EDP

A saída da EDP e o desconforto do Governo. Talone abandonou reunião após esperar horas pelo ministro Pinho

João Talone admite que Governo do PS "não estava confortável" com o facto de ser presidente da EDP. E contou episódio em que abandonou reunião depois de esperar horas pelo ministro Manuel Pinho.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

João Talone, admitiu que havia uma certo desconforto da parte do Governo socialista, liderado por José Sócrates, com a sua manutenção no cargo de presidente executivo da elétrica após o final do mandato. O ex-presidente da EDP, ouvido esta terça-feira na comissão parlamentar de inquérito às rendas excessivas da eletricidade, foi questionado sobre as circunstâncias da sua substituição, em 2006, por António Mexia, um ano depois da chegada do PS ao Governo.

O gestor disse que não sabe quem tomou a iniciativa, acrescentando que muitas vezes as coisas que parecem não são. João Talone comentava as notícias então publicadas, segundo as quais, o Governo e o ministro da Economia, Manuel Pinho, tinham pedido aos acionistas privados da EDP para indicarem um modelo de governo e nomes para um novo mandato na administração da empresa.

João Talone admitiu que o novo Governo pensaria que ele era “um tipo do Durão Barroso”, que exercia funções de primeiro-ministro quando esteve à frente da EDP. “E eu não sou de ninguém”.O gestor sublinhou ainda que nunca foi “uma pessoa dócil” em relação aos ministérios da Economia, “Não era preciso ser muito inteligente para perceber que o acionista Estado não estava confortável. Havia coisas que não fiz”. E quais? Talone contou primeiro uma história simples. De vez em quando, o “Sr. ministro convocava-nos para uma reunião”. E lembra um caso em que foi chamado ao Ministério da Economia para preparar uma cimeira luso-espanhola na área da energia. Mas ele, (o ministro Manuel Pinho), não aparecia. E ao fim de algumas horas de espera, “eu levantava-me e ia-me embora”, frisando que quando o fez nessa ocasião seria já uma da manhã.

João Talone deu outro exemplo mais complicado para ilustrar essa falta de confiança, e que até foi público, a chamada “guerra” com a Iberdrola, a elétrica espanhola que era então a maior acionista privada da EDP. O ex-gestor lembra que denunciou o acordo de parceria com a Iberdrola porque a empresa não cumpriu o acordo quando tentou fundir-se com a Endesa. Mas as duas empresas mantinham as participações cruzadas — eram acionistas uma da outra — e a Iberdrola, que chegou a ter 10% da EDP, exigia um lugar na administração da elétrica portuguesa.

O ex-presidente da EDP contou que sentiu da parte do Governo que havia uma vontade de ser mais flexível neste ponto, isto numa altura em que a Iberdrola em Portugal era liderada por Joaquim Pina Moura, que tinha sido ministro socialista. E ele era contra porque as duas empresas eram concorrentes diretas. E avisou: “No dia em que entrarem pela porta, eu saio pela janela”.

De resto, Talone revelou que contactou os acionista privados da EDP — à data o BCP, o Grupo José de Mello, Cajastur, entre outros — para lhes dizer que se pretendessem que fizesse um novo mandato, estaria disponível, mas teriam de sinalizar essa vontade antes do final do ano de 2005. Se não fizessem de forma pacifica, Talone transmitiu que faria um comunicado no dia 2 de janeiro a informar que não ia continuar à frente da empresa. E foi o que fez.

O gestor admitiu também que terá sido por vontade do BCP, então liderado por Paulo Teixeira Pinto, que a EDP adotasse um novo modelo de governo dualista inspirado no que tinha sido introduzido há pouco tempo no banco — e que mais tarde alimentou a chamada guerra pelo controlo do BCP. Teixeira Pinto é indicado por várias fontes como tendo tido a iniciativa de propor o nome de António Mexia para a presidência executiva da EDP em 2006, cargo que ainda hoje é ocupado por este gestor.

A substituição de João Talone na presidência executiva da EDP teve ainda como pano de fundo o chumbo da Comissão Europeia à operação que dava o controlo do negócio do gás natural à elétrica. Essa operação, chumbada por razões de concorrência e nos primeiros meses de presidência da Comissão de Durão Barroso, era o aspeto central da estratégia proposta pelo gestor para a elétrica.

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