Presidente Marcelo

Nem uma palavra de política no adeus de Marcelo à sua “casa mater”

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Marcelo é "o último moicano no ativo licenciado na pré-história". Alguém a quem "não falta capacidade de sonhar, falta tempo". Foi assim a jubilação do professor-presidente. Na terceira pessoa.

E no fim, Marcelo foi professor. Só no último minuto da sua lição de sapiência se permitiu a ser Presidente. Com uma capa de estudante aos ombros, dada por um aluno porque “é a capa que guarda todas as memórias do estudante”, Marcelo Rebelo de Sousa foi emotivo e “sonhador” no discurso da sua jubilação. Mas não foi político, nem tão pouco Presidente. Falou de si próprio na terceira pessoa — “o último moicano no ativo licenciado na pré história” –, e desfez-se em recordações. Com a “querida amiga de sempre” Leonor Beleza ao lado, o estudante–professor–e–agora–Presidente, passou em revista as seis décadas que passaram desde que pela primeira vez, em 1966, ainda na ditadura, pisou o chão da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa como aluno. Um aluno a quem hoje “não lhe falta capacidade de sonhar, falta é tempo e modo para esses sonhos”. Sim, o aluno que é ele próprio.

Nem uma palavra de política, pelo menos de atualidade política, houve no adeus de Marcelo à universidade. No minuto final de um total de mais de 30, o professor lá se permitiu a ser Presidente. “Permitam-me uma palavra final do Presidente da República: uma palavra de esperança no futuro desta Universidade, de todas as universidades, no futuro da educação, e uma palavra de esperança no futuro de Portugal”, disse.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Tudo o mais foram palavras do ex-aluno e agora ex-professor, que sabe que exercia a docência para “mais ouvintes do que os que cabiam no anfiteatro número 1” da faculdade de Direito, e que por vezes escrevia no sumário da aula apenas e só: “conversa amena com os rapazes”. Porque a aula não tinha passado disso mesmo, de uma conversa amena com a rapaziada.

Foi essa conversa amena que quis reproduzir no dia do adeus à “casa-mãe” — mesmo que desta vez não tenha sido preciso escrever sumário no livro de ponto. “A universidade, a minha universidade, foi sempre a minha praça-forte, a minha casa ‘mater’, o meu último refúgio. Tudo quanto fiz ou faço em tantos outros domínios fi-lo a partir dela e por causa dela”, afirmou no momento em que se despediu daquela que foi a sua “mais fascinante aventura”. “E depois de cada incursão, fora dela, à minha escola regressava sempre, sem exceção, jubiloso ou derrotado, pois era ela a verdadeira vocação da minha vida”, disse, admitindo que mais do que a política, é a academia a sua vocação e o seu talento.

Saudosista, Marcelo agradeceu “às dezenas de mestres” que a Universidade lhe desvendou, bem como às “centenas de colegas, docentes e não docentes que a universidade revelou” e às “mais de duas dezenas de milhar de alunos que me encheram os melhores momentos desta incessante caminhada”.

Um discurso sem política mas uma plateia recheada de…políticos

A cerimónia, tão solene quanto obriga uma sessão solene de abertura do ano letivo, começou com um cortejo académico ao som da marcha Pompa e Circunstância. Na frente ia um jovem aluno de Medicina, também vice-campeão universitário de judo, com a massa de prata da universidade; ao seu lado, o reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra; a presidente do conselho geral da Universidade, Leonor Beleza, e, claro, o convidado de honra, Marcelo Rebelo de Sousa. Atrás, desfilaram todos os professores e representantes de todas faculdades da Universidade de Lisboa, com a respetiva bandeira. “Em nome de sua excelência, o Presidente da República, está aberta a sessão”, disse o speaker.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Estava prestes a começar a “oração de sapiência” do professor Marcelo. O pretexto era a abertura do ano letivo, mas o mote era mais simbólico do que isso: seria a última aula de Marcelo, depois de uma vida inteira dedicada à faculdade de Direito, onde lecionou desde 1972, e que frequentou desde 1966.

“É um dia diferente, emotivo”, tinha dito à chegada. E para quem tivesse dúvidas sobre se esta era mesmo a última aula, ou se seria só a última antes da última, disse: “Quando digo que é a última aula, é mesmo a última”. Mesmo assim, o reitor Cruz Serra não resistiu a apelar à permanência de Marcelo na academia. “Esta não é uma lição de jubilação, não é ultima lição, porque a Universidade de Lisboa não prescinde de continuar a contar com vossa excelência”, disse o reitor, minutos antes de Marcelo assumir a palavra.

Na plateia, a assistir àquilo que viria a ser um discurso nada politizado, estavam muitos políticos da atualidade. Dos ex-Presidentes da República Jorge Sampaio e Ramalho Eanes, a representantes dos partidos — incluindo o PCP, na pessoa do líder parlamentar João Oliveira, a plateia era diversificada. Do Governo, à falta de António Costa (que estava em Salzburgo), marcaram presença os ministros da Educação, Tiago Brandão Rodrigues, do Ensino Superior, Manuel Heitor, bem como Eduardo Cabrita e Ana Paula Vitorino, assim como o presidente do PS e líder parlamentar, Carlos César.

Do PSD, estiveram mais ex-dirigentes do que dirigentes atuais: Manuela Ferreira Leite e Luís Marques Mendes não faltaram, apesar de este último ter chegado já perto das 16h, bem para lá da hora marcada (15h). Também Teresa Leal Coelho ocupou um dos lugares na primeira fila. O presidente da câmara de Lisboa, Fernando Medina, também não faltou, assim como o Presidente da Assembleia da República, Eduardo Ferro Rodrigues.

A política chegou pela mão do reitor

Se Marcelo não falou de política, a política chegou ao auditório da Aula Magna pela voz do reitor da Universidade de Lisboa, António Cruz Serra, que criticou duramente a política para o ensino superior do atual Governo, em particular o encerramento de vagas para alunos, a falta de financiamento e outras medidas que considera um ataque à “autonomia universitária”.

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

“O total de 7214 novos estudantes que este ano recebemos na Universidade de Lisboa, após a primeira fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior é, lamentavelmente, menor do que em anos anteriores”, começou por dizer, referindo-se à decisão do Governo de encerrar vagas em Lisboa e no Porto para valorizar as instituições do interior. “Não podemos compreender que o nosso Ministério force as melhores universidades a fechar as suas portas a excelentes estudantes, quando tinham todas as condições para os receber”, sublinhou.

Marcelo estava ao lado de Cruz Serra: acenava, sorria, e lançava olhares de preocupação, mas quando chegou a sua vez de subir ao púlpito nada disso sobre os problemas do ensino superior. Leonor Beleza, antes de si, tinha resumido a essência do professor-Presidente: Alguém que “exerce a coisa pública mas permanece aquilo e regressa àquilo que sempre foi”. Ou, por outras palavras: “Alguém que permanece aquilo que é, muito para lá do exercício de cargos políticos”. “O professor de sempre que se despede formalmente da sua profissão”.

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Maria João Avillez
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Marcelo selfizou o país, Costa “descontraiu-o” (disse ele) do “passismo”. A questão é se se faz um país que valha a pena só com gente descontraída e selfizada. E saber como e quem o paga, claro.

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