Tive uma Ideia

Estes portugueses fizeram 300 mil quilómetros para evitar que adormeça ao volante

A HealthyRoad fez-se à estrada em 2013, pela mão (e mente) de três engenheiros que querem diminuir a distração ao volante, evitando que o condutor adormeça. Têm parcerias com a BMW, Bosch e Huawei.

Através de uma tecnologia de reconhecimento facial que é instalada no espelho retrovisor do carro ou na câmara frontal do telemóvel, sempre que um condutor fecha os olhos ou desvia o olhar da estrada, o dispositivo emite um aviso sonoro

Getty Images/iStockphoto

A ideia de André Azevedo, Filipe Monteiro e Filipe Oliveira, licenciados em Engenharia Eletrotécnica no Porto, já percorreu mais de 300 mil quilómetros de carro, em cinco anos. Destino: uma viagem mais segura. Objetivo: testar a tecnologia desenvolvida pela HealthyRoad , uma startup criada em 2013 para ajudar a diminuir a sinistralidade rodoviária causada pela distração e adormecimento dos condutores. Como? Com uma tecnologia que ajuda a identificar o comportamento de quem vai ao volante e que, este ano, querem inserir no mercado.

“Nós próprios já passamos por situações destas. Já adormeci na A4 de manhã e fui parar à faixa direita”, começa por contar ao Observador André Azevedo. Em Portugal, a distração é a maior causa de acidentes rodoviários, seguida da sonolência (10% do total de acidentes com viaturas), de acordo com os dados da Associação Portuguesa das Sociedades Concessionárias de Autoestradas ou Pontes com Portagens (APCAP). Trata-se de “um problema real, que as estatísticas refletem em todo o mundo”, acrescenta o engenheiro de 30 anos.

Foi por causa deste problema que decidiram “olhar para a tecnologia e para o que ela poderia resolver”. André e Filipe Monteiro criaram a empresa, incubada no Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto (UPTEC), juntamente com Filipe Oliveira — que começou por fazer o convite para integrar o projeto, mas que atualmente é apenas sócio.

Como é que a HealthyRoad impede o condutor de adormecer? Através de uma tecnologia de reconhecimento facial que é instalada no espelho retrovisor do carro ou na câmara frontal do telemóvel: sempre que um condutor fecha os olhos ou desvia o olhar da estrada, o dispositivo emite um aviso sonoro.

Este sistema é ativado sempre que o condutor for a mais de 30 quilómetros por hora. O objetivo da empresa é que, até 2020, a tecnologia esteja instalada de origem em alguns carros, mas que também esteja disponível através de uma aplicação gratuita para smartphones, para que todos possam ter a mesma oportunidade (e segurança).

Há mais quatro coisas que os algoritmos conseguem analisar: a fadiga, o stress, as emoções e o reconhecimento facial (em casos relacionados com a segurança do veículo). Foram todos trabalhados juntamente com médicos e psicólogos, refere André, e são ferramentas que podem ser utilizadas para outras funções, que não incluem apenas o mercado automóvel. Aos condutores, são aplicadas numa lógica de personalização, até porque, explica o engenheiro, “o futuro passa pela capacidade que o carro vai ter de interpretar o que se está a passar com as pessoas que estão lá dentro”.

Vais entrar no carro e querer que ele te diga ‘olá, tudo bem? Reparei que vais para o ginásio, calculo a melhor rota para lá?’, tu dizes que sim e ele faz isso de forma automática. Mas, para que isso aconteça, vai ser preciso criar algoritmos como os nossos, que conseguem detetar as emoções, o batimento cardíaco, para detetar o stress e por aí fora”, refere André ao Observador.

Em agosto de 2014, a empresa conseguiu dar o seu primeiro grande passo e recebeu um investimento inicial de cerca de 200 mil euros, através de um business angel – um investidor privado que fornece capital para uma empresa iniciar atividade. Este investimento permitiu aos jovens trabalhar os algoritmos necessários, recrutar engenheiros e avançar no “difícil mundo que é o mercado automóvel”. A empresa concorreu também a um programa de aceleração no Chile e foi a única empresa portuguesa a ser aceite. Foi André quem embarcou nessa viagem.

É com as parcerias que fizeram com a BMW, a Bosch e a Huawei — para desenvolvimento da app — e com “contactos recentes com a Honda e a General Motors” que a HealthyRoad realiza os testes de conceito. A ideia é permitir que a tecnologia seja incluída nos produtos dessas marcas,  conseguindo, assim, entrar no mercado.

Este ano, a startup pretende fechar o ano com uma faturação de 200 mil euros – um valor ao qual nunca tinham chegado –, através de outras áreas onde aplicaram esta tecnologia (como o marketing, por exemplo) e da parceria com a Bosch, que os subcontratou para serviços de desenvolvimento de produtos.

