André Correia desliza aos ziguezagues pela Rua da Academia das Ciências, em Lisboa, empoleirado numa trotinete elétrica. Pára um pouco mais à frente, ao lado de um carro que está estacionado. O aparelho, arraçado de Segway, pertence à Lime, empresa norte-americana que chegou a Portugal (mais concretamente à capital do país) no início deste mês de outubro, com centenas destes meios alternativos de transporte para aluguer. Os preços baixos são um apelo, a facilidade de utilização outro: os utilizadores só têm de encontrar uma trotinete largada num qualquer lugar, abrir a aplicação de telemóvel da marca, fazer scan do código QR e começar a circular, para depois a largar de novo onde quiser. E é precisamente no “largada em qualquer lugar” que pode residir o problema. Ou um deles.

Em países como Espanha e França, o fenómeno cresceu de forma tão exponencial que não foi acompanhado de regulação — colocando dúvidas relativas, por exemplo, ao lugar específico onde estes veículos motorizados devem circular. Em França, a ministra dos transportes já anunciou medidas para proibir a circulação em passeios e em Barcelona as queixas dos moradores levaram à interdição destas trotinetes no centro da cidade.

Já lá iremos. Para já, o caso de Portugal. O fenómeno é ainda recente, mas já começam a surgir algumas vozes de alerta. “As trotinetes são largadas no passeio, no meio da estrada, em qualquer lugar”, atira Rui Manuel, funcionário de limpeza urbana da freguesia da Misericórdia, enquanto retira algum do seu equipamento de trabalho da bagageira de uma carrinha verde. “É uma aqui, outra ali. Quando chego para trabalhar às 6h30 da manhã não há nada, mas ao longo do dia elas vão chegando, sobretudo aqui, no centro histórico. Ao fim-de-semana ainda é pior”, assegura. E vira-se para Tiago Costa, colega de trabalho: “Não é assim, Tiago?”. O homem sai da parte lateral da carrinha para lhe dar razão. “Sim, aqui nesta zona é só abandonos. Devia haver um controlo maior, porque às vezes as pessoas têm dificuldade em circular em certas zonas”, garante. “Há uns tempos vi duas trotinetes abandonadas no parque do Alvito, em Monsanto, durante duas semanas!”.

André Correia utiliza trotinetes elétricas regularmente, desconhecendo que tem de usar capacete (Foto: KIMMY SIMÕES / OBSERVADOR)

Muitas das pessoas ainda não vêem o fenómeno com preocupação. É o caso de Jacira, que está a distribuir bolos a quem passa à porta da Padaria do Bairro, no Chiado. Teve uma trotinete estacionada à porta do café desde as 9h00 da manhã até meio da tarde. Mas garante que isso “não incomodou” quem ali trabalha. “Até pensava que era do carteiro, nunca tinha visto nada assim aqui. Penso que terá sido um esquecimento”, relata ao Observador.

Ainda assim, há quem deixe o alerta. E que se vá queixando de trotinetes a passar a escassos centímetros de peões, largadas em passeios — por vezes atravessadas — e a obstruir a passagem das pessoas e o acesso dos carros a garagens. Exemplos que configuram uma espécie de lado B de um transporte que teria tudo para dar certo: é ecológico, barato e fácil de utilizar. Foram estas características, aliás, que cativaram André Correia, o tal jovem de 18 anos que desliza pela Rua da Academia das Ciências.

“Costumo usar as trotinetes para ir e vir das aulas. É um bom meio, fácil de requisitar e de andar”, explica ao Observador numa curta paragem no caminho entre a Escola Josefa de Óbidos e a sua casa, a poucos quarteirões. O próprio jovem reconhece que, quando termina de a usar, “a trotinete fica sempre na rua, onde me der mais jeito largar”. “Confesso que não me preocupo muito se fica a tapar o passeio”, assume.

