lábios

“Real love, real love
Real love makes your lungs black
Real love is a heart attack”

Mostraram Masterpiece, falaram das questões existências que lhes inquietavam o espírito e, antes de “Pretty Things”, perguntaram se alguém se lembrava do momento em que tinha nascido, “maybe somebody remembers, I don’t know”, e pediram que lhes enviássemos um e-mail, caso nos ocorresse alguma coisa. A seguir vieram os versos

“These things that lonely ones do
Baby that’s what I’m here for
I’ll take care and make all your
Wishes come true
If you want to
Do you want to?”

E a redenção. Adrianne embalou-nos no seu berço, foi como tivéssemos acabado de nascer.

A vénia a Dead Combo

À direita, à esquerda, em cima, em baixo, nada adiantou. Quando o concerto dos Dead Combo começou, todos os lugares eram de visibilidade reduzida. Aquela massa compacta de gente, que sempre foi o terror dos mais pequeninos, não ia dar hipóteses – nem mesmo uma encosta tão inclinada como a de Coura consegue fazer milagres. Safou-se quem não abriu mão do seu lugar depois de terminado Big Thief, quem preferiu passar Yasmine Handman ao lado para fazer o all in em Arcade Fire.

Os Dead Combo ganharam claramente com isso, um oportunismo consentido e merecido, esse de tocar numa das maiores enchentes do festival. Merecido porque este bunch of meninos nunca foi um verbo-de-encher, muito pelo contrário. Graças a eles o mundo aprendeu a falar português, não o das palavras, mas aquele que chega ao ouvido do outro através das cordas da guitarra. Com trejeitos de Sergio Leone, Tó Trips e Pedro Gonçalves são O Bom, O Mau e O Vilão, mas também Camané, Zé Pedro e a Lisboa mulata.

Dead Combo

O concerto navegou pelo ambiente de Odeon Hotel, álbum que trouxe uma nova configuração ao projecto, expandido com a ajuda de Alexandre Frazão na bateria — parabéns ao “chefe Frazão”, 50 anos feitos em palco à meia-noite em ponto – António Quintino no contrabaixo, Gui e Gonçalo Prazeres nos sopros. Quase no final da actuação, Mark Lanegan apareceu para emprestar a voz cavernosa em três temas, um deles o “I Know, I Alone” gravado para o último trabalho. Um elenco de peso que elevou Tó Trips e Pedro Gonçalves ao céu. Hoje, em Coura, foram os maiores entre os grandes, vénia lhes seja feita.

Em números, o Vodafone Paredes de Coura 2018 resumiu-se a 100.000 pessoas, entre os concertos da vila e os do Taboão, João Carvalho, diretor do festival voltou a falar de cumplicidade e disse “jamais” à ideia de alargar o recinto, “o festival é para esta gente”. As datas de 2019 já estão anunciadas: 14, 15, 16 e 17 de Agosto, com o bónus de quinta ser feriado. Fica a promessa de dia forte logo na abertura de portas.

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