Uma app que convenceu os camionistas

À medida que a projeto se foi desenvolvendo, quiseram saber o que pensavam os condutores sobre a ideia. Foi por isso que, em 2016, a HealthyRoad lançou uma aplicação gratuita e, nessa mesma semana, os resultados permitiram tirar algumas conclusões. “O servidor estourou porque foram feitos 5.000 downloads da aplicação só numa semana”, relembra André. Mas, ressalva, “foi um bom problema”. “O mercado disse-nos que precisávamos de lançar a app. Foram 5.000 pessoas que nos disseram que estavam interessadas naquela aplicação e isso foi muito bom”, refere.

A HealthyRoad prevê que até ao final do ano seja disponibilizada gratuitamente uma nova app para smartphones.

Um pouco por toda a Europa, foi chegando feedback: “Tínhamos pessoas a ligarem, por exemplo, do Luxemburgo e de França a felicitarem a ideia e, às vezes, a contarem alguns problemas que poderiam ter com a aplicação e nós ajudamos a corrigi-los”. A empresa percebeu também que havia um público em particular, dentro dos condutores profissionais, a quem este software faz falta. “Os camionistas são quem necessita muito deste tipo de tecnologia, pois o motorista faz todos os dias a mesma viagem, a uma hora exata, à mesma velocidade e não pode parar em qualquer sítio”.

Entrevistamos vários camionistas e todos eles disseram que preferiam conduzir um camião com a nossa tecnologia. Foi uma coisa muito estranha, porque na altura dos testes eles chegaram a partir dispositivos, não mostraram assim tanta satisfação por estarem a ser monitorizados. Mas, a partir do momento em que o software começou a ser útil, começaram a perceber que tinham ali uma tecnologia que os apoiava, que quando eles adormeciam ou estavam distraídos apitava”, disse André.

André e Filipe decidiram, entretanto, retirar a app do mercado, pois estão a desenvolver uma nova versão, que vai estar disponível até ao final deste ano, com funções mais avançadas. Quem fez o download da aplicação antiga, no entanto, pode continuar a utilizá-la.

Enquanto continuam a trabalhar, já há também dados dos últimos 115 mil quilómetros de testes: 500 quilómetros são “inexistentes” porque os condutores adormeceram, uma distância que equivale a uma viagem entre Porto e Algarve. Quanto à distração, a análise indica que em cerca de 2.300 quilómetros “a malta estava distraída a olhar para qualquer coisa que não a estrada”, explica André.

De um quase adeus à startup às mudanças no mercado automóvel

Criar e gerir a HealthyRoad tem sido uma verdadeira “montanha-russa”, muito pelas mudanças que o mercado automóvel tem vindo a sofrer. Em 2017, contavam com uma equipa de nove pessoas, mas “havia muito a lógica de as grandes empresas não trabalharem com startups porque não precisavam” e o projeto esteve prestes a fechar portas devido ao desinteresse no investimento e ao facto de não terem conseguido levantar capital.

Chegámos a enviar emails para todos os nossos contactos a dizer que íamos fechar”, conta André, acrescentando que quando falavam com possíveis investidores, estes olhavam para eles como “uma equipa que tem boa tecnologia”, mas que não estava a trabalhar numa necessidade do mercado naquela altura.

Além disso, este era ainda um mundo novo para os engenheiros: eram jovens e nunca tinham trabalhado no mercado automóvel, muito menos criado uma startup. Mas foi também nesse momento que surgiu a parceria com a Bosch e a empresa teve uma oportunidade para continuar.

Desde aí, o mercado mudou e “as grandes empresas estão a começar a trabalhar com startups porque já perceberam que a inovação não pode partir só delas”, explicou André, garantindo que o objetivo é “crescer novamente, com o recrutamento de novos colaboradores já em setembro e o levantamento de capital nos Estados Unidos”.

Criar uma startup não foi algo em que pensei logo quando saí da universidade, mas depois penso no que tenho vindo a fazer desde miúdo, quando trabalhava numa associação, quando criei um grupo específico dentro dessa associação, e na realidade vinha um bocado em linha com tudo isto”, acrescenta o engenheiro.

A viagem continua, agora com a luta para entrar no mercado. “Estamos numa luta que é complicada. Sabemos que nos Estados Unidos uma em cada 10 startups sobrevive. Em Portugal o rácio deve ser completamente diferente. Provavelmente 30 para uma. Estamos a tentar dar a volta ao sistema e a essas estatísticas”, conclui o empreendedor.

*Tive uma ideia! é uma rubrica do Observador destinada a novos negócios com ADN português.

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