Foi o diretor da Lime em Portugal que explicou ao Observador como funciona o sistema de recolha de trotinetes da empresa. “Temos uma equipa que, a partir das 21h, faz a recolha e carrega as trotinetes durante a madrugada e, de manhã, as volta a colocar nos nossos pontos de recolha, chamados hotspots, que são espaços acordados com a Câmara de Lisboa e onde elas ficam parqueadas”, esclarece Nuno Inácio. Durante o dia não há recolha de trotinetes, para que os utilizadores as possam encontrar facilmente perto de si. “Apenas fazemos o reequilíbrio das trotinetes pela cidade, para não termos uma grande concentração num único espaço”, explica ainda o responsável. Entre as 21h00 e as 9h00 não há trotinetes na rua, razão pela qual Rui Manuel assegura que só de manhã “é que está tudo certinho”. O Observador contactou a Câmara Municipal de Lisboa para perceber se a autarquia está atenta ao fenómeno e se tem algum plano de ação relativamente a esta matéria, mas não obteve resposta.

Trotinetes paradas no meio do passeio ou a tapar a entrada de garagens: eis algumas das queixas dos lisboetas (Foto: KIMMY SIMÕES / OBSERVADOR)

Nuno Inácio, responsável da Lime, não sabe precisar quantos funcionários se encarregam da recolha dos aparelhos porque a equipa “é dinâmica” e assenta numa comunidade de juicers — ou seja, pessoas que se oferecem para ajudar no processo e que são remuneradas por cada trotinete recolhida. “Têm carregadores que lhes cedemos nos nossos eventos onboard de juicers. Recolhem as trotinetes, carregam-nas em casa ou, se forem muitas, num estabelecimento, e depois, de madrugada, colocam-nas nos nossos hotspots“, esclarece.

São pessoas que têm um contrato de prestação de serviços e podem receber entre três a dez euros por cada trotinete, dependendedo da localização geográfica e do estado da bateria: se estiver mais distante da cidade e com menos bateria, tem um valor mais alto”, explica Nuno Inácio, que garante que a empresa começou com “mais de uma centena de juicers e que a comunidade tem crescido diariamente”.

O que diz o Código da Estrada sobre as trotinetes?

Ao contrário do que acontece noutros países, a circulação de trotinetes a motor já está regulamentada em Portugal. De acordo com o artigo 112 do Código da Estrada, este tipo de equipamentos (mas apenas aqueles que são movidos a motor) são equiparados a velocípedes. O que quer dizer muitas coisas, mas essencialmente duas: que os utilizadores não podem circular nos passeios, mas apenas nas estradas e ciclovias; e que são obrigadas a usar um capacete.

Nuno Inácio garante que essa informação é passada ao utilizador quando faz o registo na aplicação. “Temos um passo a passo em que informamos as pessoas de todas as regras e deveres a que são obrigadas. Há informação ao usuário”, garante o diretor, que reconhece, ainda assim, que a empresa não fornece os capacetes exigidos por lei e os utilizadores não os podem adquirir nem alugar nos hotspots da marca. “Temos vindo a educar o utilizador e o Código da Estrada também o exige. Na aplicação, apresentamos as regras. Oferecemos capacetes nos eventos em que estamos presentes e temos vindo a observar que muitos utilizam o seu próprio capacete porque já o utilizam em outros meios de mobilidade”, diz.

Algumas das trotinetes podem obstruir ou dificultar a circulação nos passeios (Foto: KIMMY SIMÕES / OBSERVADOR)

O responsável acredita que os utilizadores cumprem. “Pensamos que sim. Ainda estamos em Portugal há pouco tempo, mas, na nossa experiência internacional, não temos tido relatos de pessoas que não tenham cumprido“. Ainda assim, André Correia confessa ao Observador que não sabia que tinha de usar capacete. E os colegas Rui Manuel e Tiago Costa garantem que, dos muitos utilizadores que cruzam o seu caminho diário, nunca viram nenhum utilizar proteção para a cabeça.

