Três sismos com magnitudes entre 3,3 e 3,9 na escala de Richter foram registados ao largo de Sines em seis minutos esta manhã, comunicou o Instituto Português do Mar e da Atmosfera. O primeiro foi registado às seis horas, 52 minutos e um segundo a 55 quilómetros para sudoeste de Sines e teve origem a 17 quilómetros de profundidade. O segundo, de magnitude 3,3 na escala de Richter, aconteceu às seis horas, 58 minutos e 11 segundos no mesmo epicentro mas a 15 quilómetros da superfície. Um segundo depois, outro sismo foi registado a 65 quilómetros de Sines com origem a 31 quilómetros de profundidade.

Os abalos foram sentidos em várias zonas pela população — o Instituto Português do Mar e da Atmosfera diz que foram principalmente notados em Odemira e Odeceixe — e os primeiros testemunhos começaram a ser partilhados nas redes sociais.  No Centro Sismológico Euro-Mediterrânico, uma pessoa em Lisboa (a 111 quilómetros a norte do epicentro) diz ter ouvido “um barulho e logo de seguida um ligeiro abanar que durou de cinco a 10 segundos”. Em Odemira, a 80 quilómetros da origem do sismo, outra pessoa sentiu “um curto abanão como um comboio”. Em Sintra, a 122 quilómetros do epicentro, uma testemunha viu “os copos a abanar” e compara o som do fenómeno ao da passagem de um comboio. E em Cascais, a 104 quilómetros da origem do sismo, outra pessoa diz que a cama e a porta do quarto “mexeram-se ligeiramente”.

Apesar dos relatos, todos os abalos foram avaliados com intensidade entre os níveis III e IV na escala de Mercalli porque “foram sentidos por algumas pessoas dentro de habitações” e “os objetos pendurados no interior delas abanam”. No entanto, nenhum deles “causou danos pessoais ou materiais”.

Porque é que a terra abanou?

Em termos sísmicos, Portugal está condicionado pela interação entre três placas tectónicas, peças que compõem a litosfera da Terra e que se movimentam entre si: a euroasiática, a norte-americana e a africana. A placa euroasiática e a placa norte-americana estão a afastar-se uma na outra, num movimento de divergência que é responsável pela intensa atividade sísmica registada nos arquipélago dos Açores. À conta disso, pouco antes de estes três sismos acontecerem, um abalo de magnitude 2,2 na escala de Richter foi registado na Fossa de Hirondelle às seis horas, 36 minutos e 54 segundos com origem a cinco quilómetros de profundidade. Mas terramotos em Portugal Continental têm a ver com o choque entre uma parte específica da placa euroasiática e a africana.

Terramotos com origem na Colina Infante Dom Henrique, a região onde os três sismos aconteceram, acontecem porque o país fica numa região muito particular da placa euroasiática: é a microplaca ibérica, que se movimenta para leste e se vai soldando à placa asiática. Essa microplaca, no entanto, é influenciada pela placa africana, que se está a mexer para noroeste. À medida que a placa africana se mexe, ela comprime a microplaca ibérica e cria as chamadas falhas intraplaca. A microplaca sofre um levantamento litosférica e racha-se em falhas onde se acumula muita energia.

“Esse é o motor dos sismos desta natureza em Portugal”, confirma ao Observador o geólogo Fernando Carrilho. Mas 0 Instituto Português do Mar e da Atmosfera ainda não conseguiu determinar a que falha tectónica em específico é que os abalos estão relacionados: “Não são sismos muito grandes e isso dificulta essa descoberta. Além disso foram registados a alguma profundidade. A maior parte das pessoas só se apercebeu deles porque ouviram sons ou perceberam que os objetos estavam a abanar”, explica o cientista.

Questionado sobre se é normal a ocorrência de três sismos tão próximos uns aos outros, tanto em proximidade geológica como em termos temporais, Fernando Carrilho explica que o sismo mais forte foi o primeiro de todos. Os outros dois foram réplicas, isto é, tremores secundários que acontecem porque as rochas que compõem a crosta terrestre em torno da falha que originou o sismo principal está a reajustar-se àqueles movimentos. Os sismos são libertações súbitas de energia que acontecem quando os materiais na crosta da Terra cedem às pressões a que são sujeitos em profundidade. Às vezes, essa energia é libertada aos poucos, provocando vários sismos num curto período de tempo e associados ao mesmo evento geológico.

Outro sismo registado na noite de domingo em Góis

Os três abalos desta manhã aconteceram entre oito e nove horas depois de outro terramoto, com magnitude de 2,0 na escala de Richter, ter sido registado a quatro quilómetros a oeste-sudoeste de Góis e a 19 quilómetros de profundidade. Este terramoto, em nada relacionado com os três registados esta manhã, também foi avaliado com intensidade III na escala de Mercalli e foi sentido sobretudo na Lousã. Este sismo teve origem na falha de Seia-Lousã.

De acordo com um estudo das Comunicações do Instituto Geológico e Mineiro, assinados pelos geólogos António Sequeira, Pedro Proença Cunha e Manuel Bernardo de Sousa, essa falha é uma das que define a Cordilheira Central Portuguesa — a outra é a falha de Cebola. A Cordilheira Central é um sistema que se ergue no centro da Península Ibérica, desde o centro de Portugal até ao centro-noroeste de Espanha. À semelhança da Cordilheira Bética (que vai desde o golfo de Cádis até Alicante e Baleares), também esse Sistema Central é resultado da compressão que a placa africana exerce na microplaca ibérica e que está a abrir cada vez mais falhas no solo português.