Vinte mil trabalhadores da empresa estatal Corporação Elétrica Nacional da Venezuela (Corpoelec) abandonaram o trabalho nos últimos dois anos, devido a desmotivação profissional, baixas condições salariais, falta de uniformes e de equipamentos, anunciou esta terça-feira fonte sindical. O alerta foi dado aos jornalistas, em Caracas, pelo diretor da Federação de Trabalhadores Elétricos da Venezuela (Fetraelec), Alexis Rodríguez, que denunciou ainda condições inseguras de trabalho e assédio laboral.

“Desde janeiro de 2018 o êxodo já atingiu os 10.000 trabalhadores”, disse, precisando que mais de metade dos trabalhadores da Corpoelec emigraram e que não há pessoal suficiente para realizar as operações regulares e para atender as emergências.

Alexis Rodríguez acrescentou que a Corpoelec abandonou, em finais de agosto último, as negociações para um novo contrato de trabalho coletivo e denunciou que a empresa não cumpre as obrigações salariais, eliminou bónus e outros benefícios usufruídos pelos trabalhadores, além de não respeitar as tabelas salariais. “Há muitos trabalhadores que já manifestaram a intenção de deixar a empresa se até dezembro não for assinado um novo contrato de trabalho coletivo”, frisou.

Segundo a Fetraelec, a empresa elétrica estatal venezuelana tem tentado resolver a situação do êxodo de trabalhadores, recorrendo à contratação temporária de pessoal inexperiente, até 31 de dezembro de 2018, ao abrigo do programa estatal “chamba juvenil” (trabalho juvenil).

Na Venezuela são cada vez mais constantes e prolongados os apagões elétricos, uma situação que o Governo venezuelano tem atribuído a roedores, iguanas, raios, e mais recentemente a atos de sabotagem. A oposição de centenas de trabalhadores da empresa atribuem a situação à falta de manutenção e de investimento no setor.

Os apagões, que até há pouco ocorriam com maior frequência no interior do país, afetam agora, com regularidade a capital, onde também se registam protestos pela situação. Em La Florida, na capital do país, a população está desde a última quinta-feira sem energia elétrica. Em La Campiña, onde funcionam os escritórios da agência Lusa, não há energia elétrica desde a noite de segunda-feira. Em El Paraíso Caracas, a população viu restituído, na noite de segunda-feira o serviço elétrico, depois de sair à rua para protestar por estar há três dias sem eletricidade.

Na segunda-feira, o atual vice-ministro de Comunicação Internacional do Ministério de Relações Exteriores e ex-diretor da Comissão Nacional de Telecomunicações, William Castillo, usou a rede social Twitter para pedir fosse reparado um apagão na zona. “Sem luz em Bello Monte, desde as 21h45 horas de ontem… Alóoo, Corpoelec?”, escreveu no Twitter.

Os apagões têm também sido questionados pelo próprio regime, nomeadamente no portal de notícias dirigidas a revolucionários, Aporrea. “Um dos maiores exemplos do desastre governamental encontra-se na Corpoelec (…) os constantes apagões são uma demonstração do desastre deste sistema, devido a múltiplos fatores, entre eles a voraz corrupção que devorou milhares de milhões de dólares, em grande parte com compras fantasmas de equipamentos que jamais chegaram à Venezuela”, lê-se naquele portal.

Segundo o Aporrea, “a falta de investimento, consequência da escassez de divisas, leva a que progressivamente os equipamentos e as redes fiquem obsoletas face ao aumento da procura e as novas tecnologia”. “A partida de profissionais e técnicos devido aos salários de fome que os trabalhadores recebem e a burocracia transfere para os clientes as responsabilidades inerentes às empresas elétricas estatais”, explica o portal.