O líder do Partido Trabalhista inglês, Jeremy Corbyn, vê no governo de António Costa um exemplo de combate à austeridade e um modelo a seguir na Europa. Num discurso no Congresso do Partido Socialistas Europeu, em Lisboa, o líder trabalhista defendeu que a linha de austeridade seguida pela União Europeia desde 2008 foi a grande responsável pelo Brexit e pelo crescimento da extrema-direita. Corbyn lembrou depois o exemplo português no combate à austeridade: “Em Portugal, quebrámos feitiço da austeridade. Diziam que a única hipótese era reduzir os serviços públicos e cortar na função pública. E, por isso, quero prestar a minha homenagem a António Costa que desafiou e contrariou todas as expectativas“.

O líder do Labour estendeu depois o elogio aos restantes partidos da “geringonça” e contou que conviveu com a esquerda portuguesa nos anos 70 (numa referência ao Partido Comunista) após o fim do regime fascista. “Presto aqui homenagem aos parceiros do PS, que apoiam António Costa, pois ajudaram a criar uma aliança progressista que permitiu virar a página da austeridade falhada“, disse Corbyn.

A austeridade serviu para Corbyn diabolizar a direita europeia ao longo de todo o discurso. O líder do Labour defendeu que o facto de Bruxelas “apoiar a austeridade e políticas falhadas neoliberais causou sérias dificuldades aos trabalhadores de toda a Europa“. Esta postura, defendeu o líder da oposição inglesa, causou “danos na credibilidade de vários partidos social-democratas europeus e teve um papel fundamental no voto a favor do Brexit”.

Jeremy Corbyn explicou ainda que este período foi uma lição para os partidos socialistas e sociais-democratas que apoiaram medidas de austeridade, que levaram os eleitores a “perder a fé” nesses partidos. Por isso, o caminho é contrariar a desilusão causada nos vários países inspirada em Tatcher e Reagan.

“Temos de acabar com o facto de a maior parte da fortuna estar na mão de uma elite (…), os trabalhadores têm de ter direito a uma parcela da riqueza que criam”, defendeu Corbyn. O líder trabalhista vê no Governo de Costa um exemplo deste caminho. “Estamos a aprender com a experiência aqui em Portugal. Compete-nos a nós saber responder a este desafio. Se não estivermos à altura desta tarefa, o poder vai passar para as mãos dos populistas”, acrescentou o líder do Labour.

Brexit: Corbyn apela a chumbo de acordo de May e lamenta não haver debate

Sobre o Brexit, Corbyn lembrou que a decisão de sair da União Europeia tenha ocorrido num país “onde um milhão de famílias recorrem a bancos alimentares, mais de quatro milhões de crianças vivem na pobreza e os salários são menores do que em 2010”. E acrescentou: “Nós respeitamos essa decisão [do Brexit]; mas é nossa obrigação moldar o que vem a seguir.”

Quanto ao acordo que vai a votos a 11 de dezembro, Corbyn exigiu a Theresa May que volte a negociar, num tom mais duro, com Bruxelas, já que “mais negociações são um pequeno preço a pagar para obter uma solução que funcione para todos.”

Corbyn está confiante que o Parlamento inglês acabará por apoiar um “plano alternativo” para o Brexit, que permita uma “melhor relação com o mercado único”, que não deixe para trás aqueles que estão na pobreza, os que lutam por sobreviver com empregos precários, e que defenda uma “imigração que responda às necessidades reais e não que fomente a xenofobia”. O acordo do Labour, segundo Corbyn, traz “mais investimento” e permite “uma fronteira aberta na Irlanda.”