O romance “Um Passo para Sul”, de Judite Canha Fernandes, venceu, por maioria, o Prémio Literário Revelação Agustina Bessa-Luís/2018, anunciou esta quinta-feira a Estoril-Sol. O prémio, criado em 2008, numa parceria entre a Estoril-Sol e a editora Gradiva, é dotado do valor pecuniário de dez mil euros e prevê a publicação do romance inédito distinguido.

O júri, que foi presidido por Guilherme d’Oliveira Martins, considerou “Um Passo para Sul” um romance com um “alcance humano e social mais profundo”, “fundado num triângulo geográfico e existencial, repartido por Cabo Verde, São Tomé e Açores”, segundo comunicado da Estoril-Sol, enviado à agência Lusa.

“Os registos linguísticos e imaginativos do crioulo inscrevem-se criativamente na estrutura global da narrativa, contribuindo para a formatação de uma linguagem literária muito estimulante”, afirma o júri, que realçou o facto de ser “um romance em que o amor, mas também a violência terrível exercida sobra as mulheres, se constituem em traves mestras do universo existencial das personagens“.

“Se o final deste romance sugere um futuro de esperança e luminosidade, não faz esquecer a contundência psicológica que o estrutura e que a todos nos agride no seu alcance humano e social mais profundo”, afirma o júri, segundo o mesmo texto.

Judite Canha Fernandes nasceu no Funchal e, aos oito anos, foi viver para Ponta Delgada, onde cresceu. Segundo comunicado da Estoril-Sol, “é escritora, performer, feminista, bibliotecária, ativista, mãe, investigadora, sem nenhuma ordem em especial”. A escritora, que fez várias conferências e palestras em vários países, representou a Europa no Comité Internacional da Marcha Mundial das Mulheres entre 2010 e 2016.

Doutorada em Ciência da Informação, e pós-graduada em Ciências Documentais, Biblioteca e Arquivo, Judite Canha Fernandes disse à Lusa: “Em 2015 tomei a decisão radical de me dedicar por completo à escrita. Era uma decisão adiada desde a infância, que tive a coragem de tomar nesse momento, por um equilíbrio de circunstâncias pessoais e de vontade”. “Digo desde a infância porque desde que comecei a ler, não só comecei a ler muito, em todos os bocadinhos que tinha, como soube que queria ‘aquilo'”, sublinhou.

Foi através da leitura que “me fui fazendo romancista”, afirmou a autora, que considerou uma decisão “radical” dedicar-se a tempo inteiro à escrita. “Dedicar-me a um trabalho onde é difícil sobreviver financeiramente, a não ser que tenhas o privilégio do desafogo financeiro ou da riqueza, é uma decisão radical”.

À Lusa disse que fora da sua área laboral, o tempo que “restava era dedicado aos ativismos”, e “escrever exige tempo”. “O início desse processo passou por reabrir dez anos de cadernos, voltar a ler o que fora escrevendo e tentar compreender o que eventualmente tivesse forma de livro. Nesse processo, as primeiras coisas que surgiram, mais prontas, foram poesia, que de algum modo é uma linguagem literária que surge mais naturalmente” à autora, disse à Lusa.

“Um dos primeiros livros que escrevi neste período foi ‘Caderno de música’, que não cheguei a publicar. Esse livro é precisamente um exercício em torno dessa minha longa e profunda indecisão, também por uma necessidade de brincar com isso, de me auto provocar”.

Sentia que era uma área de experimentação que queria muito desenvolver e que há na ficção, para mim, um processo mais consciente, mas estruturado, do que na poesia. Tinha alguns esboços de contos. Tive vontade de trabalhar primeiro o conto muito curto, e fui progressivamente estendendo essa dimensão, no sentido de uma prática que me aproximasse gradualmente de estruturas mais complexas”, afirmou quanto à ficção.

Judite Canha Fernandes pretendeu também “a respiração necessária” para que uma história mais complexa se pudesse construir, “poder ver detalhes, deixar que personagens se fossem dando a conhecer, até poder conviver com elas o tempo necessário para que o romance se escrevesse”.

“Um Passo para Sul” surgiu no âmbito deste processo. “Tive uma bolsa da lusofonia que me apoiou na criação e me permitiu voltar a Cabo Verde, lugar onde vivi e onde se passa parte do romance. É o meu primeiro romance. Que seja uma boa história, é o que desejo. Poder escrevê-lo foi maravilhoso”, rematou.

O júri, além de Guilherme d’Oliveira Martins, em representação do Centro Nacional de Cultura, foi constituído por José Manuel Mendes, pela Associação Portuguesa de Escritores, Maria Carlos Loureiro, pela Direção-Geral do Livro, Arquivos e Bibliotecas, Manuel Frias Martins, pela Associação Portuguesa dos Críticos Literários, e, ainda, por Maria Alzira Seixo e Liberto Cruz, convidados a título individual, e Nuno Lima de Carvalho e Dinis de Abreu, em representação da Estoril-Sol.