Alertam, sim, para o descuido de alguns condutores. “Não têm cuidado nenhum”, assinala Rui Manuel. “Vêm sempre na pressa”. Tiago concorda: “O máximo que as trotinetes andam é o máximo a que eles conduzem. Isto pode ser um perigo”. Ato contínuo, Rui volta-se, de novo, para Tiago. “Não te disse da chinesa que caiu à frente do Minipreço?”. Enquanto o companheiro sacode a cabeça a dizer que não, vira-se para nós: “Aconteceu à minha frente, na semana passada. Eram 9h00 da manhã, rua de São Paulo. Uma senhora entrou na linha do elétrico, saiu da linha do elétrico, entrou de novo e caiu”, explicou, acompanhando com a mão o movimento ziguezagueante da mulher. “Se tem batido com a tola…”.

Em Portugal, as trotinetes elétricas não podem circular nos passeios (Foto: KIMMY SIMÕES / OBSERVADOR)

Nuno Inácio diz não ter recebido ainda registo de acidentes, mas garante que o serviço da Lime inclui um seguro para todos os utilizadores. “Em cada viagem, estão cobertos e esse é o motivo pelo qual cada telefone apenas pode desbloquear uma trotinete de cada vez”, diz. “O número de telefone e a conta estão ligados a uma utilização e estão abrangidos pelo seguro. Temos uma linha de apoio 24 horas em que a pessoa pode relatar o acidente e mandar fotografias. Damos todo o apoio — tanto no momento do acidente como posteriormente”.

Proibições em Espanha e em França

Noutros países europeus, o tema tem gerado já ecos mais ruidosos. É o caso de Espanha. Comecemos por Madrid, onde a falta de regulação específica para estes veículos a motor tem levantado questões sobre as vias específicas por onde devem circular. As normas mais recentes são de 2005 e colocam as trotinetes elétricas no mesmo saco das trotinetes sem motor. Na prática, isto faz com que os veículos elétricos, que podem atingir velocidades entre os 20 e os 30 quilómetros por hora, possam circular em passeios e calçadas, ao lado de peões — que, em condições normais, não caminham a mais do que cinco quilómetros por hora.

De acordo com o El País, o novo plano de mobilidade sustentável, aprovado nos próximos meses, vai obrigar as trotinetes elétricas a sair dos passeios e a circular apenas em ciclovias e estradas de um sentido — que vão estar limitadas à velocidade máxima de 30 quilómetros por hora. Diz o jornal espanhol que isto coloca um problema: em Madrid a rede de ciclovias é ainda reduzida e não está ligada, o que faz com que as trotinetes tenham a sua circulação altamente limitada. Este limbo legal está, até, a retardar a chegada de algumas empresas do ramo à capital espanhola, como é o caso da Bbhuo, que já manifestou intenção de circular em Madrid mas estará a aguardar maior clarificação legal.

Ainda em Espanha, mas em Barcelona, as trotinetes elétricas já não podem circular no centro da cidade há cerca de um ano. A rede de ciclovias até era ampla (cerca de 200 quilómetros), não colocando problemas de maior na circulação. O problema eram as queixas dos moradores, que apontavam para uso indevido por parte dos utilizadores (essencialmente turistas). Os inconvenientes levantados levaram mesmo as autoridades locais a proibir o aluguer destas trotinetes no centro da cidade — fazendo com que, além das ciclovias, apenas pudessem transitar num raio pequeno longe da Cidade Velha. Fora da proibição ficaram, apenas, os moradores que usassem o transporte para se deslocarem para o trabalho.

Em França, onde a ausência de regulação também colocou problemas, a ministra dos transportes anunciou, este mês, que as trotinetes elétricas vão ser proibidas nos passeios, podendo circular apenas em estradas e ciclovias. Elisabeth Borne avançou que uma nova lei de mobilidade, apresentada nas próximas semanas, vai criar uma nova categoria para estes veículos nas normas de trânsito — facilitando o controlo da sua utilização por parte das autoridades.