Título: “O Fim do Fim da Terra”
Autor: Jonathan Franzen
Editora: Dom Quixote
Páginas: 264
Preço: 16,60€

Pode parecer peculiar que num mesmo livro Jonathan Franzen tenha decidido reunir ensaios sobre o seu tio Walt, observação de aves (a que Franzen se dedica obsessivamente), redes sociais, o onze de Setembro e escritores tão diferentes como William Vollmann e Edith Wharton. Talvez o critério cronológico pudesse resolver o problema, mas a verdade é que, ainda que quase todos os textos tenham sido escritos nos últimos cinco anos, o ensaio acerca da queda das Torres Gémeas data de dois dias após o atentado e de nenhuma forma temática pode ser equiparável a todos os outros. A solução para este enigma está, a meu ver, na semelhança que Franzen vai subtilmente sugerindo existir entre pássaros, literatura e uma vida bem vivida, semelhança essa que, à boa maneira de Franzen, vou tentar expor através de uma lista, a que decidi chamar Razões Para Amar Pássaros, mas a que poderia facilmente ter chamado Manual Contra Cabeças Erguidas.

Razão #1: Os pássaros são bonitos. No entanto, esta razão, que esperaríamos ser o principal motor de um escritor sofisticado, é sempre menosprezada por Franzen, um observador de aves mais preocupado em fazer listas das espécies de aves que já viu do que propriamente em apreciar a beleza dos pássaros que persegue de binóculos em punho.

Razão #2: Os pássaros estão cá há muito tempo. Em “Da Importância das Aves”, Franzen explica-nos que o seu amor por pássaros advém de estes serem“os representantes mais vibrantes e disseminados da Terra como ela era antes da chegada das pessoas. São, além disso, descendentes dos maiores animais que alguma vez pisaram a Terra”. Franzen vê melancolicamente o mundo como um sítio cuja beleza está a definhar e em que os pássaros, antigos indicadores da vitalidade dos nossos ecossistemas, são agora apenas recordações de um mundo não fragmentado. É, aliás, neste contexto que se inserem tanto o ensaio acerca da sua antiga e desaparecida amizade com William Vollmann e David Foster Wallace como o texto acerca do atentado contra as Torres Gémeas (mais do que acerca do episódio histórico e concreto, “13/09/2001” é sobre o momento em que um mundo é irremediavelmente destruído, diante da nossa absoluta impotência). Inabalavelmente convicto de que o aquecimento global é o maior flagelo ambiental que a Terra já experimentou, Franzen defende, ainda assim, que não deve ser na redução dessa catástrofe que nos devemos focar. A guerra contra o aumento das temperaturas está já perdida, pelo que só através de um amor aos pássaros é que nos podemos libertar da alienação ambientalista. A tragédia vaga e distante do aquecimento global é, para Franzen, um buraco negro para o qual lançamos todo o discurso político e ambiental. No entanto, só encarando o mundo não como um globo gigantesco a aquecer apesar dos nossos esforços, mas antes como um conjunto de ecossistemas povoados por pássaros que amamos é que poderemos salvar alguma coisa da destruição.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Razão #3: Os pássaros são diferentes de nós. No melhor ensaio do livro, Franzen fala da sua enorme admiração e simpatia por Edith Wharton, uma mulher arrogante, “profundamente conservadora, adversária do socialismo, dos sindicatos e do sufrágio feminino” que não procurava nunca a admiração dos leitores e era, ainda para mais, rica e feia, duas características que Franzen afirma reduzirem drasticamente a nossa empatia e que reduzem certamente a sua. Ainda assim, a qualidade literária de um escritor não depende (ao contrário daquilo em que a crítica contemporânea parece acreditar) da nossa admiração pela sua personalidade ou pela elevação moral das suas personagens. Se a literatura nos pode ensinar alguma coisa, é, segundo Franzen, a olhar para os outros não à procura de nós próprios, mas de um retrato demorado, organizado e claro de um desejo, ainda que esse desejo seja por coisas que condenamos.  Por contraponto ao algoritmo das redes sociais e do tipo de comunicação por elas potenciada, a literatura apresenta-nos pessoas com as quais não teríamos interesse em tomar café, que não vêem os mesmos filmes que nós vemos e que defendem coisas que repudiamos. No entanto, essas pessoas que, por lapso, se deitam com as irmãs, essas pessoas que vão a países no fundo de tocas de coelhos, essas pessoas que nunca entraram nos bares que frequentamos pela simples razão de não existirem, essas pessoas bizarras que os livros nos apresentam são criaturas totais e infinitamente mais reais do que a versão truncada e caricatural dos outros que nos chega até nós em duzentos e oitenta caracteres ou menos. E é precisamente isso que podemos também aprender com os pássaros, esses animais alados tão diferentes de nós “a quem a [nossa] presença não podia ser mais indiferente” e cuja missão parece ser em parte recordar-nos “de que não somos a medida de todas as coisas”.

Razão #4: Os pássaros são muitos, rápidos e pequenos, e é o seu lado fugidio que faz com que, estando sempre no meio de nós, nunca nos pertençam. Em “Faltou Uma”, Franzen explica que o atractivo na actividade de observação de aves é que “o fracasso é inevitável, porque nunca haverá ninguém que veja todas as espécies do planeta; e jogos em que de antemão se possa garantir o resultado não merecem ser jogados”.

O encanto do jogo a que Franzen se dedicou é então o de reproduzir o fracasso a que a experiência humana inevitavelmente nos conduz. Franzen, educado como protestante, descreve sempre a vida e a literatura como radicadas no erro e não na virtude. Diz Franzen que “a melhor literatura (…) convida-nos a perguntar se não estaremos um pouco errados, talvez mesmo completamente errados, e a imaginar por que razão outra pessoa poderá odiar-nos”. Observar os pássaros que insistem em escapar-nos é uma boa forma de nos lembrar que seremos sempre observadores de pássaros fanáticos de alheiras, ambientalistas em Ford Focus, feministas patriarcais e cidadãos conscienciosos que não pedem facturas. E tentar com um binóculo avistar todas as espécies de pássaros que povoam os céus é também uma boa forma de nos lembrarmos que todos os que andam nas ruas de cabeça erguida orgulhosos do seu virtuosismo ornitológico talvez tenham visto um ou outro pintassilgo, mas o corrupião-de-santa-lúcia escapou-lhes por entre os dedos.